De lápis e papel na mão, fazendo contas sentado lado a lado com colaboradores e alunos, ou calculando na lousa com giz, nunca sozinho. Foi assim que Abraham Hirsz Zimerman passou grande parte dos seus mais de 70 anos de carreira acadêmica, todos eles ligados ao Instituto de Física Teórica (IFT), em São Paulo, instituição criada em 1951 e incorporada à Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 1987. O pesquisador morreu no dia 4 de setembro, aos 97 anos. Trabalhou até os últimos meses de vida.
Zimerman dedicou-se principalmente à teoria de campos, ou seja, explicar matematicamente fenômenos observáveis, como os sólitons, um tipo de onda que se comporta como partícula e pode ser visto tanto na ocorrência amazonense da pororoca quanto dentro dos cabos de fibra óptica. De acordo com seus colaboradores, gostava do ofício de físico, de enfrentar problemas. Sua longevidade científica permitiu aproximar áreas aparentemente díspares, aplicando métodos e técnicas não usuais em busca de soluções mais simples.
O físico nasceu em Lwow, na Polônia (atualmente Lviv, na Ucrânia), em 13 de julho de 1928, e chegou criança ao Brasil, na década de 1930. Formou-se em física em 1951 pela Universidade de São Paulo (USP) e ali fez amizade com os irmãos Paulo (1925-2005) e Jorge Leal Ferreira (1928-1995). Foi o pai deles, o engenheiro José Hugo Leal Ferreira (1900-1978), que criou em 1951 o IFT. A inspiração era o instituto alemão Max Planck, por onde passaram grandes nomes da física do século XX, incluindo Albert Einstein (1879-1955). E foi da Alemanha e do Japão que vieram os primeiros diretores da instituição, em busca de um ambiente mais favorável à pesquisa após a derrota de seus países na Segunda Guerra Mundial.
O físico dizia considerar a implantação da pós-graduação no IFT uma de suas maiores contribuições, diz Gabriel Vieira Lobo, que em 2023 defendeu sua tese de doutorado em sistemas integráveis sob orientação de Zimerman. Era o fim dos anos 1960 e as verbas do instituto privado, pensado para se dedicar exclusivamente à pesquisa, não davam conta dos gastos. Se a pós-graduação fosse criada, seria possível obter recursos extras da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão de fomento à ciência, tecnologia e inovação recém-criado pelo governo federal. Zimerman, afirma Lobo, teria ameaçado pedir demissão se os cursos de mestrado e doutorado não fossem criados. A resistência de pesquisadores do instituto ocorria pelo temor de que o ensino fosse reduzir a capacidade produtiva da equipe.
Em 1968 aproveitou que boa parte dos diretores estava viajando e, como diretor interino do IFT, assinou a medida que criou o programa, junto com outros dois membros do instituto, Silvestre Ragusa (1933-2016) e o velho amigo Jorge Leal Ferreira, segundo relatou à revista Ciência Unesp em 2009. O início oficial da pós-graduação ocorreu em 1971 e, desde então, o IFT formou 383 mestres e 270 doutores. É detentor da nota 7, a mais alta, no sistema de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Zimerman era conhecido no IFT por ter uma didática particular. “‘Quem ouve ensina, e quem fala aprende’, dizia. Pedia aos alunos que fizessem uma leitura ‘jornalística’ de um artigo científico, de um dia para o outro, para apresentar para ele. Só depois é que nos mandava deduzir as expressões matemáticas”, conta José Roberto Ruggiero, do Departamento de Física da Unesp, campus de São José do Rio Preto, que foi orientado por Zimerman no mestrado e no doutorado, nos anos 1970 e 1980.
A extrema dedicação aos alunos incluía longas jornadas aos sábados “tomando” as contas e tirando dúvidas no casarão da alameda Pamplona, próximo à avenida Paulista, que abrigava o IFT. A atividade de ensino não reduzia sua produtividade porque ele colocava os estudantes para fazer trabalhos originais. “Orientadores normalmente vão supervisionando a distância, com eventuais reuniões. Ele não. Falava: ‘Senta aí’, e ficávamos de copiloto ou de piloto”, diz Lobo, cujo doutoramento foi coorientado pelo colaborador mais próximo do físico no final da vida, José Francisco Gomes, professor do IFT há 35 anos.
