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PERÍODO MONÁRQUICO

A retórica em vez da ação, a ciência como luxo

Durante os longos anos do império, discutia-se no Parlamento se investir em pesquisa valia a pena

A transmigração da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, veio mudar esse quadro, sacudindo um pouco a letargia cultural da antiga colônia. Havia, então, entre os lusitanos, um esforço no sentido de modernização, para enfrentar as mudanças inexoráveis advindas da queda do Antigo Regime. O espírito da Ilustração permeava agora a elite portuguesa. Contudo, centrada demasiadamente nos aspectos utilitários, essa retomada da CeT na metrópole marcava passo, sem perspectivas brilhantes na época da transmigração. De toda forma, Portugal possuía uma infra-estrutura científica e tecnológica que lhe permitia alinhar-se entre as nações modernas.

Portanto, como seria natural, chegando a Rio de Janeiro, D. João VI começou a transplantar para cá as instituições de cunho técnico-científico. No mesmo ano em que chegou, 1808, fundou a Academia de Guardas Marinhas, o Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia, a Escola Médica-Cirúrgica do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional e o Real Horto, além de uma fábrica de pólvora. Ainda no mesmo ano, criou a Real Fábrica de Ferro do Morro de Gaspar Soares, confiando a direção ao intendente Câmara. Nos anos seguintes, estabeleceram-se outras instituições do gênero, como o Museu Real (1818, mais tarde Museu Nacional), junto com algumas medidas para a implantação de uma infra-estrutura técnico-científica.

O Brasil precisava, de alguma forma, remediar o seu atraso científico e técnico. Afinal, fora guindado à posição de metrópole de reino imenso, apesar de decadente. E nenhum país moderno poderia sobreviver sem possuir um mínimo de um sistema em CeT. A própria guerra, cada vez mais complexa, não podia prescindir de conhecimentos técnicos cada vez mais aperfeiçoados. Daí a necessidade de academias militares. Como a exploração racional das riquezas de uma região depende de pesquisas geográficas, geológicas, mineralógicas e biológicas, justificava-se a criação do Museu Nacional para aproveitar o conhecimento das ciências naturais em benefício do comércio, da indústria e das artes. Por outro lado, qualquer aspiração de modernidade exige certo grau de industrialização.

Com esse objetivo, foram realizados esforços para a implantação da indústria siderúrgica no país. É verdade que desde o século XVI, quando Afonso Sardinha instalou a sua fábrica rudimentar em Araçoiaba, perto da atual Sorocaba, o ferro vinha sendo trabalhado em pequenas forjas do tipo catalão para produzir ferramentas como picaretas, pás, machados, facas, facões, panelas e ferraduras, entre outros artefatos. Mas isso não atendia nem de longe às exigências da modernidade. Das várias tentativas feitas, desde a do Morro de Gaspar Soares, passando pela do São João de Ipanema (1810), a de Congonhas de Campo (1811), até a de Monlevade (1817), somente a penúltima teve algum sucesso, graças, em parte, ao aperfeiçoamento na injeção do ar no forno, pela utilização de uma trompa hidráulica.

As pretensões luso-brasileiras de modernização esbarravam na falta de pesquisadores e técnicos capacitados. A CeT é de maturação lenta, requerendo algum tempo para responder às necessidades sociais ou políticas. É preciso ter uma certa tradição, um mínimo de pesquisadores e profissionais capazes de executar as necessidades técnicas e/ou científicas de um projeto político-econômico. O processo de desenvolvimento é complexo, não admitindo uma visão simplória da idéia de custo-benefício. Para acompanhar o futuro, é necessário deixar alguns espaços para as alternativas não alinhadas com as prioridades imediatas.

Uma prova da afirmativa acima pode ser encontrada na própria história daquele século XIX. Na evolução capitalista de antes, a CeT, sobretudo a primeira, só teve papéis marginais. Nem por isso ciência e tecnologia deixaram de ser amparadas em alguns países do centro pelas suas potencialidades econômicas no futuro. Estas eclodiram, de fato, no século XIX. Apenas nessa época o estágio da ciência alcançou o nível de maturação suficiente para poder atender aos reclamos da industrialização, cada vez mais competitiva. Em conseqüência, a Alemanha saltou para a linha de frente na corrida capitalista, graças ao fato de ter priorizado a educação técnica e a investigação científica.

