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Geologia

As geleiras viraram sertão

Há 300 milhões de anos, o gelo dominava a paisagem do futuro Nordeste brasileiro

ANTONIO ROCHA CAMPOS / IGC-USPCuritiba, em Sergipe: sulco de 25 metros de comprimento deixado por um iceberg ao deslizar sobre uma rocha que já foi fundo de um lago ou marANTONIO ROCHA CAMPOS / IGC-USP

Hoje, o sertão do Nordeste é marcado pelos mandacarus, pelas secas freqüentes e pelo calor intenso, mas nem sempre foi assim. Há cerca de 300 milhões de anos, quando América do Sul, África, sudoeste da Ásia, Austrália e Antártica formavam um único supercontinente situado próximo ao Pólo Sul, uma vasta porção do que hoje é o Nordeste brasileiro era coberta por geleiras, de cujas bordas se soltavam gigantescos blocos de gelo, icebergs que deslizavam como hoje se vê nos arredores da Antártica. Nas porções menos inóspitas desse terreno, onde não havia gelo, cresciam arbustos e árvores de pequeno porte, parentes distantes dos pinheiros e das araucárias atuais, compondo uma paisagem semelhante à da atual Islândia, já bem perto do Pólo Norte.

Uma equipe do Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP) conseguiu reconstituir esse cenário e provar, pela primeira vez, que houve de fato uma glaciação no Nordeste – antes vista apenas como uma hipótese à espera de confirmação – com base na análise de rochas nas quais as geleiras deixaram cicatrizes ou estrias ao deslizar para o mar. Em busca de pistas do gelo antigo, num autêntico trabalho “detetivesco” iniciado há 25 anos, os pesquisadores verificaram que o próprio relevo guarda a lembrança daqueles tempos, o final da chamada Era Paleozóica, quando a maior parte dos continentes do atual Hemisfério Sul se uniam num imenso bloco, a Gondwana, e se encontravam cobertos pelo gelo. “Nessa época, mais da metade do futuro território brasileiro estava sob o clima glacial”, assegura o geólogo Antonio Carlos Rocha Campos, coordenador do grupo que examinou uma área de cerca de 10 mil quilômetros quadrados que compreende os estados de Sergipe, Bahia e Alagoas.

Há tempos se conhecem os sinais de geleiras nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, especialmente em São Paulo e no Paraná, mas no Nordeste havia apenas indícios desse período gelado. As marcas mais recentes e contundentes da glaciação no território nordestino foram descobertas em outubro do ano passado: diversos sulcos e escavações rasas, de até 40 centímetros de profundidade e 25 metros de comprimento por 3 metros de largura. Encontradas nas imediações de Santa Brígida, a 412 quilômetros ao norte de Salvador, na Bahia, e próximas a Nova Canindé de São Francisco e Curituba, em Sergipe, a 213 quilômetros a oeste da capital, Aracaju, as escavações apresentam as características típicas deixadas pelo deslocamento de icebergs sobre o fundo de lagos ou mares rasos, de modo semelhante aos sulcos que hoje se vêem na plataforma continental da região ártica da América do Norte.

As marcas registradas pelos blocos de gelo eram as peças que faltavam para completar o quebra-cabeça. “Não restam mais dúvidas de que a glaciação do final da Era Paleozóica, conhecida como idade glacial de Gondwana, atingira também o Brasil”, afirma Rocha Campos, à frente da equipe formada por pesquisadores do IGc, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

Se as provas mais consistentes da presença de gelo no Nordeste em épocas remotas são recentes, as primeiras evidências surgiram 25 anos atrás, em meio a uma série de coincidências. Numa tarde do final dos anos 70, sob um calor de quase 40 graus, Rocha Campos viajava em direção a Igreja Nova, no interior de Alagoas, a 183 quilômetros a oeste de Maceió, quando um ponto brilhante, na beira da rodovia, pouco antes da entrada da cidade, chamou sua atenção. Imediatamente pediu que parassem o carro e correu até o local. Como não trazia equipamentos de escavação, tomou emprestadas uma vassoura e uma enxada e pôs-se a limpar uma pequena área de 1 metro por 2, enquanto os moradores que se aglomeravam a sua volta traziam latas de água para ajudar a tirar a terra sobre a rocha.

