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Carta do editor | 31

Construindo uma cultura de futuro

O Projeto Genoma-FAPESP, lançado em outubro do ano passado, trouxe um impacto para a Ciência e Tecnologia do Estado acima do esperado. O Projeto foi deliberadamente estruturado para estimular a formação de recursos humanos, uma preocupação que deve ser básica numa agência de fomento, centros e instituições de pesquisa, e universidades.

Outra preocupação do Projeto, e que também consideramos fundamental para nortear toda atividade científica, foi o de vir ao encontro de necessidades e demandas da sociedade. Assim, procurou-se, como objeto de estudo, uma bactéria, cujo seqüenciamento pudesse ter algum impacto econômico para o Estado. Escolheu-se a Xylella fastidiosa, por ser uma praga que ameaça seriamente os nossos laranjais, responsáveis por uma receita de cerca de R$ 1,5 bilhão e 400 mil empregos.

Houve, também, bastante discussão para a escolha do modelo adequado a ser estruturado para a coordenação da pesquisa, de forma a possibilitar a disseminação do conhecimento dela resultante para centenas de pesquisadores e dezenas de centros de pesquisa, em todo o Estado, como se mostra nas palavras do nosso diretor científico e do coordenador do Projeto, expressas em reportagem deste número.

Vale destacar aqui o sucesso do Projeto Genoma-FAPESP. Sucesso tanto no que se refere à competência dos laboratórios – foram, todos eles, aprovados nos testes de seqüenciamento, que comprovaram a qualidade dos seus trabalhos -, quanto na sua eficiência, demonstrada pela antecipação de resultados em relação ao cronograma estabelecido.

Mas o Projeto revelou mais. Revelou a grande capacidade de trabalho conjunto, conceituação relativamente nova entre nós. Freqüentemente se encontram pesquisadores com mais intercâmbio e pesquisas feitas com o exterior (e, diga-se de passagem, são altamente desejáveis) do que nacionalmente. E não temos dúvida em afirmar que o trabalho integrado da comunidade científica é uma das importantes conseqüências do Projeto Genoma-FAPESP.

É preciso ressaltar, também, o alto valor estratégico do Projeto, que nos insere no domínio de um conhecimento de ponta, fundamental em áreas como medicina, farmácia, agricultura, agropecuária, sem falar no marco que representa para o nosso domínio sobre a nossa biodiversidade. Estar fora desse mundo da Genética tem um significado semelhante ao de ser colonizado, dependente. Em contrapartida, a formação de recursos humanos e de tecnologia no setor – o que significa a inserção da nossa comunidade neste mundo do futuro – nos permitirá o acesso à fronteira da pesquisa, à troca e obtenção de importantes resultados, e à possibilidade de autonomamente priorizarmos linhas de estudo de nosso interesse.

Precisamos, agora, estender essa interessante experiência para todo o território nacional, através da interação das fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs), debaixo do grande “guarda-chuva” que representa o sistema CNPq-CAPES-FINEP. O Projeto Soar, por exemplo, de interesse da comunidade astronômica brasileira, que vem registrando um crescimento substancial no número de PhDs, já se desenvolve como trabalho conjunto e interativo de forma internacional. Esse projeto envolve duas universidades norte-americanas (da Carolina do Norte e Michigan), o National Science Foundation e mais CNPq, FINEP, FAPESP, FAPEMIG, FAPERJ E FAPERGS, para a construção de um Observatório Astronômico em Cerro Tololo, no Chile, o primeiro de alta resolução de imagens do Hemisfério Sul.

Não menos importante do que estender a experiência do Projeto Genoma a toda a comunidade científica do país, é a necessidade de estender essa cultura do futuro por toda a sociedade e, em especial, aos nossos políticos, pois, ao que tudo indica, ela não foi ainda entendida pela maioria deles. A estratégia de uma Nação depende da associação de todas as ideologias, na defesa daquilo que elas têm de comum, e não da política pequena resumida no binômio simplista situação-oposição, que apenas busca o poder.

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