Não foi por acaso que as indústrias mais científicas, como a química e a elétrica, se estabeleceram apenas no século XIX. Na primeira, só após a revolução química feita pelo trabalho de toda uma geração de químicos do século XVIII, como Black, Scheele, Priestley e Lavoisier, é que se tornou possível o conhecimento da estrutura molecular das substâncias. Isto abriu o caminho para a era das substâncias sintéticas. Foi possível, então, o surgimento gradativo de complexos industriais de borracha, de plásticos, de petroquímica, só para citar alguns.

Por sua vez, durante muito tempo, a eletricidade e o magnetismo não passaram de objetos de curiosidade, com os seus estranhos fenômenos servindo de entretenimento para uma classe de pessoas ociosas. O esforço continuado de cientistas como Faraday, Ampère, Oersted, Kelvin, Maxwell e outros, como aventura intelectual, acabou desvendando as leis existentes no universo eletromagnético. A partir de então, começaram as suas aplicações nos setores de energia, transporte, iluminação e informação, entre outros. Essas novas indústrias requeriam investimento de grandes capitais, dando bases para o aparecimento das empresas monopolistas.

Dentro desse quadro mundial, as tentativas brasileiras em estabelecer áreas científicas e técnicas foram bastante tímidas. Aparentemente satisfeita com a sua condição de nação primário-exportadora, a monarquia brasileira não conseguia encarar de forma mais consistente a necessidade de cultivar a CeT. Essa atitude contrasta singularmente com a dos Estados Unidos, empenhados em promover a capacitação tecnológica, contribuindo com inventos importantes no front do desenvolvimento industrial. Para compensar o seu atraso científico, os norte-americanos foram bem-sucedidos em aperfeiçoar o sistema de pesquisa e desenvolvimento. No Brasil, as coisas ocorreram de forma bem diferente.

Sem a pluralidade das culturas e das elites como as da antiga colônia britânica, bem marcantes entre o norte industrial e o sul escravocrata, a sociedade brasileira herdara uma tradição pesada e monolítica do sistema colonial lusitano e da Contra-Reforma, que acarretou a debilidade de segmentos sociais diferentes dos setores dos senhores de engenho e de governantes. A cultura resultante era bastante sólida e se caracterizava pelo imediatismo e desprezo pelo trabalho manual.

Não que a ciência estivesse fora da pauta do dia. Contudo, na tradição de valorizar mais a retórica do que a ação, a maioria do nosso Parlamento ficava discutindo, em boa oratória, se a ciência era relevante ou não, se valia a pena promover a pesquisa ou não e assim por diante. Esse tipo de atitude persistiu durante todo o Império. Mesmo no ocaso desse regime, em 1882, quando D. Pedro II pediu uma pequena verba para a participação brasileira na observação da passagem de Vênus pelo disco solar, a grita foi geral, tanto no Parlamento como na Imprensa. Foram publicadas diversas charges sarcásticas e um matutino estampou um desenho no qual o imperador caía num poço por estar entretido na observação de uma moça atraente, simbolizando Vênus, que passeava pelo céu. Trata-se de uma prova eloqüente de que uma grande parte da elite brasileira considerava a ciência como luxo desnecessário.

O paraíso dos naturalistas
Naturalmente, havia segmentos interessados em fazer avançar a CeT no país, acreditando serem dois dos fatores fundamentais de prosperidade econômica e de progresso cultural. Tudo faz crer que, no início, esse tipo de ação provinha de pessoas influenciadas pela Ilustração. Efetivamente, foram criados, nos primeiros tempos do regime monárquico, varias instituições voltadas para a promoção de atividades científicas ou industriais. São dessa época a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (1825) e da Sociedade Vellosiana (1850).

