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Tecnociência

Cinzas da Amazônia no gelo dos Andes

Uma montanha dos Andes bolivianos, próxima a La Paz, forneceu mais uma evidência de que a intensificação das queimadas na Amazônia brasileira coincide com o processo de ocupação de grandes porções da Região Norte promovida a partir dos anos 60. Um testemunho (amostra) de gelo de 140 metros de profundidade retirado do pico do Nevado Illimani – um ponto do continente sul-americano situado a 6.350 metros de altitude que recebe parte das cinzas da combustão de vegetação da Amazônia – mostra que o início da tendência de aumento no ritmo das queimadas na região ocorreu entre 30 e 40 anos atrás.

Como o gelo do Andes, distante mais de mil quilômetros da Amazônia, pode dar esse tipo de informação? Quando intactas e bem preservadas, as camadas de gelo de uma localidade, como as do Illimani, podem ser usadas como uma espécie de arquivo do clima e química da atmosfera. Os componentes do ar do passado, inclusive a fumaça das queimadas, ficam aprisionados e conservados no gelo, possibilitando o seu resgate para análises científicas.

Para fornecer informações sobre as queimadas da Amazônia, 50 metros do testemunho do Illimani, extraído em 1999 por uma expedição científica franco-suíça, foram fatiados em 744 pedaços menores pelo pesquisador Alexandre Correia, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, principal autor do estudo. Em seguida, com o auxílio de um aparelho chamado de espectômetro de massa, Correia reconstituiu as emissões atmosféricas da Amazônia que chegaram ao monte boliviano nos últimos 80 anos do século passado em relação a 46 elementos químicos.

O método permitiu identificar, ano a ano, quanto foi expelido na atmosfera – na forma de aerossóis, micro-partículas de poeira transportadas pela chuva e vento – de cada um desses elementos. “Na verdade, para cada ano analisado, conseguimos até separar o que foi emitido no verão do que foi no inverno”, diz o pesquisador, que realizou o estudo no âmbito do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, projeto internacional de US$ 80 milhões que, desde 1999, reúne mais de 300 pesquisadores da América Latina, Estados Unidos e Europa, sob a liderança do Brasil. Também participaram do trabalho cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e de duas instituições francesas, Universidade Paul Sabatier e Universidade Joseph Fourier.

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