No retângulo escavado, Rocha Campos descobriu uma superfície rochosa polida com ranhuras paralelas: eram marcas de erosão possivelmente provocadas pela passagem de alguma geleira. Sobre a superfície havia uma camada de tilito, uma rocha maciça, de cor acinzentada, composta por grãos de diferentes diâmetros – dos mais finos (grãos de argila) aos mais grossos (de areia) e até seixos –, outra evidência de que aquele material tinha origem glacial. Formado pelo deslocamento de geleiras, que trituram e arrastam fragmentos de assoalho rochoso sobre o qual deslizam, o tilito é uma rocha sedimentar equivalente ao till, sedimento também misturado caoticamente que aparece sempre próximo às geleiras atuais, formando cordões laterais ou frontais. Conclusão: se é assim hoje, deveria ser também no passado.

“A camada de tilito era outra evidência de que teria havido gelo por ali”, comenta o pesquisador. Rocha Campos encontrara o local certo, na hora certa. “Eram cinco horas da tarde, o sol estava se pondo e os raios batiam inclinados sobre a rocha”, conta o geólogo. “Se passasse por ali ao meio-dia, não teria encontrado o pavimento estriado e o tilito. Ao menos, não naquela época.” As provas haviam sido encontradas. Faltava analisar os detalhes.

Envolvido em outros projetos, Rocha Campos teve de esperar mais de 20 anos até retornar ao Nordeste. Em 2001, voltou a Igreja Nova e encontrou uma pedreira de onde se extraía o tilito para utilizar como cascalho em construções. Ampliou a região que estudaria e verificou a ocorrência dessa e de outras rochas glaciais em Santa Brígida, no interior da Bahia, em Nova Canindé de São Francisco e Curituba, em Sergipe. Nessas localidades, em plena caatinga, também constatou a presença dos sulcos e arranhões deixados pelos icebergs que, empurrados por ventos ou correntes aquáticas, cavaram a areia do fundo de lago ou de mar como arados que imprimem sua marca no terreno e acumulam parte dos sedimentos em saliências laterais. Enfim, os pesquisadores podiam afirmar, com coerência e provas consistentes, que geleiras haviam feito parte do cenário natural da região Nordeste.

Segundo o geólogo, a cobertura branca provavelmente durou de 15 milhões a 30 milhões de anos no território que viria a ser o Brasil, durante a transição do período Carbonífero para o Permiano. Essa glaciação foi uma das mais longas e intensas fases de refrigeração do planeta de que se tem notícia. O futuro território brasileiro era então ocupado pelas plantas mais primitivas, as gimnospermas (com sementes nuas, sem frutos), que em milhões de anos originaram as coníferas e os pinheiros atuais. Enquanto as gimnospermas deveriam habitar as regiões mais altas, de acordo com o cenário que os pesquisadores começam a delinear, nas mais baixas e úmidas cresciamos vegetais parentes das atuais avencas e samambaias, do grupo das pteridófitas. Nos mares gelados, viviam pequenos invertebrados – a exemplo de moluscos, braquiópodes e equinodermos, como os lírios-do-mar –, além de peixes primitivos.

