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Oceanografia

As montanhas submersas do Brasil

Levantamentos submarinos identificam dezenas de montes no fundo do mar, alguns com até 4 mil metros de altura

Búzios: margem continental do Rio de Janeiro está mapeada em nova publicação

Léo Ramos Chaves

O mais recente mapa da margem continental brasileira – o prolongamento submerso do continente – expõe a diversidade de formas do relevo submarino e revela dezenas de montanhas, identificadas pela primeira vez ou pouco caracterizadas em trabalhos anteriores. Elaborado pela equipe do programa Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (Leplac), da Marinha do Brasil, o estudo também detectou dezenas de canais rasos ou profundos que possivelmente abrigaram rios, quando o nível do mar era mais baixo, e agora cortam o fundo marinho. O mapeamento expõe o fundo submarino a até 1.100 quilômetros (km) da costa do Nordeste e a 2.800 km da do Sudeste.

Esse é, por enquanto, o retrato mais abrangente dos acidentes geográficos da margem continental brasileira, que começaram a ser moldados há cerca de 130 milhões de anos, quando a América do Sul se separou da África. Em sua elaboração foram usados 10 gigabytes (GB) de dados de batimetria, uma técnica de medição da profundidade do fundo marinho, coletados de 1970 a 2019 por navios de instituições nacionais e estrangeiras.

O mapa expõe o relevo submarino brasileiro desde a plataforma continental até o oceano profundo. A plataforma continental abarca os fundos marinhos com declive suave da linha da praia até uma profundidade aproximada de 200 metros. O trecho inclinado, chamado talude continental, começa no fim da plataforma continental e desce para regiões profundas das planícies abissais, que podem chegar a profundidades de até 6 mil metros.

“O trecho mais extenso da plataforma está em frente aos estados do Pará e Amapá, com cerca de 320 km, e o mais estreito no estado da Bahia, com 9 km”, conta a capitã de mar e guerra e geóloga Ana Angélica Alberoni, assessora para o Leplac e coautora do artigo científico com os resultados publicados em novembro de 2019 na revista científica Geo-Marine Letters. Ela assinala os montes mais rasos: o Fernando de Almeida, a 38 m da superfície, na região da cadeia montanhosa de Fernando de Noronha, o Banco Besnard, com 30 m, na cadeia Vitória-Trindade.

O mapa geral encontra-se também no site da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha. O primeiro volume da série Plataforma continental brasileira, publicado também em novembro de 2019 pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha (PGGM), contém os mapas geológicos das margens continentais dos estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Volumes adicionais com mapas de outros estados costeiros devem ser lançados no futuro.

De 10 a 14 de fevereiro, os autores desse artigo e representantes da Marinha e do Itamaraty estarão em Nova York para se reunir com um grupo da Comissão de Limites da Plataforma Continental da Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo é defender a proposta brasileira de extensão da plataforma continental brasileira para além das 200 milhas (322 km) na região da chamada margem equatorial brasileira, que vai da fronteira com a Guiana Francesa até o Rio Grande do Norte.

Em 2019, a Comissão de Limites da ONU concluiu a análise da região Sul e atendeu à reivindicação brasileira de 170 mil km2 além das 200 milhas. Essa região engloba a área em frente aos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul até a fronteira marítima com o Uruguai. A Comissão de Limites deve depois analisar as reivindicações brasileiras para a margem oriental e meridional, que vai do norte da cadeia Vitória-Trindade, na costa do Espírito Santo, até o limite sul do Platô de São Paulo, incorporando a Elevação do Rio Grande.

Contrastes, de norte a sul
Uma grande área na região Sul antes considerada plana, o platô de Santa Catarina, exibe uma superfície rugosa, que se eleva a até 1.500 m do fundo marinho. “O platô nunca havia sido representado em mapas anteriores”, afirma Alberoni. “Ele mede aproximadamente 750 km na direção noroeste-sudeste e 550 km sudoeste-nordeste e sua profundidade mais rasa chega a 2.900 metros.” Também foi detalhado o canal submarino Vema, a leste do platô, com 800 km de extensão e 18 a 36 de largura, que se estende entre 4.400 a 4.900 m de profundidade.

