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ETNOARQUEOLOGIA

A tecnologia ditada pelo coração

Índios do Xingu definem seus processos técnicos por razões simbólicas

Vamos imaginar que todos os registros tenham desaparecido e que, daqui a alguns séculos, um arqueólogo pesquisa as ruínas do local onde se erguia, no fim do século 20, a aldeia dos índios Asuriní, no Rio Xingu, perto de Altamira, no sul do Pará. Provavelmente, ele vai estranhar o aparecimento de certo tipo de cerâmica com uma freqüência muito maior entre os restos deixados pelo grupo. Nada demais. As mulheres Asuriní acreditam, piamente, que o mingau de milho que cozinham na época da colheita do cereal, em março e abril, não fica gostoso se for preparado em panelas velhas.

Assim, todos os anos, dedicam-se afanosamente a preparar novas panelas de barro para garantir o sabor do alimento do grupo, enquanto as panelas do ano anterior são desprezadas e vão parar no lixo. Como esse costume não é aplicado a outros tipos de cerâmica usados pelo Asuriní, não é de se admirar que apareçam muito mais cacos de panela-de-fazer-mingau-de-milho entre os restos que o grupo está deixando para o futuro.

Esse tipo de contribuição, capaz de esclarecer aspectos que a simples análise de vestígios materiais não conseguiria resolver, é dada por uma disciplina chamada etnoarqueologia, surgida na década de 1960, quando um grupo de arqueólogos dos Estados Unidos desenvolveu trabalhos que procuravam estabelecer uma relação mais estreita entre a arqueologia e a antropologia.

O objetivo da etnoarqueologia, em resumo, é obter subsídios para que contextos arqueológicos possam ser interpretados a partir de contextos etnográficos. A disciplina é também um dos recursos usados por Fabíola Andréa Silva, do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), na tese de doutorado que está terminando, com base em pesquisas sobre a produção de cerâmica dos Asuriní e a fabricação de cestos de palha pelos Kayapó-Xikrin, outro grupo que vive no sul do Pará.

As informações obtidas por Fabíola na região do Xingu estão servindo para sua tese de doutorado, em fase de conclusão, As tecnologias e seus significados: um estudo etnoarqueológico de sistemas tecnológicos dos Kayapó-Xikrin e dos Asuriní do Xingu , sob a orientação da professora Lux Vidal, do Departamento de Antropologia da USP. O objetivo do trabalho, que conta com recursos da FAPESP para auxílio à pesquisa de R$ 10.780,00, é o de debater o papel desempenhado pelas necessidades de adaptação e pelos aspectos simbólicos na escolha dos processos tecnológicos adotados pelos índios da região.

Além da prática
Tecnologia, no caso, é entendida de uma maneira bem ampla. “A tecnologia não é apenas uma estratégia de adaptabilidade ou de aproveitamento de energia, como se diria no senso comum”, diz Lux Vidal. “O evolucionismo e o economicismo já falaram muito sobre tecnologia e divulgaram a tese de que a necessidade é a mãe da invenção”, prossegue. “Não discordo totalmente disso. Mas a natureza das escolhas tecnológicas e, conseqüentemente, a definição dos estilos tecnológicos são muito diversificadas. Elas passam por esferas que transcendem as razões práticas.”

As duas influências, acha Lux, devem ser ponderadas sem que nenhuma exclua ou se mostre totalmente superior à outra. Pesquisas etnológicas como as que são realizadas em sociedades indígenas têm grande valor, pois todo o processo tecnológico, da escolha da matéria-prima aos procedimentos de produção, pode ser seguido no local, ao lado de variáveis culturais como a organização social, a divisão do trabalho por sexos, a época do ano em que se realizam as atividades. Aspectos cosmológicos também podem ser levados em conta.

Tudo isso poderá levar a novos modelos, mais adequados, para a pesquisa arqueológica. E poderá, também, dar uma grande contribuição para o grande debate que, de acordo com Lux Vidal, ocorre atualmente sobre a tecnologia. “A fronteira entre o orgânico e o mecânico e tecnológico está sendo discutida até em termos evolutivos, pois queremos entender o que é o ser humano hoje”, comenta. “Estão em pauta questões filosóficas relacionadas com a tecnologia e por isso é natural que se revigore o interesse na história do desenvolvimento tecnológico das sociedades indígenas e na análise da maneira como tecnologia, meio ambiente e comportamento se relacionam nesses grupos.”

Entender o comportamento
Fabíola Andréa Silva destaca que, em etnologia, arqueologia e etnoarqueologia, a discussão teórica não chega a ser muito diferenciada. “O interesse geral de todas essas disciplinas é o mesmo, entender o comportamento humano”, afirma. No caso de seu estudo, havia também o interesse na relação entre o homem e o seu mundo material. “A diferença entre as disciplinas está na natureza dos dados que cada uma tem à sua disposição para analisar”, prossegue. “A etnologia tem os grupos vivos e a arqueologia apenas os vestígios materiais. Por isso, pratica-se a etnoarqueologia, por meio da qual se tem acesso a aspectos operatórios de produção de itens materiais que não podem ser resgatados apenas nos contextos arqueológicos.”

Na sua pesquisa, Fabíola adotou os princípios metodológicos da chamada living archaeology. “As observações e registros seguem os pressupostos de uma pesquisa de campo antropológica, mas a orientação e a direção partem do olhar, problemas e estratégias de uma pesquisa arqueológica”, explica ela.

