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Beco sem saída

Artigo polêmico sobre bactéria que se alimenta de arsênio é retratado 15 anos após sua publicação

Quinze anos depois de publicado, um artigo da revista Science que já nascera controverso foi alvo de retratação, ou seja, foi considerado inválido, por se basear em dados falhos. Assinado por 12 cientistas, três deles do Instituto de Astrobiologia da Nasa, o estudo de 2010 alegava ter identificado uma bactéria que se alimentava de arsênio, elemento altamente tóxico, em substituição ao fósforo, que é um dos elementos essenciais para a vida. Segundo a equipe, a bactéria desafiava a química dos seres vivos: não apenas conseguia sobreviver na ausência de fósforo, como o substituía pelo letal arsênio para sustentar seu crescimento. O artigo reuniu evidências da presença de arsênio no DNA e em proteínas de macromoléculas da bactéria que, normalmente, contêm fosfato.

O ser unicelular foi encontrado no lago Mono, na Califórnia, um ambiente hostil repleto de sal e arsênio, habitado por pequenos crustáceos, moscas e aves que se alimentam desses insetos, além de microrganismos que se adaptaram às condições extremas. A bactéria descoberta pelo grupo norte-americano foi batizada de GFAJ-1, um acrônimo da frase em inglês Give Felisa a Job (Dê um emprego à Felisa). Era uma homenagem bem-humorada à coordenadora da equipe que encontrou a bactéria, a especialista em geomicrobiologia Felisa Wolfe-Simon, que na época era bolsista da Nasa e ainda não tinha emprego fixo. Na ocasião, a agência espacial recebeu críticas por afirmar, em nota oficial, que “a descoberta teria impacto na busca de provas sobre a vida extraterrestre”.

De imediato, o estudo foi recebido com ceticismo. Ele foi publicado em junho de 2011 juntamente com oito comentários técnicos, alguns deles considerando as alegações prematuras ou de conclusões incertas. Em 2012, dois estudos tentaram, sem sucesso, chegar aos mesmos resultados. Concluíram que, embora o micróbio pudesse tolerar arsênio, ele não havia sido incorporado ao seu DNA. Críticos afirmaram que o achado original poderia ser o resultado de contaminação por arsênio do DNA analisado, em decorrência de um processo de purificação insuficiente.

Na nota de retratação, o editor-chefe da Science, Herbert Holden Thorp, afirmou que, apesar das dúvidas e refutações iniciais, na época da publicação o periódico reservava retratações apenas para casos de manipulação deliberada de dados, o que não parece ter acontecido no caso da descoberta da GFAJ-1. Ele observou que, nos últimos tempos, “os padrões para retratação de artigos se expandiram” e o cancelamento de um artigo pode se justificar “se os editores determinarem que os experimentos relatados não corroboram suas principais conclusões”. A decisão foi baseada em diretrizes do Committee on Publication Ethics (Cope), um fórum de editores científicos dedicado a questões de integridade.

Dez dos coautores dos artigos assinaram uma carta em julho afirmando que discordavam da retratação e mantinham os dados relatados, já que não há evidência de má conduta. Segundo eles, embora o trabalho “pudesse ter sido escrito e discutido com mais cuidado”, os achados “foram revisados por pares, debatidos abertamente e estimularam pesquisas produtivas”. Em declaração à Science, o coautor Ariel D. Anbar, geoquímico de isótopos e professor da Escola de Exploração da Terra e do Espaço da Universidade Estadual do Arizona, em Tempe, disse que “a verdadeira disputa é sobre como os dados estão sendo interpretados, o que não deve ser motivo para retratação, mas sim para um debate científico legítimo”. Anbar também reclamou, em entrevista ao site Retraction Watch, que a Science “tornou tudo desnecessariamente confuso e violou gravemente as diretrizes do Cope” ao mencionar a preocupação com a suposta contaminação do material em uma postagem em um blog dos editores, que não foi compartilhada com os autores para que eles respondessem. Anbar e seus colegas só souberam dessa postagem quando foram alertados por um repórter.

Nicholas Williams, professor de química na Universidade de Sheffield, no Reino Unido, disse ao site Chemistry World que a responsabilidade pelo imbróglio deveria ser compartilhada pela Science e pelos autores, que ignoraram “prováveis falhas experimentais”. Ao mesmo tempo, ele considerou estranho retratar o artigo depois de 15 anos: “Considerando que nada de novo surgiu, por que retratar o artigo agora?”, indagou Williams. Thorp, o editor-chefe da Science, admitiu que a retratação foi acelerada pela publicação, em fevereiro deste ano, de um perfil no jornal New York Times de Felisa Wolfe-Simon, a bolsista responsável pela descoberta da bactéria. As intensas críticas que ela recebeu em 2010 pela internet a levaram a se afastar da ciência, retornando apenas em um trabalho de meio período em 2024.

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