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Resenhas

A revolução que São Paulo esqueceu

Livro com 140 fotos joga luz sobre insurreição militar de 1924 que colocou a capital sob fogo cruzado de aviões e canhões

Se contar aos moradores dos bairros de Perdizes, Brás, Mooca e do largo da Sé, em São Paulo, que, há muito tempo, seus antigos habitantes ficaram por 23 dias sob intenso bombardeio de aviões e canhões do governo federal, é provável que poucos saberiam dizer do que se trata. Quem sabe, arriscariam a Revolução de 1932, o que estaria errado. Na madrugada de 5 de julho de 1924 unidades do Exército e da Força Pública se rebelaram e tomaram as ruas da capital para tentar derrubar o presidente Arthur Bernardes (1875-1955). Os combates duraram 23 dias. Acuados, os revoltosos se refugiaram no interior, onde foram derrotados. Não há um número oficial, mas fontes apontam para algo em torno de 720 mortos. Somente na Santa Casa foram internados mais de 2,3 mil feridos.

O movimento golpista que transformou ruas e praças de São Paulo em trincheiras de guerra jamais fez parte do calendário de efemérides da cidade. Mais de 80 anos depois, costuma ser citado apenas como parte do levante tenentista deflagrado em 1922. Uma oportunidade para saber o que aconteceu em detalhes e por que se ignora um evento tão relevante é o livro Bombas sobre São Paulo – A Revolução de 1924, da doutora em história social pela USP Ilka Stern Cohen, que acaba de ser lançado pela Unesp. O volume descreve o cenário da capital, suas características e o contexto político que levaria ao levante. Depois narra seu desenrolar, as estratégias e os personagens.

Ilka explica que as origens do episódio estavam ligadas ao fato de os militares ocuparem posição destacada, embora o poder fosse civil. Uma vez que o Exército participara do nascimento da República e tinha a missão também de preservar as instituições, parte de seus oficiais se considerava justificadamente capaz de intervir no processo político. “Aquele foi, sem dúvida, um dos períodos mais conturbados da política brasileira” e a primeira vez que os paulistas se insurgiam contra o poder central.

Bernardes foi eleito depois de uma campanha marcada por baixarias, como a publicação de cartas falsas atribuídas a ele nas quais eram ridicularizados o marechal Hermes da Fonseca e o Exército – por isso, assim que venceu, surgiram rumores de um golpe militar contra ele. Segundo Ilka, a série de insurreições que aconteceram nos anos 1920 se deve ao fato de que o sistema político dava sinais de esgotamento. “A sociedade mudara, havia pressões por mudanças no sistema político, a ideia de revolução estava no ar.” Uma facção do Exército, insatisfeita com a falta de carreira e porque realmente pretendia mudanças políticas, viu no golpe de Estado a solução para essas questões. “Não deu certo em 1924, mas aconteceu em 1930, com Getúlio Vargas.”

Para acabar com o levante, Bernardes reuniu seus apoios militares, ignorou as pressões por uma trégua e combateu durante todo o seu governo os exércitos chamados de “revolucionários”, que percorriam o país pregando a revolução – a famosa Coluna Prestes. Governou o tempo todo sob estado de sítio e implantou feroz censura à imprensa. A autora lamenta que a Revolução de 1924 seja um dos muitos episódios esquecidos da história brasileira, assim como o bombardeio de Salvador nos anos 1910. Parte da explicação pode ser atribuída ao fato de, ao contrário de 1932, que tem uma importância estratégica fundamental na construção do discurso político paulista, a de 1924 não teve a menor participação das elites políticas, que, naquele momento, não pretendiam romper o pacto político vigente.

Segundo Ilka, foi uma decisão bem clara a de não prolongar o debate historiográfico sobre a questão da revolução. Por isso, ela quis fazer um livro que trouxesse as vozes do passado, o que explica também a manutenção da grafia original nas citações. Sua pesquisa faz revelações baseadas em fontes pouco exploradas até hoje. O volume traz ainda 140 fotos com cenas dos locais de combates, prédios e casas bombardeados, incêndios, soldados entrincheirados e mortos, que permitem dimensionar os estragos e a sua amplitude. Tanta documentação iconográfica dimensiona um esforço sem igual de se cobrir jornalisticamente o evento – como acontecera com a Guerra de Canudos no final do século anterior.

As fotografias aparecem com o propósito de dar uma ideia da sensação que causou o levante e a dimensão de sua importância. Além de reproduzidas em jornais e revistas, viraram cartões-postais, vendidos pela cidade. Também iluminaram aspectos pouco percebidos no discurso escrito. “Ver uma trincheira ao lado do Teatro Municipal nos dá a medida exata do rebuliço que virou a cidade. Ou ver uma foto do chiquérrimo Palace Hotel e pensar que hoje ali funciona o Shopping 25 é curioso, lembra-nos que São Paulo ainda preserva recantos que nos remetem ao passado”, observou Ilka.

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