Tarefa feminina
Entre os Asuriní, fazer cerâmica é trabalho de mulher. Até mesmo a extração da argila para a fabricação dos vasilhames é tarefa exclusiva do sexo feminino. Mulheres grávidas e menstruadas não podem participar da extração. O grupo acredita que isso estragaria o depósito e, além disso, os vasilhames resultantes seriam danificados durante uma das fases da produção. A fabricação em larga escala do japepaí , a panela usada para preparar o mingau de milho, durante a fase da colheita, faz com que esse tipo de cerâmica seja muito mais comum na aldeia que os outros tipos.

Isso, diz Fabíola, pode ajudar na elaboração de propostas arqueológicas sobre restos de cerâmica e mesmo estabelecer modelos para explicar o tempo de ocupação de um assentamento. “A quantidade de deposição de um determinado item material num sítio pode nem sempre estar associada diretamente com o tempo de ocupação do local”, afirma a pesquisadora. “Pode ter mais a ver com a intensidade e a sazonalidade da produção”, acrescenta. A panela japepaí transformou-se, entre os Asuriní, no símbolo do alimento. É o único tipo de cerâmica usado pelo grupo para ir ao fogo e preparar alimentos.

Fabíola acredita que as questões sociais e de gênero envolvidas no processo de produção da cerâmica apresentam os dados fundamentais para que seja desenvolvida uma arqueologia do grupo de residência, ou household archaeology, cuja ênfase é a organização do trabalho doméstico. “Na arqueologia, sempre houve uma posição muito centrada no papel do homem, mas o papel da mulher é muito importante na household archaeology” , afirma Lux Vidal. “No caso Asuriní, a confecção da cerâmica pelas mulheres é parte de um conjunto de atividades muito mais amplo”, prossegue. “Sua importância está relacionada não apenas com a sobrevivência do grupo doméstico do qual elas fazem parte, mas também à dinâmica da vida social e ritual.”

Proibição aos jovens
No caso dos Kayapó-Xikrin, o trabalho de cestaria é prerrogativa e obrigação dos homens. Mas não de todos os homens. Os mais jovens não podem mexer em certas matérias-primas sem autorização expressa e estão proibidos de fazer certos produtos. A pena para a desobediência, segundo o grupo, é o envelhecimento precoce, doenças, fadiga dos olhos e, em casos extremos, até mesmo a morte. Quando alguém quer aprender a fazer cestos, primeiro simplesmente observa o trabalho de um velho artesão, sem mexer no material. Só depois irá começar a trabalhar com palha, mas sempre sob a supervisão do mais velho.

Fabíola acredita que as restrições impostas ao aprendizado da técnica refletem relações de poder entre diversas categorias dentro do grupo, mas só parcialmente. “Quem sabe pode negociar mais facilmente bens e serviços”, declara. “Mas seria mais adequado falar em prestígio social, reconhecimento e construção do eu, para si e para os outros, o que é mais fundamental entre os índios”, diz. Lux Vidal tem opinião parecida. “Existe a questão da hierarquia e do poder nessas práticas”, afirma. “Mas a rigidez de aspectos como interditar o acesso a uma matéria-prima ou à produção de um bem material a um sexo ou faixa etária está vinculada a diversos fatores, como a estruturação social, a progressividade do aprendizado e a preservação dos processos de produção, entre outras atividades.”

Os Kayapó-Xikrin fazem cestos seguindo dois tipos de produção. Um, chamado pelos especialistas de cestaria expediente, leva a produtos simples, de confecção rápida, quase sempre descartados depois do uso imediato. O outro, a cestaria de curadoria, leva a produtos mais elaborados, de fabricação sofisticada, melhores e mais duradouros que os outros. Como no caso das panelas dos Asuriní, esses registros podem levar a comparações importantes. E, sem dúvida, facilitar o trabalho dos arqueólogos, atuais e futuros.

Sinais de pedra

Desde que começou a pesquisar os Asuriní na aldeia do Posto Indígena Kuatinemu, na margem direita do Rio Xingu, em 1996, a doutoranda Fabíola Andréa Silva verificou a presença de vários materiais arqueológicos na região. Entre os mais importantes estão sítios líticos em afloramentos rochosos nas margens do rio. Esses locais existem, inclusive, no porto de desembarque, em frente ao posto da Funai, e em locais destinados aos banhos da comunidade.

Os Asuriní chamam as bacias de polimento de Mayra enewa, o banco de Mayra, e os amoladores de machados de Gapypapera, as pegadas dele, referindo-se a Mayra. O nome Mayra significa o ancestral mítico e criador dos Asuriní e do gênero humano. Ele também criou os animais e objetos culturais e ensinou aos Asuriní as técnicas e atividades envolvidas com sua subsistência. Para os Asuriní atuais, as pedras com as marcas de Mayra caíram do céu, há muito tempo.

Além dos sítios próximos à aldeia, Fabíola encontrou mais sete, num igarapé próximo a uma antiga aldeia usada pelo grupo.Fabíola também encontrou restos de cerâmica que não foi produzida pelos Asuriní num dos sítios líticos, na antiga aldeia e na aldeia atual. A datação dos cacos revelou uma idade de 650 anos.

Perfis
Lux Vidal é professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).Obteve o bacharelado no Sarah Lawrence College, no Estado de Nova York, nos Estados Unidos, e especializou-se em Antropologia, com mestrado e doutorado pela USP.

Fabíola Andréa Silva tem 35 anos. É doutoranda em Antropologia Social no Departamento de Antropologia da USP.

Projeto :As Tecnologias e Seus Significados: Um Estudo Etnoarqueológico de Sistemas Tecnológicos dos Kayapó-Xikrin e dos Asuriní do Xingu
Investimento : R$ 10.780,00

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