O Instituto, embora se notabilizasse pela sua atuação no campo da história e da geografia, não deixou de contribuir para estudos naturalistas, pois considerava a história natural como parte da História do Brasil. Instituiu uma Comissão Científica de Exploração que atuou no Ceará entre 1859 e 1861, fazendo levantamentos na área de botânica, geologia, mineralogia, astronomia, geografia e etnologia. A Sociedade Auxiliadora, particular, com cerca de 200 signatários, procurava incentivar a utilização das máquinas e inventos na agricultura, além de difundir conhecimentos úteis. Para isso editou uma revista: O Auxiliador.

Pelas suas páginas pode-se ver como, na agricultura, a química foi substituindo a botânica em importância ao longo do século XIX. A Sociedade chegou a montar um sítio para pesquisas agrícolas, sob a direção de Luís Reidel. A Sociedade Vellosiana foi fundada por naturalistas do Rio de Janeiro, estendendo-se depois para outras províncias. Entre os seus fundadores, notam-se nomes reconhecidos como os de Freire Alemão, Silva Maia, Guilherme Capanema, Frederico Burlamaque, Candido A. Coutinho e o próprio Reidel, já citado. A ênfase das discussões estava em temas nacionais, muitas vezes de cunho prático.

Do mesmo modo, o Museu Nacional, concebido com fins utilitários, foi se transformando numa instituição de pesquisa. Com a contribuição de naturalistas estrangeiros que aqui aportavam em quantidade, começaram a ensaiar-se os primeiros passos da pesquisa biológica. É digno de nota o laboratório de fisiologia experimental de João Batista Lacerda e Louis Couty, criado em 1880, quando o Museu se encontrava sob a direção de Ladislau Neto, cuja atuação foi sempre no sentido de estimular a pesquisa.

No campo geológico e mineralógico, o Museu Nacional possuía um vasto acervo de minerais e um laboratório para análise e ensaios mineralógicos, com atividade nada desprezível. O seu exemplo irradiou-se de norte a sul, propiciando a criação do Museu Paraense (1866), em Belém, e de outras agremiações congêneres. Neste ponto, mais uma vez se constata, com tristeza, que enquanto os museus norte-americanos, instituídos na mesma época, cresciam e se consolidavam, os nossos mal podiam manter-se, apesar da existência de períodos fecundos, mas fugazes, de pesquisa.

Isso apesar do interesse que a natureza brasileira continuava a despertar no cenário internacional. A abertura dos portos decretada por D. João VI foi também abertura para as investigações biológicas estrangeiras represadas durante o século XVIII. Retomaram-se as investigações da nossa flora, fauna e geologia, sucedendo-se visitas científicas de pesquisadores de renome internacional, como Langsdorff, Sellow, Príncipe de Wied-Neuwied, Auguste de Saint-Hilaire, Lund, Warming, só para citar uns poucos.

Sem dúvida, o trabalho mais monumental, resultante dessas expedições científicas, foi a Flora Brasiliensis, de Carl Friedrich Phillip von Martius, baseado no material recolhido por ele próprio, junto com Spix e outros da comitiva da Arquiduquesa D. Leopoldina. Ela viera ao Rio de Janeiro, em 1817, para casar-se com D. Pedro de Alcântara, depois o primeiro imperador do Brasil. A Flora, cuja publicação foi iniciada em 1840 por Martius, só foi completada 66 anos depois, com a colaboração de 65 botânicos. Em 130 fascículos em 40 volume sin-fólio, com 3.000 estampas, descreve 20.000 espécies, das quais cerca de 6.000 eram desconhecidas.

Também não deixa de ser extraordinária a contribuição do país para a concretização da Teoria de Evolução das Espécies, um dos maiores feitos científicos do século XIX. Tanto Charles Darwin como Alfred Russel Wallace, propositores da Teoria, estiveram colhendo dados aqui. O primeiro, a bordo do Beagle, passou por São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro em 1832, voltando à Bahia e a Pernambuco, quatro anos mais tarde. O segundo explorou a Amazônia, em torno do Rio Negro, durante quatro anos a partir de 1848. Como se não bastasse, Henry Walter Bates descobriu nas suas andanças de onze anos pela Amazônia (1848-1859) o mimetismo das borboletas. É um achado fundamental para o entendimento da seleção natural, mecanismo central da Teoria da Evolução. Encantado com a Amazônia, ele a chamou de o Paraíso dos Naturalistas.

