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Pesquisa na quarentena

“Agora é a vida on-line que permite trabalhar, manter conexão com instituições, produzir”

Sem poder viajar, o cientista da computação Virgilio Almeida ampliou sua atuação internacional em regulação do ciberespaço e inteligência artificial

Estar em casa tem suas vantagens, entre elas o convívio com os livros e as coleções de objetos de várias regiões brasileiras e de canecas de cidades do mundo

Rejane Franca

Sempre tive uma atividade internacional grande, que envolvia muitas viagens para fora do país. Entre 2017 e 2020 participei de uma comissão para estabelecer normas para a estabilidade do ciberespaço, já que todo mundo hoje depende do espaço on-line. Essa comissão tinha 26 membros de diversos países convidados apenas pela capacidade pessoal, não em razão de cargos. Eu era o único participante da América Latina e esse trabalho envolvia uma série de viagens para reuniões. Também participo de uma comissão chamada Technical Policy Council [Conselho de Políticas Tecnológicas], da principal organização científica da área de computação, que se chama Association for Computing Machinery (ACM).  Essa comissão também envolve reuniões em lugares variados. No dia 3 de março do ano passado, já havia sinais da pandemia e fiquei em dúvida sobre viajar. Acabei indo para a reunião de dois dias em Bruxelas [Bélgica], fui e voltei de máscara. Quando voltei, o problema estava maior.

A partir daí, as viagens acabaram, mas a atividade continuou porque as reuniões passaram a ser on-line. Foi uma necessidade e vimos que funciona – embora tenha limitações. Em uma dessas reuniões, Vint Cerf – um dos criadores do protocolo TCP-IP, que é vice-presidente do Google e participa desse conselho de tecnologia – sugeriu: “Deveríamos pensar por que o Zoom não tem um botão em que duas pessoas possam conversar como se estivessem fisicamente próximas”. Seriam maneiras de reproduzir as relações sociais que ocorrem quando a pessoa levanta e pega um café, ou vê um conhecido e começa a falar outro assunto que não o principal. As coisas vão evoluindo. Hoje, quando se usa o Zoom para uma defesa de tese ou uma reunião, é possível dividir os grupos em salas. São modificações feitas em decorrência da limitação de viagens. Não sinto falta das viagens, acho ótimo não estar viajando. Não perco tempo, não fico parado em aeroporto ou muitas horas no avião.

Quando se trata de buscar um ponto comum de colaboração em um projeto, de novas conversas, acho que perdemos um pouco no ambiente on-line, embora seja possível. Com os alunos, acho que houve uma perda. A presença física dá mais ênfase ao que deveria ser feito, mais confiança ao aluno e mais importância ao trabalho. O espaço on-line, às vezes, não proporciona a mesma intensidade.

Por outro lado, a vida on-line possibilitou muitas outras coisas. É possível participar de seminários, aulas, palestras em número muito maior em uma grande variedade de instituições e países. Elas não eram oferecidas on-line antes. As universidades norte-americanas oferecem hoje uma enorme diversidade de eventos sobre os temas mais interessantes. Depende de se procurar na área de interesse de cada um.

Atualmente participo de um projeto com um professor da Universidade de Princeton e uma professora da Universidade Columbia, em Nova York, ambos nos Estados Unidos, sobre o efeito da desinformação na saúde pública. Como, por exemplo, as notícias antivacina têm impactado os números de vacinação naquele país. Estamos coletando dados nas plataformas que nos interessam: Facebook, YouTube e Instagram. Começamos a olhar também o Parler, uma plataforma extremista que não tem moderação. É onde surgem as mais controversas teorias conspiratórias, que dali se espalham para outras redes. Um aluno e um colega da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais] estão trabalhando comigo nisso. A coleta é toda automática, nem precisamos olhar o que estão dizendo. A colaboração é recente e começou on-line, eu não conhecia esses professores. Sou do Departamento de Ciências da Computação na UFMG e eles são de departamentos de Ciência Política. Os pesquisadores em ciências sociais nos Estados Unidos fazem trabalhos muito quantitativos.

O livro que publiquei em 2020 [Governance for the digital world, editora Palgrave Macmillan] também foi com um cientista político, Fernando Filgueiras, da FGV [Fundação Getulio Vargas]. O livro foi todo feito on-line, inclusive a relação com o editor se deu remotamente. São poucas as coisas prejudicadas pela falta de presença física. Agora estou trabalhando com outro cientista político, além dele, para pensarmos formas de ver como os algoritmos afetam as instituições. A possibilidade de trabalho remoto mudou muito nos últimos anos. O primeiro livro que publiquei com dois colegas americanos, pela Prentice Hall em 1994, foi todo escrito na internet precária da época, usando e-mail e FTP, um serviço de transferência de arquivos. Só tínhamos acesso à internet uma ou duas vezes por dia, por meio de linhas telefônicas. O mundo on-line hoje permite praticamente fazer quase tudo das tarefas acadêmicas e de pesquisa.

