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Tecnociência

As novidades do 9º Congresso de Virologia

Os chamados vírus emergentes como o Ebola e o Hantavírus, e os mais antigos, porém sempre reemergentes, como o do sarampo e o da gripe; o impacto produzido por viroses animais e vegetais na economia do país; novas vacinas virais e a questão da bioética. Esses foram os principais assuntos apresentados e discutidos no 9º Congresso Nacional de Virologia, realizado no mês passado, em São Lourenço, MG. Organizado pela Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), o encontro contou com cerca de 500 participantes, brasileiros e estrangeiros, e 360 resumos, tendo o apoio de instituições como a FAPESP, Fiocruz, CNPq e FAPERJ, entre outras.

Considerados por muitos como vírus emergentes, por terem sido mais recentemente descobertos, o HIV, o Ebola e o Hantavirus foram destaques no Congresso. No Brasil, desde 1993, ocorreram doze mortes provocadas pelo Hantavírus, micróbio expelido pela urina e fezes de ratos silvestres e que causa um grande estrago nos pulmões e nos rins, podendo matar a pessoa em 48 horas. A taxa de letalidade chega a ultrapassar 50% dos casos. “Não há cura. A única forma de erradicá-lo é combater os roedores”, lembrou o biólogo Luiz Eloy Pereira, do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, cuja equipe trabalha na captura de roedores hospedeiros, a fim de identificar o tipo de vírus existente no país. Há pelo menos 14 tipos de Hantavírus, sendo dois os mais perigosos: o HFRS e o HPS. Eloy Pereira também falou de outros vírus descobertos e isolados pelo Adolfo Lutz, como o Sabiá, o Rocio e o Cotia, todos em São Paulo.

Sobre o vírus da Aids, especialistas presentes ao Encontro afirmaram que a prevenção ainda é o melhor remédio para evitar o contágio. Em sua palestra, o imunologista Scott Pereira, da Escola Imperial de Medicina da Inglaterra, levantou a hipótese de uma simbiose do HIV com o sistema imune do infectado. “A humanidade pode estar caminhando em direção a uma resistência natural ao vírus, através do uso de novas drogas, criando populações estáveis. Uma vacina não deve estar pronta antes de dez anos”, afirmou.

Vírus mais antigos também foram pauta no Congresso. Palestra das mais aguardadas, “A Pandemia de 1918” foi proferida pelo cientista inglês John Oxford, um dos integrantes do seleto time de pesquisadores que obtiveram permissão para exumar os corpos preservados de sete jovens que morreram na pandemia da Gripe Espanhola e foram enterrados nas terras frias da Noruega. O objetivo é encontrar e estudar o vírus de 1918, que matou mais de 40 milhões de pessoas, o dobro de vítimas da Primeira Guerra Mundial. Segundo Oxford, há sempre a ameaça de que um novo tipo do vírus influenza, que muda a cada ano, possa surgir e rapidamente espalhar-se mundo afora.

Alguns países europeus e os Estados Unidos se preparam para uma nova pandemia de gripe. Muitos cientistas chegam mesmo a acreditar que até o fim do século uma nova epidemia de gripe irá matar mais alguns milhares de pessoas em todo o mundo. Não se sabe quando, como, nem onde. “A gripe é como um vulcão. Nunca se sabe quando irá explodir”, comparou o virologista. Novas vacinas virais foram tema de uma mesa-redonda. O cientista francês Jean Lang, do Instituto Pasteur-Mérieux, afirmou que, em cinco anos, espera colocar no mercado a primeira vacina contra a dengue no mundo. Lang apresentou os resultados dos testes de imunogenicidade e segurança de vacinas vivas atenuadas monovalentes e tetravalentes em trinta voluntários.

As quatro vacinas monovalentes – uma para cada tipo do vírus -, segundo ele, induziram a uma resposta de anticorpos específica a cada tipo, apresentando um índice de eficácia entre 80% e 100%. “A vacina provocou um aumento na imunidade, mas ainda precisamos de mais dados”, disse o pesquisador. Já os resultados com a vacina tetravalente – que contempla os quatro tipos – não foram tão satisfatórios. “A resposta foi predominantemente direcionada ao tipo 3.”

A grande dificuldade, explica Lang, na obtenção de um imunizante contra a dengue, é que “animais não servem como modelo. A avaliação tem de ser feita em humanos”. O cientista disse não acreditar em vacinas de DNA para a doença, e afirmou que, em dois anos, pretende testar a vacina em larga escala nas áreas endêmicas, como a América Latina. Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de casos da dengue no Brasil saltou de 254.942, no ano passado, para 478.493, em 1998.

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