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Resenha

Algoritmos que fazem política

Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social | Ricardo F. Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgílio Almeida | Ubu Editora | 320 páginas | R$ 89,90

Ada é uma jovem agitadamente bonita. Ela está um pouco nervosa porque vai sair com um novo candidato a namorado que conheceu no Tinder. Eles vão jantar pela primeira vez, então ela quer que tudo dê certo. Para garantir, pergunta ao ChatGPT que tipo de restaurante seria mais apropriado para esse primeiro encontro e a resposta foi “italiano moderno. É quase impossível errar com massa”. Ela gostou da sugestão, então abre o Maps, procura por “italiano moderno”, escolhe aquele com melhor avaliação e manda o link para o “candidato”, que responde rapidamente com um ícone de joinha e um emoji de coração.

O Maps mostra que a caminhada até lá levaria 23 minutos e Ada considera ir a pé.  Mas, ao traçar a rota recomendada, percebe que teria que passar por ruas escuras que, mesmo cheias de câmeras de segurança com reconhecimento facial, não inspiram muita confiança; então, ela decide chamar um Uber. Ada fica preocupada, pois a bateria do seu celular está acabando e o Uber está estranhamente caro, mas tudo dá certo. Ao chegar ao restaurante, repara em um rapaz sentado à mesa, fissurado em seu celular, tentando baixar um aplicativo para escolher a música ambiente. Aproxima-se e pergunta: “Alan, é você?”. Ele ergue os olhos, sorri e responde: “Você é mais bonita pessoalmente”.

Vivemos em um mundo regido por algoritmos. Eles ditam boa parte dos nossos movimentos, os caminhos que fazemos, a música que ouvimos, os filmes a que assistimos, as notícias que lemos, a comida que comemos, os remédios que tomamos, os impostos que pagamos e as pessoas com quem nos relacionamos. Eles também influenciam políticas públicas e resultados de eleições.

No livro Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social, os cientistas políticos Ricardo Mendonça e Fernando Filgueiras e o cientista da computação Virgílio Almeida não só discutem como os algoritmos estão transformando a vida social (o que já sabíamos), mas também argumentam que os algoritmos são novas instituições. Analisando a digitalização das sociedades sob a ótica do institucionalismo, os autores mostram como o arcabouço conceitual das instituições é adequado para compreender melhor o papel dos algoritmos no contexto atual.

O termo algoritmo designa uma sequência sistemática de operações lógico-matemáticas destinada a resolver um problema ou a alcançar um objetivo específico. Existem algoritmos para colocar nomes em ordem alfabética, resolver sistemas de equações, converter imagens coloridas em branco e preto, localizar registros em um grande banco de dados e muito mais.

Na última década, o aumento do poder do hard­ware dos computadores e a grande quantidade de dados disponíveis para análise impulsionaram o avanço dos algoritmos de aprendizado de máquina, que passaram a obter resultados expressivos em uma nova gama de aplicações. Entre elas estão, por exemplo, a recomendação de filmes em plataformas de streaming, a detecção de fraudes no imposto de renda ou em licitações ou a decisão de quem deve receber um auxílio emergencial em caso de calamidade pública.

Na abertura do livro, é apresentada a ideia de institucionalismo, estabelecendo os conceitos básicos da área. Ao propor que os algoritmos sejam compreendidos como instituições, os autores fogem de abordagens superficiais, tanto daquelas que os tratam, em um extremo, como agentes autônomos animados quanto das que os reduzem a ferramentas neutras. Para os autores, os algoritmos são, simultaneamente, estruturas e formas de agência, com impactos individuais e coletivos.  Em seguida, eles apresentam uma série de exemplos concretos em áreas como segurança pública e saúde, auxiliando o leitor a refletir sobre essa nova forma de enxergar a sociedade.

Por fim, o livro enfatiza a necessidade de a sociedade impor limites ao modo como os algoritmos são inseridos em nossas vidas, ressaltando que valores da ética, da responsabilidade e da democracia devem prevalecer. Trata-se, portanto, de uma leitura fundamental para quem deseja refletir sobre o papel dos algoritmos nas sociedades contemporâneas, seus perigos e oportunidades, e sobre o que podemos fazer para não perdermos o controle. O institucionalismo algorítmico proposto pelos autores oferece um arcabouço analítico consistente para compreender um mundo em transformação.

Fabio Kon é professor titular do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP).

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