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Revista cancela publicação de texto de 1977 devido a ligações não conhecidas do autor com a indústria

A revista médica The Lancet anunciou a retratação de um artigo de opinião de apenas cinco parágrafos, publicado em 1977, que foi usado por décadas como referência científica da segurança de produtos à base de talco – ainda que, à época, a matéria-prima do talco, um mineral argiloso, pudesse sofrer contaminação em seu processo de extração por um outro mineral, o amianto, de conhecido potencial cancerígeno. Hoje, os talcos comercializados são feitos à base de amido de milho.

O texto em questão tinha autoria desconhecida, já que foi publicado em uma seção de comentários da revista que dispensava a identificação do responsável. O trabalho foi considerado inválido agora, quase meio século após a publicação, ante as evidências de que seu autor era o patologista Francis John Caldwell Roe, que atuou nos comitês de carcinogenicidade e toxicidade do Departamento de Saúde e Segurança Social do Reino Unido e no Painel Consultivo de Especialistas em Segurança Alimentar da Organização Mundial da Saúde, mas paralelamente era consultor remunerado da Johnson & Johnson, uma das principais produtoras de talco na época.

Roe morreu em 2007, aos 82 anos. Em uma carta publicada na Lancet em 1979 – dois anos depois do seu comentário –, ele se referia ao texto anônimo como “equilibrado” e revelou, ao mesmo tempo, ser consultor da Associação de Cosméticos, Artigos de Higiene Pessoal e Perfumaria. Foi a deixa para que dois historiadores da área da saúde pública, David Rosner, da Universidade Columbia, e Gerald Markowitz, do John Jay College of Criminal Justice, investigassem sua relação com a Johnson & Johnson. De acordo com o site Retraction Watch, a dupla descobriu documentos que mostram como Roe submeteu à Johnson & Johnson uma cópia do texto antes da publicação na Lancet, pedindo comentários. Em uma carta dirigida a Gavin Hildick-Smith, então diretor de assuntos médicos da empresa, Roe afirmou ter “levado em consideração seus dois pontos sobre o original […] de uma maneira ligeiramente diferente da que você propôs — mas acho que atendi aos seus dois pontos”.

Em comunicado, a Johnson & Johnson afirmou que, embora respeite “o compromisso da Lancet em garantir a ausência de viés nos materiais que publica, infelizmente, nesse caso, a revista está sendo usada como parte de táticas de litígio contínuas e desonestas”. Em 2023, a empresa retirou definitivamente de seu catálogo o talco à base de minerais, substituindo-o por produtos à base de amido de milho.

Os editores da Lancet contaram, na nota de retratação, que a publicação de comentários não assinados “costumava ser uma prática padrão”. Ao site Retraction Watch, um representante da revista disse que ela só consideraria divulgar uma carta não assinada atualmente “em raras circunstâncias em que haja preocupações com a segurança do autor”. Ainda assim, a publicação teria conhecimento dos nomes e afiliações dos autores.

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