Outro que se fascinou com a natureza brasileira, mas desta vez, com a de Santa Catarina, foi Fritz Müller. Ele veio ao Brasil em 1852, com 30 anos de idade, e aqui permaneceu até a sua morte, em 1897. Nos seus 45 anos de investigação biológica no país, conseguiu resultados excelentes nas áreas de embriologia, de ecologia, de etologia e mesmo de genética. O seu trabalho mais relevante refere-se a um outro tipo de mimetismo de borboletas, o de imitação recíproca, diferente daquele estudado por Bates.

Tratava-se de mais uma prova essencial para o evolucionismo. Müller publicou-o em 1864, com o título de Für Darwin. A repercussão mundial foi imediata, dando renome internacional ao seu autor. Thales Martins, um dos nossos mais reconhecidos fisiologistas, considera Fritz Müller um dos maiores biologistas do século XIX. Todas essas provas da Teoria de Evolução obtidas em pesquisas feitas no Brasil constituem-se em pontos favoráveis à nossa tese de que o país participou efetivamente da história da CeT, no âmbito internacional.

Do café às ferrovias
Esses acontecimentos deram-se no contexto econômico mundial da afirmação do capitalismo industrial. Este mundializava-se cada vez mais, reforçando a idéia de um mercado internacional para poder escoar os produtos fabricados em massa. Nesse aspecto, a velha estrutura mercantilista atrapalhava os planos dos novos rumos da economia, sendo colocada em xeque. Os ideais do livre-cambismo espalhavam-se, inflados pela propaganda liberal emanada pela Velha Albion, vulgo Grã-Bretanha. No Brasil, essas idéias foram defendidas, já em 1804, por José da Silva Lisboa, futuro Visconde de Cairu. Ele tinha a indústria em grande apreço, mas o país foi na direção contrária, procurando novos produtos agrícolas para substituir o ouro e a prata que escasseavam.

Algodão e sobretudo cana-de-açúcar voltaram, no princípio do século, a alcançar posições importantes na economia, fazendo renascer o fastígio do Nordeste. Mesmo quando eles entraram de novo em decadência, nos meados do século, a saúde financeira da nação como um todo não sofreu abalo, graças à ascensão do café, borracha e cacau. Até essa época, o pequeno mercado brasileiro, pois a maioria da população era escrava, não exercia muita atração aos capitalistas industriais da Grã-Bretanha. Na verdade, eles ainda implantavam a malha ferroviária no seu próprio país. Não é de estranhar que apesar da vigência de um decreto imperial, de 1835, concedendo privilégios para a construção de ferrovias interligando Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul, nada tenha acontecido de verdade.

A partir da segunda metade do século XIX, no entanto, a situação começou a mudar em função, sobretudo, da prosperidade do café. A necessidade de transporte exigiu a instalação das ferrovias, indo ao encontro dos planos de exportação industrial da Inglaterra. De igual forma, para melhorar o embarque dos produtos agrícolas, foi preciso melhorar os portos. Essas aspirações não alcançaram o êxito esperado, mas os trens começaram a circular em 1854, graças a uma iniciativa de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá. Naquele ano, terminava a instalação da primeira ferrovia brasileira, ligando o município de Estrela a Petrópolis.

O projeto da estrada baseara-se nos estudos dos engenheiros ingleses William Bragge, Robert Milligan e William G. Ginty. Tinha uma extensão de 14,5 quilômetros, com a bitola de 1,676 metro. Desde então, multiplicou-se o número de companhias ferroviárias, tais como a Estrada de Ferro D. Pedro II (1854, depois a famosa Central do Brasil) a The São Paulo Railway (depois a igualmente célebre Santos-Jundiaí), a Companhia Paulista de Vias Férreas e outras. No início, a maioria dos projetos ficou a cargo de engenheiros ingleses ou norte-americanos. Mas os nacionais tiveram participações importantes na condução do processo. Por exemplo, Christiano Benedito Ottoni, engenheiro militar, dirigiu por bom tempo a construção da ferrovia D. Pedro II.

