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Carta do editor | 75

Ciência, política e futebol

Os seis maiores partidos políticos brasileiros, a julgar pela composição de suas atuais bancadas na Câmara dos Deputados, revelam coerência ideológica, programática, e convergência surpreendente entre orientação política e perfil sócio-ocupacional de seus representantes. Essas características, que podem soar até como heresia aos olhos de quem lê habitualmente o noticiário político nacional – e acostumou-se a cultivar uma imagem de fragmentação e fragilidade para o quadro político-partidário brasileiro –, emergiram de uma consistente pesquisa sociológica recentemente concluída, e apresentada na reportagem de capa desta edição, elaborada por Claudia Izique. O estudo é extremamente oportuno neste ano de eleições majoritárias e de discussões acaloradas, mesmo furiosas, sobre as novas regras para alianças partidárias. Pesquisas de sociologia, ciência política ou qualquer outro campo das Humanidades não têm que ter, é óbvio, compromisso com as noções de atualidade e oportunidade que freqüentam necessariamente o exercício do jornalismo. Mas, às vezes, suas conclusões são exatamente isso, atuais e oportunas, para além de seu valor acadêmico ou científico. Nesse caso, tornam-se um acepipe para o jornalismo. Natural, portanto, que a pesquisa sobre os partidos tenha conquistado a capa de Pesquisa FAPESP, depois de disputá-la com reportagens de áreas mais freqüentemente alçadas a esse espaço nobre.

Por exemplo, nesta edição poderia ter sido tema de capa um importante achado científico no campo da genética: a identificação e descrição do gene PKHD1 que, quando sofre mutações em suas duas cópias, desencadeia uma severa e rara doença hereditária (principalmente em recém-nascidos e crianças), a doença renal policística auto-sômica recessiva. O trabalho internacional que chegou a esse resultado foi coordenado por um pesquisador brasileiro e teve a participação de 17 colegas dos Estados Unidos e Europa, como relata Marcos Pivetta. Ainda em Ciência, vale destacar um trabalho que conseguiu situar a América do Sul no mapa da Rodínia, um supercontinente que existiu na Terra há 1 bilhão de anos, bem antes, portanto, do muito mais conhecido Gondwana, formado há 750 milhões de anos, a partir justamente dos fragmentos de Rodínia. E ressaltamos, em Astrofísica, um trabalho feito no Rio Grande do Sul que mostra de que modo a matéria é engolida por um buraco negro no centro de uma galáxia. Mas dada a raridade do tema nos domínios científicos, associada ao alto interesse que ele provoca, ainda mais nesses tempos pré copa do mundo, é também leitura altamente recomendável a reportagem sobre um estudo que traça o perfil do futebol praticado hoje no Brasil, do ponto de vista das exigências físicas a que são submetidos os jogadores de cada posição no time.

A reportagem de abertura da seção de Tecnologia detalha alguns projetos de pesquisa de novas tecnologias para tratamento e reuso de efluentes sanitários e industriais, apoiados pela FAPESP. Os especialistas acreditam que a cobrança pelo uso das águas dos rios a partir de junho, que vai atingir, primeiro, os moradores de 180 municípios de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, abastecidos pela bacia hidrográfica do Paraíba do Sul, deverá impulsionar bastante a adoção dessas novas tecnologias, relata Yuri Vasconcelos. Para concluir, em Humanidades, uma reportagem sobre o projeto de pesquisa que resultou no livro Barroco Memória Viva, impele a uma bela viagem pelas cidades coloniais, por sua arquitetura, por outras manifestações da estética barroca e, principalmente, por dentro das igrejas que desempenharam o papel de núcleos de difusão da cultura e da arte coloniais brasileiras. Boa leitura!

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