Até pouco tempo atrás, a vida on-line se dava mais no âmbito de entretenimento ou relações sociais mais leves. Agora, tornou-se essencial: permite trabalhar e manter conexão com instituições para produzir. Isso requer estabilidade, confiança, segurança. Também nos torna vulneráveis a ações criminosas e negativas. Aumentou muito o risco de ataques, de ações maléficas no mundo inteiro.

Também há perda de privacidade. Nos Estados Unidos é praxe avisar que a reunião está sendo gravada e perguntar se o participante quer permanecer. A sociedade civil de lá tem protestado contra a instalação de software que monitora os alunos estudando on-line. Algumas empresas também têm feito isso com seus empregados e é necessária uma regulamentação. Como a tecnologia anda sempre mais depressa que as ações de governo e a regulação, é preciso ficar atento a essas questões. O Brasil tem uma nova lei de privacidade de dados que ainda está em implantação.

Pensar em mecanismos para garantir um ambiente mais seguro passou a ser essencial. Isso é bom, porque surgem novos problemas que exigem um olhar multidisciplinar. Não é mais só a computação, porque quem é dessa área não tem o mesmo domínio de quem tem formação em ciências sociais. As ciências humanas é que podem entender o fenômeno de as relações passarem a ser mediadas por telas. O impacto nas crianças é grande, há mais de um ano passando muito tempo diante das telas, e precisa ser percebido por psicólogos e educadores. Não se deve descuidar do financiamento da pesquisa nas ciências sociais e humanas.

Outra atividade que me ocupou foi o Centro de Inteligência Artificial para a Saúde, cujo financiamento acaba de ser aprovado pela FAPESP. A ideia surgiu de dois professores da UFMG – um da Faculdade de Medicina, outro do Departamento de Computação – que já tinham colaboração na área de inteligência artificial, especialmente para análise de eletrocardiogramas. Quando saiu o edital, me convidaram para participar e começamos uma conversa mais ampla sobre como estruturar um projeto de longo alcance, com duração de cinco a 10 anos, que tivesse impacto científico e trouxesse resultados relevantes. Seguindo as regras do edital, precisávamos de um parceiro privado que trouxesse o mesmo nível de financiamento. Foi fácil, porque a Unimed de Belo Horizonte tinha interesse em se aprofundar na inteligência artificial.

Um dos objetivos do projeto é usar as tecnologias de inteligência artificial para ampliar o atendimento remoto, automático, algo que se tornou essencial na pandemia. No caso de Minas Gerais, tem também a questão dos desastres ambientais, como Brumadinho e Mariana. Eles geram problemas de saúde, pela alteração do ambiente, pelo impacto social e emocional da população. Isso também está dentro do projeto. É preciso ampliar a escala de atendimento e reduzir custos, levando em conta a ética, a confiabilidade dos algoritmos e a capacidade de eles serem explicados ao médico, para que saiba por que tomou uma determinada decisão e o paciente ter confiança. Sou o coordenador, mas meu interesse em pesquisa é a parte de ética, segurança e confiabilidade dos algoritmos. É um centro multidisciplinar – com medicina, enfermagem, farmácia, engenharia elétrica, eletrônica, computação e física – e multi-institucional. Somos mais de 100 pesquisadores. As quatro empresas privadas parceiras entram com recursos, com dados e com problemas. Isso dá relevância à pesquisa.

Creio que durante a pandemia, aumentei a carga de trabalho e consegui bons resultados, apesar de não poder contar com o sistema administrativo da universidade, que dá apoio. Um tanto por não perder tempo com viagens, e acabo trabalhando mais horas e mais dias da semana. Mas meu filho que mora no Rio de Janeiro (tenho outro em São Paulo) tem um filho pequeno, o Martim, de quase 2 anos, e trabalha remotamente. Então na pandemia ele veio com a família para a casa que temos perto de Belo Horizonte. Eu e minha mulher alternamos períodos na cidade com alguns dias lá. É um sossego tremendo, na montanha, mas minha produtividade é menor, porque a prioridade passa a ser o netinho. Ele me vê no computador e quer ver os vídeos de que gosta.

Gosto de ficar em casa, me distraio com bons livros de literatura e música: MPB e jazz. Voltar ao normal será outra coisa, não o que estávamos pensando. As pessoas estão vendo que podem economizar em certos gastos, como ir a restaurantes com frequência, e fazer atividades em casa. Mas fazemos parte de uma parcela pequena da população brasileira que está bem, trabalhando remotamente. Grande parte das pessoas não tem acesso, não tem dispositivo e nem condições de letramento para usar. Aprofundar essa diferença, ou trazer para o mundo on-line as desigualdades que existem no mundo físico, é uma preocupação. Não foi feito um esquema para que os estudantes de escolas públicas tivessem acesso ao ensino remoto e à inclusão digital. Isso não é mais uma opção, é uma necessidade.

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