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Internet

Conexão resiliente

Internet brasileira é aprovada em seu maior teste, com o tráfego de conteúdo recorde em meio ao isolamento social causado pela Covid-19

Instrutora de yoga dá aula online: aumento de videoconferências contribuiu para elevar o tráfego de dados na rede

Reuters/Pilar Olivares

Uma rara boa notícia em tempos de pandemia. A infraestrutura da internet brasileira está sendo submetida ao seu maior teste e não há indícios, até o momento, de estresse significativo no sistema. O isolamento social provocado pela Covid-19 levou a um expressivo aumento de tráfego de dados na rede. Muitas empresas adotaram o home office, redistribuindo geograficamente o tráfego e ampliando as videoconferências de trabalho. Escolas e universidades investiram em plataformas de ensino a distância. A telemedicina foi regulamentada em março, permitindo a prática de consulta on-line. Familiares e amigos intensificaram as chamadas de vídeo, e os streamings de shows, filmes e games foram ainda mais acessados diante das restrições impostas pelo confinamento.

“O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), órgão multissetorial responsável pelas diretrizes estratégicas relativas ao uso e desenvolvimento da internet no país, constatou aumento contínuo de tráfego de conteúdo, sendo que o pico de 11 terabits por segundo (Tb/s) foi alcançado pela primeira vez em 23 de março e novamente hoje. Desde então, as máximas diárias de tráfego na rede têm superado a marca de 10 Tb/s. Antes da Covid-19 os momentos de maior uso da rede registravam marcas na casa de 8 a 9 Tb/s.”

Outra constatação importante é que o tráfego, anteriormente, era bem maior no período noturno, com uma concentração entre 20 e 22 horas, quando aplicativos de entretenimento eram mais acessados. Agora, o uso intenso da rede se estende por mais horas, abrangendo os períodos vespertino e noturno.

Para averiguar os impactos da nova realidade na conectividade dos brasileiros, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), órgão executivo do CGI.br, realizou um estudo com dados coletados entre os dias 31 de janeiro e 5 de abril abrangendo 970.676 medições em todos os estados do país. Elas foram realizadas por meio do sistema de aferição de qualidade de internet Simet, no qual os próprios usuários fazem a verificação on-line do desempenho de suas conexões.

Os resultados foram publicados no relatório Influência da Covid-19 na qualidade da internet no Brasil, divulgado no início de abril. As métricas de performance verificadas foram a velocidade de download (recebimento de dados) e upload (envio de dados), latência (tempo que a informação leva para sair do computador de origem e chegar ao de destino) e perda de pacotes (informação perdida na transmissão e que implica a necessidade de retransmissão). O estudo constatou que não houve uma degradação sistêmica da qualidade da rede apesar do aumento do tráfego.

Pequenas variações
Paulo Kuester, analista do NIC.br e um dos autores do relatório, observa que foram verificadas pequenas variações de desempenho em períodos curtos, como uma elevação de latência após a divulgação das ocorrências das primeiras mortes. Também houve um aumento de acesso ao Simet no período de 23 a 27 de março, quando a média de consultas diárias subiram de 14 mil para a casa de 20 mil verificações de desempenho. “Esse aumento pode ser um indício de incerteza com a qualidade do serviço nesse período”, constata.

O volume de acessos diários ao Simet parece ter retornado aos níveis anteriores à pandemia após os provedores de streaming realizarem redução da resolução dos vídeos transmitidos. Seguindo o que já havia sido feito na Europa e Estados Unidos, os provedores, a pedido das autoridades públicas locais, eliminaram as transmissões em alta definição Full HD (1.920 pixels na horizontal e 1.080 na vertical) e Ultra HD 4K (3.840 por 2.160), reduzindo o consumo de bits por segundo.

Além disso, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) solicitou às operadoras de telecomunicações que providenciassem um aumento na velocidade de banda larga fixa ofertada a seus clientes. As empresas providenciaram a expansão em pontos estratégicos de suas redes para absorver a alta demanda de tráfego. “Essas duas ações reduziram a pressão de tráfego e geraram estabilidade nos serviços, apesar da mudança de perfil de tráfego e aumento abrupto do consumo”, afirma Gustavo Santana Borges, superintendente de Controle de Obrigações da Anatel. Segundo Borges, apenas os conteúdos disponibilizados pelos maiores provedores de streaming (Netflix, YouTube, Facebook, Instagram, Globoplay e Amazon Prime) representam mais de 50% do tráfego.

Nem todos os países mantiveram incólumes suas estruturas de internet diante da pandemia da Covid-19. O serviço Fing Internet Outage Detector, que faz uma verificação global de interrupções na internet, divulgou relatório em abril apontando falhas de conectividade devido ao aumento de fluxo na Europa, em oito estados norte-americanos, inclusive na Califórnia, no México, na Argentina, na Colômbia e no Chile. O Brasil, segundo o documento, não apresentou problemas.

