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Ficção

Argumentum chronologicum

Senhoras e senhores, muito boa noite. É com grande satisfação que venho aqui falar das experiências cronológicas de Jakoo, um pequeno país localizado no oceano Pacífico, à altura do paralelo 30° sul. Trata-se de não mais que uma única ilha de cerca de 110 mil quilômetros quadrados. Acredito que poucos de vocês conheçam esta localidade ou seus habitantes. Lá não há aeroportos, e um único porto – este que vocês podem ver no slide – controla a entrada e a saída dos poucos estrangeiros que se aventuram por aquelas terras. Refiro-me apenas aos estrangeiros porque os jakooanos não costumam viajar para o exterior. Nos meus quinze anos de trabalho lá, não conheci sequer um jakooano que alguma vez tivesse deixado seu país. Além de avessos a viagens, os nativos também são arredios a estranhos. Era muito difícil estabelecer contato com aquela peculiar civilização. Mas que civilização! Os jakooanos possuem uma visão bastante particular do mundo e, principalmente, do tempo – uma visão que decorre fundamentalmente de suas mais profundas crenças. E é sobre o modo como este povo compreende o tempo que vim falar aqui.

Todos nós sabemos que, por convenção, a Terra se divide em 24 fusos horários, cada um deles compreendendo uma área formada por 15 graus de longitude. Cada fuso corresponde a uma determinada hora, em atraso ou adiantamento em relação ao meridiano de Greenwich, o meridiano zero. Os jakooanos perceberam que, com essa convenção, o que se ganha em uniformidade – o mundo inteiro segue os mesmos parâmetros cronológicos – se perde em precisão – nunca é real o tempo em que nos encontramos. Para eles, estamos quase sempre minutos atrasados ou adiantados em relação ao horário arbitrariamente determinado para todo o fuso. Como o território abarcado por cada fuso horário é inegavelmente muito vasto, os jakooanos acreditam que seria mais exato se este vasto território e a hora que lhe diz respeito fossem fracionados em unidades menores.

Cabe ressaltar que, para os jakooanos, o tempo é assunto de suma importância. Extremamente religiosos, eles adoram um único deus, o deus I-Ih, que na língua local significa “aquele que controla o tempo”. Assim, do ponto de vista deste povo singular, iludir o tempo seria como iludir o deus I-Ih, e nenhum jakooano está preparado para arriscar tanto. Em função disso e com vista a, abre aspas, corrigir, fecha aspas, o que eles identificaram como uma falha na convenção universal de medida do tempo, um grupo de cientistas locais, liderado por Haalaan Kook, criou relógios de altíssima precisão, ligados a um sofisticado sistema de orientação global por satélite. Os cientistas dividiram, longitudinalmente, o território de Jakoo, que tem 1.050 quilômetros de extensão de leste a oeste, em 3.600 partes, estabelecendo submeridianos com um espaço entre eles de 291,6666 metros (sendo um destes intervalos, o central, de 292 metros, já que a divisão resultava numa dízima periódica). Determinaram ainda que cada uma destas partes, isto é, que cada um destes submeridianos corresponderia a 1 segundo. Desta forma, os relógios não poderiam mais indicar somente a hora; eles teriam que associar a hora, os minutos e os segundos a uma determinada posição no espaço. Como era complexo o que se passava a exigir dos relógios, os cientistas inventaram esta imensa placa quadrada e violeta que vocês vêem no slide – violeta é a cor tradicionalmente associada ao deus I-Ih. Esta placa contém uma série de intrincados dispositivos que alteram a marcação da hora conforme a pessoa se movimenta. A partir do dia em que se decretou que todos jakooanos deveriam utilizar a placa, a cada 291,6666 metros de deslocamento no sentido leste-oeste/oeste-leste a placa aumentaria ou diminuiria automaticamente 1 segundo; a cada 17,5 quilômetros, 1 minuto, e assim por diante. Imaginem duas pessoas que morassem, respectivamente, nos extremos leste e oeste do país e que marcassem um encontro na capital Lemboo, bem no centro da ilha. Estas duas pessoas teriam uma diferença de quase 1 hora entre elas e, para se encontrar pontualmente num dado lugar, teriam que calcular não só o tempo de seu próprio deslocamento, mas também as mudanças de minutos e segundos que tal deslocamento acarretaria.

