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Geografia

Chuvas intensas redesenharam o rio Tietê há 17 mil anos

Em resposta a mudanças do clima, o trajeto do curso d’água se refez, formou-se o canal principal e a vazão diminuiu

Cartão postal com imagem do fotógrafo suíço-brasileiro Guilherme Gaensly do Clube de Regatas Tietê, na cidade de São Paulo, no início do século XX

Reprodução José Rosael/Hélio Nobre/ Museu Paulista da USP

Com um trajeto que corta quase todo o estado de São Paulo, desde a região metropolitana até a divisa com Mato Grosso do Sul, o rio Tietê tinha um formato bem diferente até cerca de 17 mil anos. Era um rio formado por uma rede de canais entrelaçados que corria 5 quilômetros (km) mais ao norte no interior paulista e a essa mesma distância ao sul na atual capital paulista, em comparação com o traçado de hoje.

A rede de canais percorria uma paisagem ocupada por árvores baixas e esparsas, similar ao Cerrado típico, entre terrenos com idades próximas a 17 mil anos e 35 metros (m) mais altos que os do atual leito. O rio era provavelmente três vezes mais largo e transportava rochas do tamanho de uma bola de tênis, que erodiam o leito e abriam caminho para terras mais baixas.

A configuração atual do Tietê resultou das chuvas intensas que banharam a atual região Sudeste do Brasil. Em quase toda a área que hoje é o estado de São Paulo, períodos de chuva intensa e contínua, durante milhares de anos, transformaram a paisagem e alimentaram uma vegetação florestal, parcialmente eliminada nos últimos séculos com a expansão das cidades e da agricultura.

O aguaceiro intensificou o transporte de sedimentos para o rio, que aos poucos migrou para terrenos mais baixos e jovens, com idade aproximada de 3 mil anos. Formou-se um canal principal sinuoso, as margens foram ocupadas por vegetação e, em consequência, o volume de água transportado para o rio diminuiu. Desde essa época, o rio carrega principalmente lama e sedimentos finos como a areia de praia.

Entrevista: Fabiano Pupim
00:00 / 12:40

“O Tietê está cada vez menos dinâmico”, diz o geógrafo Fabiano Pupim, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Diadema. Ele coordenou essa reconstituição da história do rio nos últimos 18 mil anos, publicada em junho na revista Geomorphology.

Caio Breda/USP Este lago e áreas alagadas (ao fundo) da região de Laranjal Paulista foram trechos do rio Tietê há 9 mil anosCaio Breda/USP

Reflexo do clima na Amazônia
“O sistema atmosférico de monção da América do Sul, que regula o regime de precipitação na Amazônia e o transporte de umidade para a região Sudeste, explica a alternância entre períodos de deposição ou retirada de sedimentos das margens do rio, respectivamente nas épocas de chuva e de seca”, explica o geólogo Caio Breda, da Universidade de São Paulo (USP), com base na análise de sedimentos colhidos ao longo de 500 km do rio, da região metropolitana até o distrito de Laras, no município de Laranjal Paulista, a 173 km da capital.

Físico do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, Luiz Carlos Pessenda, que não participou do estudo, chegou a conclusões semelhantes sobre as variações do clima e as transformações da vegetação nos últimos 30 mil anos examinando isótopos de carbono de matéria orgânica do solo, grãos de pólen e esporos de algas de uma turfeira na Mata Atlântica na serra do Mar, próxima à cidade de São Paulo.

“Aparentemente há um pequeno desacordo entre as interpretações para os períodos próximos ao último máximo glacial, há cerca de 18 mil anos”, diz Pessenda. A equipe do Cena verificou que um período de chuvas se intensificou de 23 mil anos a 12 mil anos, mas as diferenças poderiam ser explicadas pelas técnicas utilizadas e pela localização e altitude dos locais de amostragem.

As conclusões convergem com as do geólogo Francisco Cruz, do Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP), que indicaram como os períodos de aumento de pluviosidade entre 120 mil e 12 mil anos atrás devem ter moldado as paisagens atuais na América do Sul e conectado a Mata Atlântica à Amazônia.

