Guia Covid-19
Imprimir Republicar

Pesquisa na quarentena

“Como graduanda, sinto-me de mãos atadas; como pesquisadora, tenho de superar obstáculos da pandemia”

A meteorologista Micheline Coelho divide-se entre colaborar em estudos internacionais e tentar concluir o curso de medicina

Habituada ao home office, Micheline Coelho concilia o trabalho de pesquisa com as atividades da graduação em medicina

Arquivo pessoal

Vivo há nove anos na Austrália e, aqui, a eclosão da crise sanitária instaurou, de início, um clima de insegurança e desespero. Assim que a pandemia foi oficialmente decretada pela Organização Mundial da Saúde [OMS], em 11 de março de 2020, e foram anunciadas as primeiras medidas de distanciamento social drástico, de lockdown, as pessoas correram para os mercados, a fim de estocar alimentos e outros produtos básicos – alguns chegaram a faltar nas prateleiras, como papel higiênico. Evidentemente que, no começo, fiquei preocupada com a agressividade do vírus e com parentes que tenho na Paraíba, onde nasci e fiz minha primeira graduação, em meteorologia, na Universidade Federal de Campina Grande [UFCG]. Felizmente, estão todos bem.

O caos não durou muito tempo em Sydney, onde morei até junho, quando meu marido – também brasileiro – e eu decidimos mudar para Melbourne, em Victoria. Ainda em Sydney, percebi que, com a adesão ao isolamento social, aos poucos as pessoas foram se acalmando. A nova realidade afetou muito pouco minhas atividades de pesquisa. Estou acostumada a trabalhar remotamente, em casa mesmo, desde quando me mudei para cá, em 2012, acompanhando meu marido, que recebera uma proposta de trabalho.

Reuniões on-line fazem parte da minha rotina muito antes da pandemia. Sou pesquisadora associada do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e colaboro com o médico patologista Paulo Saldiva, professor na mesma instituição. Saldiva e eu somos muito amigos e trabalhamos juntos desde o meu estágio de pós-doutorado na FM-USP, quando saí do Instituto Nacional de Meteorologia [Inmet] para me dedicar ao estudo dos efeitos do clima sobre a saúde humana, especialmente em áreas urbanas.

Trabalho basicamente com simulações feitas a partir de modelos estatísticos, cruzando informações meteorológicas e de epidemiologia. Utilizo banco de dados já prontos, como os disponíveis na plataforma do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde [Datasus], do Ministério da Saúde, e modelos matemáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [IPCC]. Por isso, não dependo de um laboratório para fazer minhas análises, apenas de meu computador.

Além disso, participo de projetos internacionais que envolvem instituições científicas de todo o planeta. A pandemia não prejudicou a capacidade de nos mantermos conectados, trocando ideias e publicando trabalhos em periódicos de alto impacto. Quem coopera com estudos produzidos por pesquisadores de vários países está habituado a participar de reuniões virtuais, independentemente do regime de home office.

Em maio, por exemplo, publicamos um estudo na revista Nature Climate Change, assinado por 69 pesquisadores de várias partes do mundo, que já se comunicavam remotamente antes da pandemia. A pesquisa mostra que um terço das mortes registradas durante ondas de calor em 43 países, entre 1991 e 2018, tem relação com o aumento das emissões de gases de efeito estufa (ver reportagemEstudo atribuiu um terço das mortes em ondas de calor ao aumento dos gases de efeito estufa).

O trabalho não tem a ver com a Covid-19, mas considero relevante sua publicação em meio à pandemia. Nossa pesquisa evidencia que as mudanças climáticas de fato já provocam graves efeitos sobre a saúde, uma vez que fatores como baixa umidade do ar e altas temperaturas causam alterações no metabolismo. Com a chegada da pandemia, outros estudos têm enfatizado que a degradação ambiental também pode afetar nossa saúde, favorecendo a emergência de vírus desconhecidos, podendo desencadear novas pandemias (ver reportagem “Da floresta para as cidades). É cada vez mais necessário, portanto, investir em estudos interdisciplinares capazes de correlacionar ciência ambiental, meteorologia, saúde pública e medicina.

