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Ficção

Consciência negra

LUANA GEIGERHomem Negro: alto, magro, retilíneo, ainda que pesasse sobre si um volume de tristeza sem tamanho, de preguiça de vida, de desânimo, de lentidão. O sol a pino laranja vermelho amarelo, escaldante, fazia miragens no asfalto, entortava o chão e deixava a impressão de que o mundo, sob um sol daqueles, só podia ser um tanto torto mesmo. O asfalto derretido evoca uma savana muito antiga, um passado esquecido por uma dúzia de décadas passadas. A memória fraca. A vontade, baça.

Pele sobre ossos, uns pedacinhos de músculos que ainda sustentam o movimento. Uns olhos muito mansos, quase tristes, de quem pergunta e pergunta de novo, descrente da fome, do sol, do sono, da pressa do estômago que insiste em pelejar na vida, uma vida meio besta que ninguém sabe de quê, pra quê. Uma fome que não é de comida. E a outra, bandida.

O Homem Negro na esquina, o asfalto quente, o sol alto. Invisível na inexistência dos que ninguém consegue ver, apolítico na sua bulimia compulsória, desnutrido, desdentado, grudado na calçada na ausência de pressa dos que não têm nada a perder. O Homem Negro na inércia, na molíssima malemolência inata, a fome já atávica, o ronco no estômago herdado em cada partícula de DNA. O Homem Negro com fome. Pele sobre ossos no asfalto, na falta de carne, o osso: manter-se de pé. O pé, no chão.

O Homem Negro calmo, que para haver raiva é preciso sustança. Umas mãos mansas, de quem não faz mal a ninguém. Ele não machuca nem passarinho. Porque, se machucasse, já seria uma refeição. O Homem Negro, não. O Homem Negro, nada. Contra os que o julgam mal, o Homem Negro, nada. Contra nojo, repulsa, medo, o Homem Negro, nada. Que o Homem Negro nem se mexe mais, nadificado do mundo, anestesiado de nada, amortecido de fome.

O Homem Negro não lembra seu próprio nome. Não lembra sua idade. Não lembra onde nasceu. Flor negra do asfalto, não sabe a que se deu a mãe, irmãos, família. O Homem Negro é uma ilha. Formiga na avenida lotada de gente, as pernas formigam, passam os dias e ele na lida cruel da consciência nula de não ser ninguém.

Não pede emprego, porque não há, não pra ele, sem camisa. Os pés descalços guardam remotamente o desespero de um navio antigo. E por mais que no vazio negro do estômago ressoe o eco de cantigas familiares, o Homem Negro já não se lembra, já não pode lembrar.

Pessoas passam com pressa pelas pernas podres do Homem Negro. Em cada ponte, em cada parte da cidade grande, apodrecem as pernas negras do Homem Negro. Pernas que sobram nas calças em frangalhos, pouco pano surrado, suado, sujo, manchado de noite, de medo, de morte.

O sangue do Homem Negro é estancado e maduro. Se ralo, vasa dos poros. Se grosso, coagula no pulso. Os punhos macios se fecham num grito doído, que morre franzino na voz rouca e sem coragem de ser voz. A voz do Homem Negro cala centenas de anos e delata milhares de danos, cicatrizes febris de ferros sem donos: ninguém responde por eles, ninguém atende, ninguém entende.

É quando, em silêncio, os olhos sombrios, levanta-se em prumo um resto de orgulho. Nas mãos, uma pedra. No peito, um gemido. Nos olhos insanos, a fome, o cansaço. A fúria vontade, a vontade, a vontade.
Então, seu caminho.

O branco vadio que dorme na esquina perdeu seu sossego: é dele, do Homem Negro, a garrafa de pinga, a garrafa troféu, agarrada no peito, derramada no corpo. E a pinga que mata o sossego franzino faz quente no corpo, faz tonto o caminho, engana, consola, faz menos sozinho o homem, farrapo, garrafa vazia. É pouco a garrafa. E segue o caminho.

E anda a mulata, que volta pra casa no balanço lento do dia de lida. Saia amarela e a bolsa sob o braço, apertada, como quem esconde os trunfos do dia. O Homem Negro, mirando a saia, nem vê a bolsa, e doce delira sobre cada prega, e solta a praga: é dele a anca larga, é dele a maçã do rosto e o gosto de prata do sangue que escorre dos peitos macios. É dele a mulata. É dele a mulata. É pouca a mulata. E segue o caminho.

E parada na esquina, desenha a madame. O cachorro minúsculo, de pêlo tratado, bem alimentado. O mundo, a seu lado. O Homem Negro desdenha do bicho – se não é gato, se não é rato, se não é cão, que outra coisa esquisita é aquela coisinha que late, faz barulho, arrancando os pensamentos do Homem Negro que já não vê a madame, assustada, encolhida, que chama a polícia, protegendo seu cão? É dele o bichinho. E a madame, nervosa, gasta a prosa provando inútil a inegável existência: Homem Negro ladrão. É pouco o bichinho. E segue o caminho.

É quando parado, na larga avenida, pensando na vida, o garoto montado na bicicleta. Os dedos em pinça, pulmão trabalhando a fumaça cheirosa, o riso de lado, os olhos quase fechados, olhar distraído. O Homem Negro quase que inveja a doce moleza do garoto moreno de blusa florida. E se chega, simpático, pedindo com os olhos, bem manso bem calmo, um trago de paz. O garoto se assusta, não dá a bicicleta: dá coice, pancada, dá tapa, machuca. O Homem Negro, sem nunca entender, dá tudo de volta. Mas em cada dedo do Homem Negro há uma raiva, revolta de décadas e a pancada dói mais. E o garoto caído já não vê bicicleta, e também não entende e só amanhã vai sentir a falta do dente e, indignado, pensa na vida e culpa o prefeito, a política internacional e a falta de educação. O Homem Negro, que não leva nada, só leva o susto e segue o caminho. É pouco o caminho.

É quando o Homem Negro estanca aflito. Quem é, do outro lado, magro, alto, retilíneo? Quem é que atravessa seu próprio caminho, fazendo da rua um espelho sombrio? O Homem Negro encontra nos olhos do outro ameaça, espera, promessa ou vazio? O Homem Negro encontra a si mesmo e faz da avenida estranhíssimo espelho.

Pro outro caminha, querendo saber, querendo encontrar seu traço de fome, seu traço de homem num outro caminho. E se pudesse matar a fome do outro, talvez a sua própria aplacasse, num caminho invertido dos que procuram juntar nadas pra fazer positivo.

Ali, Homens Negros não juntam é nada. E o outro, e a faca, e a dura peleja, e a faca, e o grito e o tapa e o pão. E o nada e o nada e o sangue na mão e o sangue nos olhos e o furo e o corte e os dois Homens Negros brigando, vazios. E o pouco caminho que os dois encontraram agora é um só: também é alívio a chuva lavando o sangue escorrendo, calçada tingida. Também é alívio a fome estancada e a noite gelada abrindo caminho.

No silêncio da morte ninguém entendeu, ninguém pressentiu o mudo pedido de socorro aflito que brota, bandido, do ato impensado. Ninguém entendeu a não ser um menino que viu, no Homem Negro, mais que um bandido: viu negro, viu homem, viu raça e história, viu luta, viu morte, viu vida, viu vida.

Valéria Jatobá, mineira, tem 35 anos e é bibliotecária e trabalha com alfabetização de adultos entre as populações dos países de colonização portuguesa. Atualmente vive em Moçambique.

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