“Entre 18 mil e 15 mil anos ocorreu o evento mais úmido registrado nos últimos 120 mil anos, conhecido como Heinrich Stadial 1”, comenta Cruz. “Esse período de chuvas deve ter causado o aprofundamento do rio e estabelecido o atual canal sinuoso”, acrescenta Pupim.

Caio Breda/USP O rio Tietê, que atualmente corre em uma área baixa (ao fundo), ocupou as áreas altas (à direita), há cerca de 100 mil anosCaio Breda/USP

Nove terraços
Breda e Pupim identificaram dois níveis de terraços na região metropolitana e sete no interior. Terraços são as antigas várzeas, áreas planas que se estendiam além das antigas margens dos rios e eram ocupadas pelas águas que transbordavam.

Os dois níveis da região metropolitana estão de 5 a 10 m acima do nível atual dos rios Tietê e Pinheiros, entre colinas e morros sobre rochas vulcânicas, com idade acima de 40 mil anos. “Na cidade de São Paulo, parte dos bairros do Bom Retiro e da Barra Funda já foram terraços baixos do rio Tietê, que costumavam alagar nas grandes cheias, assim como parte da atual Cidade Universitária e do largo da Batata foram do rio Pinheiros”, comenta Pupim.

Na região de Laras, os terraços formam uma sequência de sete níveis, os quatro mais baixos com 17 mil anos e o mais alto com centenas de milhares a milhões de anos, todos esculpidos em rochas sedimentares, muito susceptíveis à erosão. “As rochas frágeis e a inclinação do terreno aumentam a energia do rio, que abandonou os terraços mais antigos à medida que escavou seu vale”, diz o geógrafo da Unifesp. Em contrapartida, na Região Metropolitana de São Paulo as rochas são mais duras e o terreno mais plano, fazendo o rio correr mais devagar.

Léo Ramos Chaves O rio Tietê, bastante poluído, na Região Metropolitana de São PauloLéo Ramos Chaves

As idades dos sedimentos na região de Laras evidenciaram a transformação da estrutura do rio – de uma rede de canais para apenas um canal – em resposta aos períodos de chuvas intensas, que alteraram a vegetação às margens do Tietê. Um dos pontos analisados é um trecho abandonado do rio naquela região, com o formato de uma ferradura, com idade estimada de 8 mil anos, “hoje um brejo permanentemente encharcado”, observa Breda.

Em épocas muito mais recentes, o Tietê continuou a se transformar, dessa vez pela ação humana. Em consequência da ocupação urbana e da construção de 11 barragens para a produção de energia elétrica – a primeira delas, a usina hidrelétrica Edgard de Sousa, em Santana de Parnaíba, na região metropolitana, em 1901. Em consequência do represamento das águas, diz Pupim, “o rio Tietê se tornou uma sucessão de lagos, com acúmulo de sedimentos antes das represas e erosão intensa depois dela”.

As curvas – ou meandros – desapareceram com a retificação do rio, a partir de 1930, para ampliar a área a ser ocupada pelos moradores e indústrias da capital. É um dos poucos rios visíveis da Grande São Paulo – bastante poluído – em meio a dezenas de outros canalizados, encobertos por avenidas. Em junho de 2021, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), uma autarquia do governo do estado de São Paulo, informou que, desde 2019, havia removido do rio 2.305 pneus e 959 mil m3 de sedimentos e lixo, incluindo garrafas plásticas, tecidos, bolas e sacolas. O Daee faz a limpeza e desassoreamento de 41 km do Tietê na região metropolitana com o propósito de reduzir o impacto das enchentes e revitalizar o rio.

Artigos científicos
BREDA, C. et al. The role of bedrock and climate for the Late Quaternary erosive-depositional behavior of an intraplate tropical river: The Tietê River case, southeastern Brazil. Geomorphology. v. 389, 107834, p. 1-14. 15 jun. 2021.
RUIZ PESSENDA, L. C. et al. The evolution of a tropical rainforest/grassland mosaic in southeastern Brazil since 28,000 14C yr BP based on carbon isotopes and pollen records. Quaternary Research. v. 71, n. 3, p. 437-52. mai. 2009.

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