E Honório Bicalho, formado igualmente pela Escola Militar, e Francisco Pereira Passos, egresso da Escola Central. Eles projetaram o trecho de Juiz de Fora da mesma estrada. Nessas e outras tarefas, ficava clara a importância de formar engenheiros e técnicos em quantidade, tarefa em parte cumprida pela Escola Militar e pela Escola Central, desdobramentos da antiga Academia Imperial Militar. Diante da demanda cada vez mais crescente, a Escola Central transformou-se em Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Alguns jovens foram estudar engenharia na Europa. Em conseqüência, nas últimas décadas do século, constituiu-se uma competência nacional capaz de fazer frente a algumas questões ferroviárias relevantes.

Uma das polêmicas candentes, na qual se envolveu o engenheiro paulista Antônio Francisco de Paula Souza, versava sobrea superioridade ou não da bitola estreita em relação à larga. Paula Souza, o mesmo que fundaria depois a Escola Politécnica de São Paulo, defendia o uso da bitola estreita no seu estudo Estradas de Ferro na Província de São Paulo. Hoje, a maioria das ferrovias brasileiras segue a bitola métrica. Numa bitola ou noutra, a verdade é que se construíram poucas ferrovias.

Mas, nesse panorama, o sucesso da construção da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, entre 1880 e 1885, merece destaque. Construída sob a direção dos engenheiros João Teixeira Soares e Guilherme B. Weinschenk, o seu projeto é do brasileiro Antônio Pereira Rebouças. Essa estrada, construída num terreno acidentado de região montanhosa, é uma combinação engenhosa de túneis e pontes, sendo ainda hoje uma das poucas que não sofrem com o problema de deslizamento das encostas.

As ferrovias, sobretudo, as paulistas, foram veículos por excelência da modernização, levando à integração de vastas regiões, abrindo caminho para novas regiões produtoras, tornando-se sede de atividades técnicas por meio das oficinas de reparo. Chamaram atenção também para a necessidade de pesquisas mais abrangentes, como no episódio da construção da E. F. D. Pedro II, por método de simples aderência, no trecho do Rio de Janeiro até a Barra do Piraí, quando se tornaram necessários investigações geológicas, feitas por Louis Agassiz e Charles Frederic Hartt.

Pelas mãos do imperador
As comissões geográficas e geológicas, criadas nessa época, fizeram trabalhos exemplares de investigação. A Comissão Geológica do Império (1875-1877), sob a direção do mesmo Hartt, conseguiu esclarecer em seus traços gerais a estrutura geológica brasileira, além de recolher cerca de 500 mil amostras de minerais. A despeito do seu êxito, a Comissão foi desativada, em nome de uma duvidosa economia. Essa tem sido uma constante nos países subdesenvolvidos – sacrificar a ciência e a pesquisa tecnológica em favor de empreendimentos supostamente mais rentáveis, sob a ótica do imediatismo.

Mesmo havendo na época, em escala mundial, um boom de investigação geológica estimulada pela procura de matéria-prima para as indústrias químicas e para a petroquímica. Na província de São Paulo, estatuiu-se, em 1886, uma Comissão Geográfica, sob a responsabilidade de Orville Derby e E. Hussak, com a finalidade de fazer levantamentos de cartas geográficas, topográficas, geológicas e agrícolas, além de realizar estudos de meteorologia e botânica. Já na fase republicana, no ano de 1891, foi criada, em Minas Gerais, uma comissão com objetivos semelhantes.

Essa tradição de pesquisa geológica continuou com a criação do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (1907), sob a direção de Derby, enfrentando sempre dificuldades crônicas pela falta de apoio oficial.Como se viu, no período monárquico, cada vez mais ficava clara a necessidade de alcançar competência científica e tecnológica. Esforços foram feitos nessa direção, alcançando-se um certo sucesso, pois a pesquisa começou a freqüentar algumas instituições brasileiras. Entrementes, ela não prosperou, como se patenteou na Guerra do Paraguai, quando se evidenciou o nosso despreparo nas técnicas militares. Qual teria sido a razão disso? A resposta não é fácil.

