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Psiquiatria

Cartas na mesa

Tese premiada define personalidade dos jogadores patológicos

EDUARDO CESARCaça-níquel, que proliferou na década de 90: criador de dependênciaEDUARDO CESAR

Se você conhece alguém que fala muito em jogar e só se sente feliz quando entregue a cartelas de bingo, caça-níqueis, loterias, carteados ou corridas de cavalo, cuidado. A obstinação por apostas é um traço do jogador patológico, uma personalidade desequilibrada que, se não controlada, pode chegar a extremos de roubar ou matar para manter-se no jogo, tal qual – numa comparação agora sustentada cientificamente – um dependente químico.Diagnosticado com precisão no Brasil há poucos anos, o jogador patológico era facilmente confundido com portador do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), indivíduo que sofre de manias: lavar as mãos a todo momento ou manter a casa sempre impecavelmente arrumada, por exemplo. Mas são categorias diferentes, como demonstrou o médico Hermano Tavares em seu doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O trabalho obteve o reconhecimento do National Council on Problem Gambling (NCPG), organização norte-americana dedicada a entender e conter o vício em jogos de azar: Tavares foi premiado com uma placa gravada e convidado a dar uma conferência no congresso anual da instituição, em Dallas, Estados Unidos, no dia 14 deste mês. Na tese, orientado por Valentim Gentil Filho, Tavares pesquisou os traços de personalidade peculiares aos portadores desse distúrbio pouco estudado no Brasil. Com a equipe do Ambulatório do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso (Amjo), do Instituto de Psiquiatria da USP, comparou reações de 40 jogadores patológicos, 40 pacientes com TOC e 40 pessoas sem esses problemas.

Uma das conclusões mais importantes é que, embora combine traços impulsivos (pouca reflexão seguida de rápida reação, prodigalidade e pouco apreço por normas e padrões) e compulsivos (medo da incerteza), além da obsessão por apostas em dinheiro, a personalidade do jogador patológico é claramente distinta da do portador de TOC. “A tese demonstra que existem mais semelhanças do jogo patológico com dependências químicas do que com TOC”, revela o pesquisador, que faz pós-doutorado na Universidade de Calgary, Canadá. Para ele, a melhor definição de jogo patológico é uma dependência comportamental. A sensação de êxtase – semelhante à experimentada pelas drogas – vem da aposta, da emoção de obter bons resultados e ganhar.

A mente não sai do ambiente de apostas: “O jogador patológico está constantemente preocupado com o jogo, esperando a hora de poder fazer uma nova aposta, bolando estratégias para ganhar ou imaginando como conseguir dinheiro para pagar dívidas de jogo”, diz Tavares. Outro sinal: o desejo de recuperar o dinheiro perdido, num movimento contínuo de apostas que alimenta a dívida e a ansiedade. “A falta de controle sobre o comportamento”, prossegue, “revela-se em tentativas frustradas de reduzir ou abster-se do jogo, mentiras para ocultar a extensão da dependência e envolvimento em atividades ilegais, como falsificação de cheques e furtos, para financiar o jogo.”

Tavares adotou escalas de personalidade habitualmente usadas para distinguir jogadores patológicos e portadores de TOC. Em 2000, ano em que a tese foi concluída, saíram na Revista de Psiquiatria Clínica os resultados completos sobre uma das escalas, o Inventário de Temperamento e Caráter (ITC), que concebe o desenvolvimento da personalidade como um caminho de mão dupla entre temperamento e caráter: fatores hereditários de temperamento (busca de novidade, dependência de recompensa e persistência, por exemplo) motivam fatores de caráter (autodirecionamento e cooperatividade, entre outros), que por sua vez acionam os mecanismos de resposta a um estímulo (vontade de jogar, por exemplo).

Problema social
“A procura por tratamento aumentou vertiginosamente depois que os bingos eletrônicos e os videojogos, principalmente de pôquer e do próprio bingo, espalharam-se pelo país, nos anos 90”, observa Tavares. Seu estudo e os de outros especialistas mostram uma nítida correlação entre a permissão da prática de jogos de azar – cada vez mais acessíveis – e o aumento dos diagnósticos confirmados de jogadores patológicos. No Brasil não há estatísticas, mas as do exterior indicam que de 1% a 4% da população padece desse distúrbio, que é considerado uma dependência, embora menos freqüente que as do álcool, do tabaco e de drogas prescritas por médicos, como tranqüilizantes e anfetamínicos, por exemplo. Mas é mais comum que a dependência de cocaína e de crack e que transtornos psiquiátricos clássicos, entre eles a esquizofrenia.

“Os efeitos do jogo patológico, como o endividamento crônico, as tentativas de suicídio e o aumento da criminalidade, deveriam ser considerados no momento em que se discute a reintrodução dos cassinos no Brasil”, alerta o pesquisador, que lança uma convocação: “Já passa da hora de começarmos um estudo sobre a freqüência e o impacto do jogo patológico na sociedade brasileira, pelo menos nas cidades maiores, onde os bingos eletrônicos e a os videojogos se tornaram populares”. De antemão, sabe-se que as mulheres podem ser mais afetadas que os homens. Em 2001 Tavares publicou um trabalho no Journal of Gambling Studies mostrando que as mulheres desenvolvem o quadro de jogo patológico duas vezes mais rápido. “Hoje as estatísticas apontam para uma proporção de dois homens para cada mulher”, diz ele, “mas, à medida que o jogo se torna mais popular, mais mulheres estão jogando e a tendência futura é a proporção cair para uma para cada homem.”

Com os videogames caseiros, o perigo parece menor. Segundo Tavares, em princípio, a dependência só se estabelece a partir de jogos de azar, definidos por duas características: a habilidade do jogador não aumenta as chances de ganho e os resultados finais são geralmente aleatórios. Mas ele adverte que não se pode ter certeza disso, porque ainda não há estudos que relacionem um interesse excessivo de crianças por videogames com o surgimento do jogo patológico na vida adulta.

No Canadá, com Nady el-Guebaly e David Hodgins, pesquisadores veteranos na área, Tavares trabalha na aplicação de seus dados a uma amostra local e na comparação entre jogadores e alcoólicos quanto à personalidade e avidez. Os resultados preliminares apontam para uma correlação entre avidez e traços impulsivos de personalidade. O pesquisador, que pretende voltar em dezembro, acredita que a partir daí surjam critérios de classificação de jogadores patológicos em subtipos – predominantemente impulsivo ou compulsivo, por exemplo – e variações terapêuticas: “O tratamento dos impulsivos enfocaria a avidez como fator de risco para recaídas; e o dos compulsivos, as emoções negativas, a ansiedade e a depressão como precipitantes de recaídas”.

O Projeto
Jogo Patológico e suas relações com o espectro impulsivo-compulsivo
Modalidade

Bolsa de doutorado
Coordenador

Valentim Gentil Filho – USP
Investimento

R$ 40.585,32

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