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Carta da editora | 154

Conhecimento com aventura

Um nome muito estranho – alkahest –, uma procura rocambolesca por antigos documentos, uma sugestão de caminhos misteriosos pela velha alquimia para tentar chegar à moderna química, de repente, lendo a matéria de capa desta edição, foi inevitável para mim a lembrança de O nome da rosa e de O pêndulo de Foucault, duas incursões poderosas do semiólogo Umberto Eco pela ficção literária, a primeira, a meu juízo, mais bela e bem realizada que a segunda. Talvez fosse o clima da narrativa, talvez a percepção do quanto a razão ocidental transitou por sendas tortuosas para criar o saber e o discurso científico contemporâneos, o certo é que a reportagem induziu a lembrança e me provocou a vontade reler os livros de Eco. Mas isso não importa muito, o que realmente tem importância aqui é dizer com quanto prazer concluímos que, dentre todos os bons textos deste número de Pesquisa FAPESP, aquele que relata o achado, por Ana Maria Alfonso-Goldfarb e Márcia Ferraz, de documentos do século XVII relativos ao alkahest, o hipotético solvente universal alquímico, seria indiscutivelmente o tema da nossa capa.

Foi sem sombra de dúvida um belo trabalho de história da ciência o que as duas pesquisadoras vinculadas ao Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência (Cesima), da PUC de São Paulo, realizaram, no âmbito de um projeto temático apoiado pela FAPESP. Ana Maria e Márcia lançaram-se à procura dos importantes papéis, dados como perdidos há muito tempo, nos arquivos da Royal Society, em Londres, e lá os encontraram, inclusive com detalhes precisos e preciosos da receita do solvente que reduziria qualquer substância a seus componentes primários, de acordo com as expectativas da alquimia. Em fase final de tradução, os manuscritos serão objeto de um artigo na Notes and Records, a revista científica da Royal Society, e serão apresentados na instituição em meados do próximo ano pelas pesquisadoras brasileiras e mais o professor Piyo Rattansi, do University College London, que as ajudou na transcrição e análise dos documentos. A reportagem do editor de humanidades, Carlos Haag, relata com grande vigor a partir da página 16 os detalhes da descoberta das historiadoras e o que ela revela da convivência muito mais longa do que usualmente se admite entre a química moderna e o saber alquímico. Vale a pena conferir.

Várias outras reportagens desta última edição de 2008 merecem uma leitura atenta em razão daquilo mesmo que revelam. Por exemplo, chamo a atenção para o texto a partir da página 48, do editor de ciência, Ricardo Zorzetto, sobre novos estudos que comprovam como a poluição do ar nessa megalópole chamada São Paulo aumenta em 50% o risco de morte de recém-nascidos. Outra reportagem de peso é a da editora assistente de tecnologia, Dinorah Ereno, sobre novas técnicas que permitem transformar palha e outros resíduos da cana em variados produtos voltados à geração de energia. Na seção de política, atenção para a proposta de Mohamed Hassan, diretor executivo da Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento, de criação, em São Paulo, de um centro internacional de pesquisa em biocombustível, detalhada em entrevista ao editor especial Marcos Pivetta, na página 30. Ele apresentou a proposta durante a conferência internacional sobre biocombustíveis, entre 17 e 20 de novembro, da qual o editor de tecnologia, Marcos de Oliveira, dá notícias na página 28. Ainda em política, atenção à reportagem do editor Fabrício Marques sobre a venda da Alellyx e da CanaVialis para a Monsanto, operação que guarda algumas lições sobre a criação de riqueza a partir da pesquisa competitiva. E para terminar sugiro a leitura da entrevista de Manning Marable, professor da Universidade Columbia, a partir da página 10, que faz pensar muito sobre relações inter-raciais, ante a notável vitória de Barack Obama para a Presidência dos EUA.

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