Reconheço, é claro, que a pandemia tem impactado profundamente o meio acadêmico. Por mais que me mantenha conectada remotamente com meus colegas, o cancelamento de congressos e conferências presenciais abalou a dinâmica de produção do conhecimento científico. Muitas parcerias são firmadas nos intervalos entre uma palestra e outra em um congresso. Muitos laços são fortalecidos em almoços ou cafezinhos nos corredores de universidades. Sinto falta disso. Os encontros virtuais garantem uma comunicação mínima entre os pesquisadores, mas não a qualidade de diálogos mais profundos.

Ao mesmo tempo, e isso pode soar paradoxal, as reuniões on-line também se mostram vantajosas. As instituições científicas estão vendo que podem reduzir custos com infraestrutura, passagens aéreas e hospedagem ao realizarem eventos virtuais. Os recursos que eram gastos com viagens e toda a logística necessária para efetivar uma conferência presencial agora podem ser direcionados para projetos de pesquisa, por exemplo. Só o tempo irá nos dizer se esse modelo vai perdurar após a pandemia.

Se a crise sanitária não me causou grandes problemas na carreira de pesquisadora, não posso dizer o mesmo como aluna de graduação. Aos 47 anos, estou na metade do curso de medicina, na International University of the Health Sciences [IUHS]. Quando tiro o “chapéu” de pesquisadora e boto o de graduanda, a coisa muda, e aí sinto na pele a angústia de não poder ter acesso a um laboratório, hospital ou sala de aula.

A pandemia chegou exatamente quando eu começaria o internato médico. Nesse período, o aluno faz estágios obrigatórios em hospitais, baseado em um rodízio nas principais áreas médicas, como ginecologia, cirurgia, clínica médica e pediatria. Geralmente o estágio é feito no hospital-escola da própria universidade. Estudantes de instituições que contam com essa infraestrutura têm conseguido fazer internato. O que não é o meu caso, porque a IUHS não tem hospital-escola na Austrália. Os hospitais disponíveis para mim estão todos nos Estados Unidos e, por isso, a IUHS depende de convênios com hospitais regulares para garantir estágios a seus alunos aqui na Austrália. Com a pandemia, esses hospitais cancelaram as vagas de internato por tempo indeterminado. Além disso, as aulas práticas em laboratório também foram suspensas.

Isso me deixa um pouco aflita, porque provavelmente vou levar mais tempo para me formar em medicina. Embora eu já tenha uma carreira consolidada como pesquisadora, desejo muito concluir o curso de medicina. É um campo do conhecimento totalmente novo e desafiador para mim, que já tem me permitido aprofundar o olhar sobre como eventos climáticos extremos afetam mecanismos fisiológicos. Essa formação permitirá que faça a interpretação de dados médicos com propriedade, aperfeiçoando minha capacidade analítica em biometeorologia humana.

Como precisarei sair da Austrália para concluir o meu curso, seria ótimo concluir essa etapa no Brasil, por exemplo. Na minha opinião, a medicina brasileira é uma das melhores do mundo e, além disso, eu teria contato com essa área na língua portuguesa. Mas os casos de Covid-19 voltaram a aumentar um pouco na Austrália e está mais difícil sair do país devido às medidas restritivas para viagens.

Na condição de estudante de graduação, sinto-me de mãos atadas. Como pesquisadora, sou desafiada a superar obstáculos que hoje impactam a colaboração científica e a produção do conhecimento. A pandemia tumultuou a atividade de pesquisa, afastou cientistas de seus laboratórios, paralisou projetos. Todas essas adversidades me sensibilizam profundamente, encorajando-me a seguir na luta pela ciência.

Republicar