Nos primeiros meses, quando a população de Jakoo ainda se adaptava à nova rotina, um jornal inglês publicou fotografias, tiradas defronte ao templo a I-Ih, que mostravam os jakooanos portando a grande placa violeta na cintura, a tiracolo, dentro de bolsas, em carrinhos de mão e até no alto da cabeça, como um chapéu. Com 25 centímetros de comprimento de cada um dos lados, não era possível carregá-la no pulso, como os relógios. No texto que acompanhava as fotos, o jornal ridicularizava o invento deste povo do Pacífico, qualificando-o de, cito, extravagant and completely useless.

Os jakooanos reagiram mal. Tomaram o sarcasmo como ofensa ao deus I-Ih. Em desagravo – cito Kook: “já que a Europa não respeita nosso altíssimo deus, nós não iremos mais respeitar suas estúpidas convenções” -, decidiram estabelecer um sistema próprio de medida do tempo. Dividiram o território de Jakoo novamente, em sentido longitudinal, em 24 áreas, cada uma delas correspondendo a 1 hora. Cada área destas era dividida, por sua vez, em 60 partes, compreendendo, cada uma delas, 1 minuto. Por fim, as pequenas áreas dos minutos foram divididas em outras 60 partes ainda menores, equivalentes a 1 segundo. Assim, em números aproximados, a cada 12 metros de deslocamento leste-oeste/oeste-leste a placa violeta registrava uma mudança de 1 segundo, a cada 729 metros de 1 minuto e a cada 43,75 quilômetros de 1 hora. Como 1 hora do sistema universal foi convertida em 24 horas no sistema jakooano, 1 dia nosso correspondia a 576 horas do sistema deles. O tempo passou a ser vivido lá como uma espécie de fluxo contínuo e acelerado, em perpétua mutação, já que não só continuaram a usar, mas aprimoraram as placas violetas.

Em pouco tempo, a nova medida levou Jakoo ao caos. As pessoas não conseguiam cumprir seus compromissos porque estavam sempre em horários diferentes. Embora os jakooanos soubessem precisamente o horário de dada posição no espaço, eles não tinham mais um parâmetro com o qual comparar este horário. Todo movimento no sentido leste-oeste/oeste-leste implicava uma considerável mudança de horário. O primeiro a se rebelar contra o sistema foi o chefe da estação de trens. Em estado avançado de estresse, em decorrência dos complicados cálculos que era obrigado a realizar para controlar a entrada, a saída e o trajeto dos trens, o chefe da estação arremessou sua placa violeta contra o templo a I-Ih, quebrando um dos belos vitrais. Ele foi preso e açoitado dia após dia por cinco policiais durante 20 ciclos de 576 horas locais. O fato ocupou as capas dos jornais, e uma série de artigos censurando tal heresia foi escrita pelos cientistas. Porém, ao mesmo tempo que o ato do chefe da estação deflagrou violentas recriminações do Estado e da opinião pública, ele inspirou vários insurgentes. Outros revoltosos, jovens em sua maioria, atiraram suas placas violetas contra o templo, destruindo outros belos vitrais. Grupos de manifestantes fizeram passeatas defronte ao santuário de I-Ih, lançando suas placas violetas contra a edificação. Muitos rebeldes foram presos e açoitados. Chegou um momento em que não havia mais lugar na cadeia – nem açoite – para tantos descontentes.

Resumindo, pois avisam que meu tempo está acabando, em cinco meses o templo a I-Ih foi completamente destruído, e as esculturas do deus destroçadas. Apenas os governantes e os cientistas continuaram a usar a placa violeta. O resto da população voltou a se orientar pelo sol, como seus antepassados faziam antes mesmo da adoção do padrão de Greenwich.

Veronica Stigger nasceu em 1973, em Porto Alegre. Formada em jornalismo, atualmente é doutoranda em teoria e crítica de arte pela USP. É autora de O trágico e outras comédias (Editora 7 Letras).

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