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A soma e o resto – Um olhar sobre a vida aos 80 anos | Fernando Henrique Cardoso | Civilização Brasileira, 196 páginas, R$ 29,90

Fernando Henrique Cardoso cumpre o que promete em seu mais recente livro – espontaneidade no falar e uma visão ampla de temas contemporâneos. Talvez a atitude provoque alguma estranheza em quem se acostumou a lê-lo como um intelectual preocupado com o rigor acadêmico das ciências sociais ou como o político que defende ideias de partido ou de governo. Ocorre que a graça de A soma e o resto – Um olhar sobre a vida aos 80 anos (Civilização Brasileira, 2011) é exatamente a de oferecer opiniões pessoais de um personagem importante da vida pública brasileira livre dos dois compromissos que o acompanharam pela vida afora. O primeiro, de intelectual engajado, cujos textos eram sempre apoiados em estudos de campo ou por teorias sociais, políticas, filosóficas ou econômicas. O segundo, de político com cargos relevantes, cujas declarações devem ser bem avaliadas antes de expressas, sob o risco de se voltarem contra o seu próprio governo.

O livro partiu de depoimentos dados a Miguel Darcy de Oliveira, do Instituto Fernando Henrique Cardoso, entre maio e julho de 2011, e surgiu como uma homenagem aos 80 anos do ex-presidente. A ideia é apresentar algumas questões sobre as quais ele se debruçou depois que saiu da Presidência da República (1995-2002), como as transformações sociais e econômicas globais e o esforço para entendê-las. Um dos temas que mais parecem interessá-lo é a alta conectividade entre as pessoas. “Vivemos numa sociedade em que o importante é compartilhar. Hoje, o grande divertimento dos jovens é contar o que fizeram. (…) A privacidade, que era o bem maior da sociedade dita burguesa, bem estabelecida, passa a ser coisa secundária. O que se quer é o contrário, que os outros saibam o que estamos fazendo”, constata. Algumas poucas páginas depois diz, perplexo, “a sociedade que está emergindo é estranha e complexa. O que é uma maneira elegante de dizer que não se sabe exatamente o que ela é, como funciona e para onde está indo”.

Essa pluriconectividade, como ele a chama, cria pessoas egoístas, isoladas, fechadas em si mesmas ou esses relacionamentos múltiplos estariam gerando uma consciência que cada um tem de se mover de vez em quando por certas causas e valores? Ou seriam ambas as coisas? Mais uma vez, ele admite, não se sabe a melhor resposta. A transformação da sociedade se dá em um mundo multipolar e pluricultural ainda por ser entendido.

Há também o fenômeno de deslocamento de poder no mundo, embora os Estados Unidos se mantenham no topo. Para Fernando Henrique, isso acontece em grande parte graças a sua enorme capacidade não apenas de produzir tecnologias novas, mas de difundi-las com facilidade e rapidez pela sociedade, “talvez a característica mais marcante do capitalismo americano contemporâneo”. A China entra no jogo com força, mas não se contrapõe como uma expansão do comunismo, e sim como um capitalismo de Estado com poder político centralizado. O ex-presidente fala ainda de outros temas internacionais, como a América Latina, a modernização do mundo islâmico, e repete seu já conhecido discurso sobre as drogas – “uma guerra perdida”.

No início do livro é onde estão algumas questões mais pessoais, como as influências que recebeu e os pontos de inflexão de suas carreiras acadêmica e política. Na parte final do depoimento surge um Fernando Henrique menos conhecido, em que comenta o sentido da vida, fala de literatura, lembra-se de Ruth Cardoso e dos amigos que já se foram. Também dá uma definição precisa de si mesmo como sociólogo, que ajuda a entender seus interesses atuais: “O que sempre me interessou foi fazer a sociologia do emergente, captar e buscar entender o novo, o que está surgindo. (…) Não me preocupo com o que já está. Me interessa o que vem vindo”. Não espanta, portanto, seu fascínio pelas novas relações sociais de um mundo tão conectado.

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