A própria história de Rocha Campos com as eras glaciais que afetaram o Brasil é antiga. Desde o final dos anos 60, em colaboração com pesquisadores brasileiros e de outros países, o geólogo investiga – e já detectou – diversos sinais da existência remota de geleiras nas regiões Sul e Sudeste, principalmente nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com esses achados, o pesquisador da USP ampliou as indicações de outro geólogo, o norte-americano Orville Derby, que em 1888 colheu os primeiros registros do gelo de Gondwana na região da Bacia do Paraná – um terreno geológico que abrange os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, toda a região Sul, além de parte do Paraguai e do Uruguai. “Se os sinais das geleiras cobriram uma área tão vasta, seus efeitos deveriam se estender a outras regiões do Brasil”, pensou Rocha Campos. Em busca de respostas, o pesquisador selecionou quatro áreas de estudo: Mato Grosso e Rondônia,sul do Amazonas, noroeste de Minas Gerais e o circuito Bahia-Sergipe-Alagoas.

Gelo em Minas Gerais
Por causa das suspeitas iniciais, geradas pelas rochas polidas descobertas na beira da estrada de Igreja Nova, e com o auxílio de estudos publicados por outros pesquisadores, a equipe do IGc não somente encontrou resquícios da glaciação do final da Era Paleozóica no Nordeste, mas confirmou que naquela época havia também geleiras no noroeste de Minas Gerais, nos arredores de cidades como Santa Fé de Minas e Canabrava, a 400 quilômetros de Belo Horizonte. Acredita-se que essas geleiras formavam uma massa de gelo distinta da do Nordeste e podem ter se estendido da atual capital mineira até a fronteira com a Bahia e Goiás, onde há uma depressão conhecida como Bacia Sanfranciscana, em referência ao rio São Francisco. Em Mato Grosso e Rondônia, as outras áreas investigadas pela equipe, os trabalhos ainda estão em fase inicial e devem prosseguir até o final do ano. Os dados analisados até o momento sugerem, porém, que a glaciação de Gondwana tenha se estendido por essas regiões.

Ainda há muitas incertezas, já que faltam regiões a serem estudadas e as análises preliminares se limitam a cada região isoladamente. O próximo passo do trabalho é, justamente, estabelecer as conexões entre essas diferentes áreas e formar a visão de conjunto da época em que o futuro território brasileiro vivia coberto de gelo. Mas, segundo Rocha Campos, já se pode dizer com firmeza que a glaciação de 300 milhões de anos se deve à proximidade com o Pólo Sul, não a movimentos tectônicos que rearrumaram a superfície terrestre e originaram montanhas que, por causa da altitude, abrigaram geleiras.

Os geólogos diriam: trata-se de um fenômeno relacionado à latitude, as linhas imaginárias horizontais e paralelas ao equador. Os blocos que constituíam Gondwana não apenas se fragmentaram, mas também se deslocaram rumo ao norte. Os que atualmente formam o território brasileiro, hoje entre 10 graus e 35 graus de latitude sul, há 300 milhões de anos encontravam-se cerca de 30 graus a sul da posição atual, quase 3.300 quilômetros mais perto do pólo.

Outras causas
As geleiras que chegaram ao Nordeste brasileiro podem ter vindo do Gabão, na África Ocidental, então colada ao Brasil. As que atingiram a Bacia do Paraná e Minas Gerais são consideradas extensões de uma massa de gelo que cobria a Namíbia. Segundo os pesquisadores, a latitude mais alta não deve ter sido o único fator a provocar a glaciação. Variações na órbita da Terra que interferiram na intensidade da luz solar que atingia o planeta, associadas a mudanças na atmosfera, podem ter colaborado.

Os ganhos desse trabalho podem ser não apenas científicos, ao ajudarem a recontar a história climática e geológica do Brasil, mas também econômicos. Na Bacia do Paraná, já se descobriu que as rochas de origem glacial se intercalam com camadas de carvão e fazem parte de aqüíferos ou de reservatórios de gás natural. No Nordeste, pode ser que ocorra algo semelhante.

The project
Glaciação Neopaleozóica Externa à Bacia do Paraná: Sudeste e Nordeste do Brasil (nº 00/12125-2); Modalide Linha regular de auxílio à pesquisa; Coordenador Antonio Carlos Rocha Campos – IGC/USP; Investimento R$ 103.856,25

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