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Confesso que falhei

Cientista compartilha em conferências a história do erro que o levou à retratação de um artigo promissor

Como um pesquisador deve reagir quando um de seus artigos sofre retratação em decorrência de um erro embaraçoso? O cientista de materiais Alan Lindsay Greer, pesquisador da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, optou por engolir o orgulho ferido e tratou de compartilhar a experiência com colegas e estudantes, a fim de que também aprendessem algo com ela. “Já dei várias palestras em conferências científicas em que incluí nossa história de retratação”, contou ele ao site Retraction Watch. “E a reação do público tem sido uniformemente positiva.”

Greer refere-se à invalidação, no final do ano passado, de um artigo publicado por ele e colegas da Itália e da Áustria no periódico Advanced Science em 2022. O paper anunciava um avanço extraordinário: a descoberta de um processo relativamente barato capaz de produzir em laboratório a tetrataenita, uma liga composta por ferro e níquel, com estrutura cristalina tetragonal dotada de fortes propriedades magnéticas. Encontrada apenas em asteroides, é conhecida como “ímã cósmico”. A síntese da tetrataenita foi celebrada como uma rota capaz de substituir as terras-raras na fabricação dos ímãs de alto desempenho, usados como componentes de carros elétricos e turbinas eólicas.

Após a publicação do artigo, o grupo de Greer chegou a entrar com um pedido de patente e a pedir recursos para um projeto de pesquisa a fim de aperfeiçoar o processo, mas logo percebeu algo errado. Nem os próprios autores nem outros pesquisadores conseguiram reproduzir o resultado obtido originalmente. Descobriu-se que o processo simplesmente não existia: as medições relatadas no artigo eram resultado de uma contaminação de amostras pela oxidação de um produto de limpeza usado para purificação. “Ironicamente, tentar usar a melhor ‘limpeza’ da amostra resultou no oposto!”, contou Greer, que tomou a iniciativa de pedir a retratação do paper. Um porta-voz da editora Wiley, que publica a Advanced Science, disse à Retraction Watch que a “disposição dos autores em sinalizar erros que potencialmente comprometem suas descobertas a fim de corrigir o resultado é uma parte saudável do processo de pesquisa e publicação”. O artigo cancelado chegou a ser citado 19 vezes. Simultaneamente à retratação, o mesmo grupo de autores publicou um novo paper na Advanced Science explicando como foram as tentativas fracassadas de reproduzir o experimento original.

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