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Resenha

Brasil 40 graus

1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart | Almino Affonso | Fundap e Imprensa Oficial, 680 páginas, R$ 60,00

Eduardo CesarO livro 1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart, escrito por Almino Affonso, se parece com o filme Titanic. Todos que foram ao cinema sabiam do naufrágio final. Assim como os leitores do livro sabem que o golpe de 1964 afundou, por mais de duas décadas, a democracia brasileira. Então qual a graça em ver um filme ou ler um livro, se conhecemos o fim? Pelo encanto do roteiro que vai nos entregando as urdiduras da trama. Almino foi participante do governo de João Belchior Marques Goulart, o Jango, que dirigiu o país de setembro de 1961 a março de 1964. O autor, então na casa dos 30 anos, foi líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o mesmo do presidente, e depois seu ministro do Trabalho.

Escrito com clareza e português escorreito, o livro defende a tese de que o golpe de 1964 teria nascido 10 anos antes quando da tentativa de derrubar o governo Getúlio Vargas. Entre os golpistas estariam militares de alta patente, o governador Carlos Lacerda – antigetulista ferrenho –, empresários sempre descontentes e o governo norte-americano, furioso com o monopólio estatal da Petrobras e com os planos da futura Eletrobras. Mas o suicídio de Getúlio e a reverberação de sua carta-testamento – dois atos que causaram profunda comoção popular – adiaram o arbítrio.

Nova tentativa de golpe seria feita em 1961, depois da suspeitíssima renúncia de Jânio Quadros. Eleito presidente com expressivos votos, ficou exatos sete meses no poder. Com sua renúncia, a democracia mandava que o vice-presidente assumisse. Mas muita gente tentou impedi-lo. Militares fizeram manobras golpistas e Carlos Lacerda soltou o brado: “João Goulart não pode ser presidente”. Ora, naquela época, o vice era eleito separadamente. Jango havia sido eleito pela segunda vez. A primeira, como vice de Juscelino Kubitschek. Portanto, o povo o queria. E a Constituição brasileira também.

Ocorre que o vice, no dia da renúncia de Jânio, estava em missão comercial na China comunista. Situação muito oportuna para os golpistas. Fato que houve manobras militares e tensões entre os políticos. O acordo possível foi João Goulart assumir o poder num sistema parlamentarista. Perfeito deus ex machina. Mas, em janeiro de 1963, num plebiscito com 12 milhões de votantes, 10 milhões disseram não ao parlamentarismo. Na “campanha” pelo presidencialismo, Jango fizera o país conhecer o Plano Trienal, elaborado pelo ministro Celso Furtado. O plano preconizava as famosas reformas de base. Sendo as principais a administrativa, a bancária, a fiscal e a agrária.

É nesse momento que o filme da história fica eletrizante, pois entram em cena o poder dos sindicatos urbanos, ligas camponesas, União Nacional dos Estudantes (UNE), além da força do Partido Comunista Brasileiro, o PCB (mesmo na ilegalidade). Também nascem a Ação Popular (AP) e a Política Operária (Polop). É o povo organizado. No cadeirão das reivindicações, os ingredientes são a reforma agrária, melhores salários, fim da inflação de mais de 50% ao ano, voto de analfabetos e elegibilidade de sargentos, não alinhamento automático aos interesses comerciais e políticos dos Estados Unidos.

São demandas por prosperidade e justiça. Dentre elas, a que mais desagradou aos privilegiados e senhores de sempre foi a reforma agrária. Mexer nas leis da terra foi bulir com latifundiários e símbolos de poder. Com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, de autoria do deputado Fernando Ferrari, o governo atiça a sanha da revanche. O presidente se torna uma personagem pressionada pelas exigências dos trabalhadores organizados e espremida pelo medo dos conservadores. Almino Affonso crê que Jango fez o que pôde no contexto de massas efervescentes e de golpistas prontos para o bote final.

Até que o show de um governo popular termina com o general Mourão Filho movimentando tanques de guerra em Minas Gerais, altas patentes militares assanhadas, traições parlamentares, temores de uma anarquia civil e uma providencial mãozinha dos norte-americanos. Feito. No 1º de abril de 1964, o presidente João Goulart deixou Brasília para nunca mais. Foi o início da mais longa noite da recente história brasileira, com direito a tenebrosos pesadelos. Essas e outras passagens são contadas em detalhes documentados no sensível livro do democrata Almino Affonso.

Fernanda Pompeu é redatora e escritora. Autora do livro 64, microcontos em torno da ditadura militar (Editora Brasiliense, 2006).

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