Especialistas ressalvam, entretanto, que oscilações na rede eventualmente percebidas pelos internautas nas últimas semanas são inerentes ao sistema e podem se tornar mais frequentes na medida em que mais pessoas estejam compartilhando a infraestrutura de acesso à internet, como acontece agora durante a pandemia.

Infraestrutura robusta
A qualidade da internet depende de duas variáveis distintas. Uma delas é familiar a todos os usuários. Trata-se do serviço de acesso à rede prestado pelos provedores de internet. A conexão pode ser por redes cabeadas (cobre ou fibra óptica) ou sem fio. O usuário adquire pacotes de conexão com capacidades distintas de acordo com sua disponibilidade financeira e oferta de serviços na região onde vive. Nesse caso, o importante é saber se os provedores entregam o que foi contratado.

Segundo os relatórios de qualidade das infraestruturas de redes de telecomunicações da Anatel, 32,6 milhões de domicílios brasileiros têm acesso à banda larga fixa, e a qualidade dos serviços prestados pelas operadoras cumpriram em 2019 as metas estabelecidas pela agência em 77% das conexões. O patamar verificado foi o melhor desde 2012, quando teve início o monitoramento. Entre as métricas avaliadas estão a garantia da velocidade média contratada, a latência e a perda de pacotes e também indicadores de atendimento ao usuário. O cumprimento das metas de desempenho na banda larga móvel foi de 84% no ano passado, também a melhor performance desde 2012.

A outra variável que determina a qualidade da internet é a capacidade dos provedores de acesso se interconectarem. Os locais de interconexão são os chamados Pontos de Troca de Tráfego (PTTs), uma estrutura que no Brasil foi elaborada pelo CGI.br e implementada pelo NIC.br. No Brasil existem 33 PTTs espalhados por cidades em várias regiões do país. Conectados a esses PTTs há mais de 2,5 mil provedores comerciais, acadêmicos e governamentais, que fazem a conexão até o usuário final. Em uma analogia feita por especialistas, o conjunto de 33 PTTs e as interligações de rede entre eles são a espinha dorsal da estrutura da internet.

“O sistema brasileiro foi projetado para ter um alto nível de redundância, ou seja, há vários caminhos diferentes que um pacote de dados pode percorrer na internet brasileira desde sua origem até o seu destino”, explica o cientista da computação Fabio Kon, do Departamento de Ciência da Comunicação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP). “Se uma conexão cai ou fica sobrecarregada, o sistema redireciona para outro caminho, em alguns casos, em uma fração de segundo de forma imperceptível para o usuário final”, complementa.

Segundo Demi Getschko, diretor-presidente do NIC.br, o Brasil conta com um dos quatro maiores conjuntos de PTTs do mundo, sendo que o PPT de São Paulo é individualmente o maior em número de redes interligadas e o terceiro maior em tráfego de dados do globo. Essa estrutura é ampliada constantemente, e de forma antecipada, para absorver o crescimento de tráfego na internet brasileira, que no último ano foi superior a 60%. A ação preventiva permite tranquilidade aos gestores do sistema diante dos impactos da Covid-19. “Temos condições de absorver mais que o dobro do pico de 11 Tb/s verificado em março”, afirma Getschko.

Léo Ramos Chaves O uso intensivo de celulares em meio à pandemia contribuiu para elevar o tráfego de dados na redeLéo Ramos Chaves

Outro mecanismo para aliviar o tráfego na internet são as estruturas de Redes de Distribuição de Conteúdo (CDNs). Kon explica o funcionamento dos CDNs por meio de um exemplo, o lançamento de uma nova série da Netflix ou Globoplay. Supondo que milhares de domicílios irão acessar o mesmo conteúdo na noite de lançamento, para não haver congestionamento no servidor da empresa de streaming, cópias do conteúdo são enviadas aos servidores dos grandes provedores de internet locais ou para alguns PTTs. O espectador acessa a cópia, otimizando o tráfego.

André Rodrigues, presidente do conselho da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), defende que um ponto a ser melhorado na infraestrutura da internet brasileira é a disponibilidade de CDNs. Ele diz que os pequenos e médios provedores regionais não conseguem manter estruturas de CDNs em seus servidores e dependem da busca de conteúdos nos PTTs. Ocorre que nem todos os PTTs do país são dotados de CDNs. “Um provedor de internet do interior pernambucano tem que buscar conteúdo no PTT de São Paulo ou Fortaleza. Seria mais eficiente se o PTT de Recife fosse dotado de um CDN”, propõe.

Fabio Kon concorda que a internet brasileira pode ser melhorada, como sugere Rodrigues, mas ressalta que ela é muito bem estruturada. “Tudo indica que não deveremos ter grandes problemas nem mesmo em uma situação na qual a internet seja ainda mais demandada. Isso pode acontecer, por exemplo, no caso de uma nova onda de contaminação pela Covid-19 que exija uma radicalização das medidas de isolamento social”, afirma.

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