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Ecologia

Carne com veneno

Micos-leões-pretos comem pererecas com toxinas sem apresentar sinais de mal-estar

No alto de uma árvore, mico como rã da espécie Itapotihyla langsdorfii

Rodrigo Gonçalves Amaral / Unesp

Zoólogos flagraram dois micos-leões-pretos (Leontopithecus chrysopygus), uma espécie ameaçada de extinção e restrita ao estado de São Paulo, comendo anfíbios de duas espécies: a perereca-grudenta (Trachycephalus venulosus) e a perereca-castanhola (Itapotihyla langsdorffii). Em artigo em processo de publicação na revista Primates, a equipe relata que, em ambos os casos, os macacos não compartilharam o alimento com os familiares e não demonstraram incômodo após ingerir o anfíbio inteiro. “É muito difícil fazer esse tipo de registro porque os macacos costumam se alimentar no dossel das árvores, a mais de 10 metros de altura, e no meio da folhagem”, diz o biólogo Guilherme Garbino, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em um dos registros, um macho adulto dessa espécie — que tem pelo preto com mechas alaranjadas e cerca de 30 centímetros (cm) de comprimento, mais a cauda de até 40 cm – aparece no vídeo devorando uma perereca-grudenta, espécie de cor marrom-escuro que, como o nome sugere, produz grande quantidade de secreção tóxica pegajosa. Funciona com cobras, que ficam com a boca imobilizada quando atacam esses anfíbios, e causa irritação e dor no ser humano. “Nas imagens, dá para ver as manchas brancas da substância na boca do macaco, mas ele não faz nenhuma menção de se limpar e não apresentou sinal de desconforto depois”, diz Garbino. A perereca foi encontrada em um oco de árvore por um jovem mico que, mesmo com a ajuda de uma fêmea adulta, não teve sucesso na captura. O adulto, atraído pela vocalização do anfíbio, capturou o animal com as mãos e afastou-se para comê-lo, repelindo vigorosamente os outros interessados.

A perereca-castanhola, de cor amarelo-alaranjado e verde, cujo nome faz referência ao barulho que produz, também foi capturada por um macho adulto, mas escapuliu e caiu de uma altura de mais de 10 metros até o chão. O macaco desceu rapidamente, capturou a presa e subiu com ela na boca até o dossel, onde foi fotografado devorando o animal. As imagens foram enviadas a herpetólogos (especialistas em répteis e anfíbios) para identificação.

Na vida em família, os machos adultos costumam ajudar as fêmeas nos cuidados parentais e dividem frutas e insetos com os mais jovens. Por isso, os pesquisadores admitem a hipótese de que a atitude egoísta visa proteger os demais da toxina. “Mas o mais provável é que não tenham compartilhado o alimento por ser especialmente nutritivo, como fazem com ovo de pomba, larva de besouro e bicho-pau”, diz Garbino. As famílias de micos foram acompanhadas por mais dois dias e a equipe constatou que aqueles que ingeriram as presas não tiveram nenhum comportamento diferente do normal.

Baseados em dados ainda não publicados colhidos em uma sucessão de estudos de campo, os pesquisadores calculam que cada família capture ao menos uma perereca por mês. Para estudar a alimentação do mico-leão-preto, eles ficam no encalço das famílias de macacos do alvorecer até o crepúsculo, seguindo os sinais de rádio emitidos por um aparelho colocado no pescoço de alguns indivíduos e anotando toda vez que se alimentam. Os registros foram feitos no Parque Estadual do Morro do Diabo, no município de Teodoro Sampaio, extremo oeste do estado de São Paulo, onde vivem cerca de mil indivíduos, a maior população da espécie, como parte de um estudo sobre comportamento e ecologia para avaliar os efeitos da fragmentação florestal na espécie. O projeto é liderado pela primatóloga Laurence Culot, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, em parceria com o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).

Ao ler o artigo do grupo de Garbino, o herpetólogo Carlos Jared, do Instituto Butantan, comentou que todo anfíbio, inclusive as pererecas, produz substâncias tóxicas. “A perereca-castanhola exala um intenso cheiro de podre, mas é pouco tóxica e pode ser ingerida sem maiores problemas”, diz. Para Jared, alguns macacos podem ter desenvolvido tolerância às toxinas das pererecas, uma das hipóteses propostas no artigo do grupo. “O mico-leão-preto e as pererecas convivem no mesmo ambiente há muito tempo, por isso a oportunidade de predação é plausível.”

“Esse tipo de interação pode ser mais bem compreendida no contexto da ‘corrida armamentista’ da evolução, em que presa e predador tentam se superar”, diz Jared. Alguns sapos, por exemplo, incham quando abocanhados, o que comprime a glândula e estimula o esguicho de veneno na hora da mordida. Mas a cobra boipeva (Xenodon merremii) tem dois dentes que furam o pulmão da presa, levando-o a murchar. O guaxinim, mamífero sul-americano, raspa o sapo na rocha para tirar a pele e depois passa na água para limpar o veneno. Alguns índios da Amazônia fervem bem e comem a perereca Trachycephalus resinifictrix, tão venenosa quanto a perereca-grudenta.

Em outros casos, a presa supera o predador. As toxinas de alguns sapos, por exemplo, podem até matar a jararaca, que por sua vez não consegue afetar o gambá com seu veneno. “Um dos exemplos mais interessantes é o de uma cobra asiática [Rhabdophis tigrinus] que ‘sequestra’ o veneno do sapo, armazenando-o em uma bolsa dorsal embaixo da pele, para depois usá-lo como defesa química quando abocanhada pelos seus possíveis agressores”, diz Jared. Os exemplos citados podem ajudar a esclarecer o comportamento de predação dos macacos, embora sejam necessários mais estudos. “O ideal é integrar esse tipo de achado com informações da herpetologia”, sugere o pesquisador do Butantan.

Projeto
O efeito da fragmentação sobre as funções ecológicas dos primatas (nº 14/14739-0); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Laurence Marianne Vincianne Culot (Unesp); Investimento R$ 769.614,62.

Artigo científico
GARBINO, G. S. T. et al. Predation of treefrogs (Anura: Hylidae) with toxic skin secretions by the black lion tamarin (Leontopithecus chrysopygus, Callitrichinae). Primates. No prelo.

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