Não há mais dúvidas de que existiam segmentos sociais interessados em promover a CeT, como mostraram os estudos feitos na segunda metade do século XX pela geração de novos historiadores. Ainda falta pesquisar muito para esclarecer alguns pontos nodais, mas algumas coisas podem ser ditas. No Brasil Monárquico, pesou muito a tradição colonial, aliada ao tipo vigente de economia, na falta de compreensão do papel da pesquisa como meio para atingir os padrões da civilização, para usarmos os termos da época. Mesmo as pessoas bem-intencionadas e idealistas, de sincera fé nas atividades científicas e tecnológicas, muitas vezes não conseguiam apreender a sua verdadeira dimensão no concerto mundial.

Nesse sentido, um exemplo paradigmático foi o do Imperador D. Pedro II. No período em consideração, parece que ninguém fez mais que ele pela ciência no Brasil. O seu nome está ligado à maioria dos eventos importantes dessa área, como à instalação do Laboratório de Fisiologia Experimental no Museu Nacional, já mencionada, à criação da Escola de Minas de Ouro Preto (1875), à fundação da Estação Agronômica de Campinas (1887), ao melhoramento do Observatório Nacional, entre outros. Não só isso. Ele esteve presente em quase todos os grandes eventos técnico-científicos do mundo, conheceu e correspondeu-se com inúmeros cientistas famosos no cenário internacional. Porém, ao que tudo indica, o seu posicionamento é o de monarca esclarecido, protetor de artes e de ciências, e não o de um estadista contemporâneo, articulador de uma política científica e tecnológica voltada para o fortalecimento futuro da nação.

É bem verdade que ainda não se fez nenhum estudo mais profundo e sistemático sobre esse aspecto da vida de D. Pedro II e pode-se estar incorrendo numa lamentável injustiça. Não é muito conhecida, por exemplo, a sua ação pelo reflorestamento da Tijuca, no Rio de Janeiro, primordialmente com espécies nativas da região contígua de Guaratiba, como forma de proteger as encostas e reerguer a biodiversidade do local.

Não obstante a forma artesanal de plantio, a continuidade do processo garantiu a formação da maior floresta urbana do mundo. Do mesmo modo, ele fez a substituição, por sugestão de A. Glaziou, de espécies exóticas por nativas, na arborização de ruas, parques e jardins do Rio de Janeiro – fonte de inspiração, no século XX, para Roberto Burle Marx projetar os seus jardins à base de plantas tropicais. Esses exemplos recomendam cautela na avaliação da atuação de D. Pedro II, ainda mais se recordarmos o turbulento jogo de poder entre as elites, existente no seu reinado. Todavia, isso não muda o fato de que o Brasil ocupava uma posição medíocre em CeT, no ocaso do Império.

Madame Durocher, pioneira da obstetrícia

Madame Durocher não foi uma daquelas mulheres de má fama que vieram para o Brasil, em séculos passados. Pelo contrário, trilhou um caminho que a aproxima da santidade. Maria Josefina Matilde Durocher (1809-1893) nasceu em Paris, chegou à Bahia com a mãe e naturalizou-se brasileira. No Rio de Janeiro, matriculou-se no curso de parto na Faculdade de Medicina. Tornou-se a primeira parteira diplomada no Brasil e publicou trabalhos sobre obstetrícia. Foi a primeira mulher aceita como sócia da Academia Imperial de Medicina, em 1871.

A atendente da Casa Imperial, cargo que lhe garantia clientes ricos, não deixou de socorrer os pobres. Durante 60 anos ajudou a trazer ao mundo milhares de bebês, além de fazer tratamentos ginecológicos e tratar das doenças dos recém-nascidos. Perita médico-legal, nas epidemias de febre amarela (1850) e cólera-morbo (1855) foi convocada ao trabalho. Era interessada em questões sociais. Fez um projeto sobre a fiscalização das amas-de-leite e um outro sobre a emancipação dos escravos. Teve carreira excepcional, numa época de escassas oportunidades para mulheres.

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