A longevidade científica de Zimerman permitiu aproximar áreas díspares, aplicando métodos não usuais
Zimerman é descrito pelos colegas como pragmático. “Ele se interessava por tudo, não era bitolado, tinha uma cultura de física abrangente, sem preconceito com coisas novas. Surgia uma teoria e ele dizia: ‘Vamos estudar’”, lembra Gomes.
“Nos últimos 40 anos, sua pesquisa se concentrou em sistemas definidos por estruturas de simetria, muitas vezes infinitas, e em como essas simetrias não apenas moldam as soluções, mas frequentemente as revelam”, diz a Pesquisa FAPESP um de seus vários colaboradores internacionais Henrik Aratyn, da Universidade de Illinois Chicago, nos Estados Unidos, que desde os anos 1980 passa temporadas no IFT. “Ele abordava esse tema complexo com clareza e humildade, sem reivindicar mais do que realmente compreendia. Evitava declarações grandiosas, fiel ao rigor e à honestidade intelectual.”
Com Aratyn e Luiz Agostinho Ferreira, hoje professor no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, escreveu seu trabalho mais citado, de 1999, que estabeleceu o modelo AFZ, uma forma de calcular infinitas soluções de sólitons em quatro dimensões. “Ele trabalhou em várias áreas de física de altas energias, supersimetria, teoria quântica de campos, física de partículas e nuclear, teoria de cordas e mais recentemente teoria de redes”, conta Ferreira. “Quando se interessava por um assunto, caía de corpo e alma.” Aratyn compara a forma com que abordava as teorias a uma criança aprendendo a andar: destemida, sem se abalar com as quedas. “Solucionado um problema, passava para o próximo. O que importava era a busca pela compreensão.”
O temperamento modesto explica a inusitada defesa de doutorado, em 1987. As finanças do IFT iam mal, em meio a um cenário de hiperinflação que chegou a levar o físico a cogitar largar a ciência. A solução foi transformar o IFT em uma unidade da Unesp. Tendo já orientado vários mestrados e doutorados, Zimerman teria de ser admitido como professor auxiliar, porque não tinha título de pós-graduação, embora fosse titular no IFT. Os colegas tentaram agir para que a Unesp desse a ele o título honoris causa. “‘Nada disso’, ele disse, e foi para sua salinha escrever a tese, orientada por ele mesmo. A defesa virou uma homenagem, é claro”, rememora Ferreira.
Em 2009, o IFT-Unesp transferiu-se da alameda Pamplona para um prédio novo na Barra Funda, na zona oeste da capital paulista. Zimerman teve que mudar uma rotina de mais de 50 anos: a caminhada cotidiana, ao nascer do sol, de sua residência em Higienópolis até o instituto, levando um guarda-chuva e uma sacola de feira com o almoço frugal. De acordo com a filha Simone, ele passou a usar ônibus e metrô, e, mais tarde, carros de aplicativo, para chegar ao IFT, onde usava sua sala apenas para armazenar seu estoque de chocolates e paçocas. Trabalhar mesmo era sempre no gabinete dos colegas, fazendo cálculos em duplas e trios, um corrigindo o outro, em debates amistosos, porque estava sempre de bom humor.
Zimerman é membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 1992, recebeu a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, em 2007, e a outorga do título de Professor Emérito da Unesp, em 2010.
Em 2020 sofreu uma queda e fraturou o fêmur. Apesar de ter se recuperado graças à atividade física que considerava sagrada, por causa da pandemia de Covid-19 deixou de ir ao instituto, passando a colaborar a distância, usando o computador. Há três meses, caiu novamente em casa, e, quando percebeu que não conseguiria mais manter as atividades intelectuais, foi se fechando, segundo Simone. Zimerman foi viúvo duas vezes, de Rachela e de Adélia. Além de Simone, deixa outros três filhos e três enteados, 11 netos e três bisnetos.
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