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Política C&T

Autores relatam dificuldades

“De uma maneira ou outra, pode-se sempre publicar um livro no Brasil ou no exterior. O problema é que isso pode demorar alguns anos para se concretizar, com muita perda de tempo e energia, que seriam melhor investidos em pesquisas adicionais.” O comentário é do zoólogo Nelson Papavero, da USP, co-autor ou organizador de quatro livros publicados com o auxílio da FAPESP, sendo o mais recente A Protogaea de G. W. Leibniz (1749) (Editora Plêiade).

Segundo Papavero, a aceitação dos livros tem sido boa, sobretudo quando tratam de assuntos diretamente vinculados aos temas ensinados na pós-graduação. Diz que não há dúvida de que esteja crescendo o número de pesquisadores que publicam livros: “Isso se deve não só a um certo amadurecimento dos pesquisadores nas diversas áreas científicas mas também ao aumento considerável da possibilidade de publicação, graças à FAPESP.”

Para o professor Ricardo Ferreira Bento, da USP, um dos autores de Tratado de Otologia (Edusp/Fundação Otorrinolaringologia), atualmente cabe ao pesquisador tanto se dedicar às suas atividades de pesquisa e ensino quanto carrear recursos para suas atividades e ajudar a divulgá-las para a sociedade em geral. Escrever livros e procurar meios e recursos para lançá-los faz parte de suas atribuições. Seu livro destina-se a alunos de graduação e pós-graduação em medicina e exigiu um trabalho gráfico sofisticado. “Numa editora comercial, dificilmente isso seria atingido, daí a importância de contar com o auxílio e patrocínio para publicá-lo numa editora universitária.”

O professor Li-Sei Watanabe, da USP, teve de retirar seu livro anterior da gráfica que se comprometera a publicá-lo e custear com recursos próprios o trabalho final de edição e impressão. Seu trabalho mais recente, Scanning Electron Microscopy Atlas of Cells and Tissues of the Oral Cavity, foi produzido com verbas da FAPESP e do CNPq.

Watanabe nota que na área médica as editoras se interessam por volumes didáticos, destinados a alunos de graduação e pós-graduação, mas manifestam pouco interesse em livros sobre pesquisas. Seu livro é uma edição de autor. Ele não comercializa os exemplares, apenas os distribui, gratuitamente, a especialistas do Brasil e do exterior e a outros interessados que o procuram

Júlio Pimentel Pinto, da PUC/SP, lançou este ano Uma Memória do Mundo: Ficção, Memória e História em Jorge Luis Borges (Editora Estação Liberdade). Lembra que a editora havia demonstrado interesse no livro, mas este teria de aguardar o momento oportuno para sua inserção no cronograma da empresa. “Graças ao apoio da FAPESP, o livro pôde ser publicado num prazo relativamente menor.”

Pimentel comenta que há casos em que um trabalho sem mercado para lançamento em livro é partido em capítulos ou resumido, para divulgação na forma de artigos em revistas. “Isso é bom para que os pesquisadores divulguem o andamento dos trabalhos, mas prejudica a apresentação completa e integrada de uma pesquisa na forma de livro.” Pimentel gostaria que o auxílio contemplasse mais trabalhos ensaísticos, como as teses de livre-docência, geralmente sujeitas a essa partição em artigos.

Tullo Vigevani, da Unesp, é um dos autores de Mercosul: Impactos para Trabalhadores e Sindicatos (LTR/Cedec) e diz que procurou a editora já com a proposta de pedir o apoio à FAPESP. Garante que outros livros que escreveu não teriam sido publicados se não tivessem contado com o auxílio da Fundação. Vigevani observa que um mercado para os livros acadêmicos não pode ser criado sem a satisfação de condições prévias: “Se houvesse um mercado básico de aquisição de livros por bibliotecas haveria a possibilidade inclusive do barateamento do livro para consumidores individuais”.

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