O mapa detalha a Elevação do Rio Grande, extensa área de forma quase circular, a leste do platô de Santa Catarina, que se eleva do fundo marinho a até 3.760 m. Um de seus montes identificados nesse levantamento recebeu o sobrenome do oceanógrafo Gilberto Henrique Griep, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1952-2019). A enorme fenda ou depressão chamada Rifte Cruzeiro do Sul, que corta a parte central, “foi muito bem delineada nesse mapa”, afirmou Alberoni; a fenda tem 1.120 km de extensão e 25 a 45 de largura.

“Muitos montes já eram conhecidos por meio de imagens de satélite e do projeto Remac [Reconhecimento Global da Margem Continental Brasileira], da década de 1970”, diz Alberoni. “A grande quantidade de dados da batimetria refinou o relevo submarino da nossa margem e corrigiu as profundidades do topo de diversos montes submarinos.”

Aplicações do mapeamento
Segundo Alberoni, esse trabalho, além de apoiar a proposta brasileira de extensão da plataforma continental além das 200 milhas, apresenta a nomenclatura atualizada do relevo submarino a ser utilizada em cartas náuticas, mapas e trabalhos científicos.

“As informações são importantes também para os projetos de engenharia submarina e para a instalação de oleodutos e cabos de comunicação”, acrescenta o geólogo Cleverson Guizan Silva, professor da Universidade Federal Fluminense. Segundo ele, o mapa revela processos geológicos que moldaram o relevo submarino, como um deslizamento gigante de sedimentos no limite entre o Brasil e o Uruguai, ocorrido há milhões de anos.

“O mapeamento do fundo marinho é algo que não tem fim, porque o objetivo é obter mapas cada vez mais precisos, com mais resolução”, diz o geólogo Michel Mahiques, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). “Apesar dos avanços, o Brasil se encontra bem mais atrasado que países como a Itália e a Irlanda, que têm programas de mapeamento bem estabelecidos há mais tempo.”

Em outro estudo, sem ligação com o trabalho do Leplac, o geofísico Mascimiliano de Los Santos Maly, também do IO-USP, com equipamentos de batimetria, identificou uma cadeia de montes submarinos na margem continental de Santos (SP). Descrita em um artigo publicado em dezembro de 2019 na revista Scientific Reports, a cadeia ganhou o nome de Alpha Crucis, o mesmo de um dos montes na região da Elevação do Rio Grande nomeados pela equipe do Leplac. Com formato circular, a cadeia abriga centenas de montes íngremes com até 300 m de altura em relação ao fundo do mar, cobertos por corais vivos ou mortos.

“Essa cadeia não estava mapeada e não aparece em nenhuma carta náutica”, diz Mahiques, que participou desse trabalho. “As cartas náuticas indicam outra elevação nessa área, mas não a encontramos, mesmo depois de passar lá duas vezes.” Em outras viagens, o grupo da USP encontrou dezenas de montes de carbonatos similares, indicando que o relevo submarino é algo de fato a ser continuamente mapeado e detalhado.

Projeto
Feições anômalas de fundo no talude superior do Sul do Brasil (nº 16/22194-0); Modalidade Auxílio à pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Michel M. Mahiques (USP); Investimento R$ 254.492,09.

Artigos científicos
ALBERONI, A. A. L. et al. The new Digital Terrain Model (DTM) of the Brazilian Continental Margin: Detailed morphology and revised undersea feature names. Geo-Marine Letters. v. 11, p. 1-16. 26 nov. 2019.
MALY, M. et al. The Alpha Crucis Carbonate Ridge (ACCR): Discovery of a giant ring-shaped carbonate complex on the SW Atlantic margin. Scientific Reports. v. 9, 18697. 10 dez. 2019.

Livro
DIAS, M. S.; BASTOS, A. C.; VITAL, H. Plataforma continental brasileira: Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: PPGM, 2019.

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