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Ficção

Conto policial

FERNANDO ALMEIDAMorar em casa de nora é isso que dá: mal posso ver a novela. Não, ver eu posso, não posso é ouvir no volume que gosto, muito alto, eles dizem. Ela diz. Ele concorda, apenas. Mas explica: mamãe está ficando surda, coitada. Acho que é isso que ele fala. Que pouca-vergonha essas novelas de hoje, mostram homem e mulher se permitindo, numa peladeira de dar medo. Olha só, esbórnia no quarto da empregada, enquanto a velha assiste a televisão. Se fosse eu… Comigo não tem disso, não. Mas aonde a Lúcia foi hoje? Nunca sei se saiu. Melhor assim, aumento o volume. Ele está quieto, será que saiu com ela? Que demora, devem estar cheios de mim, esse peso. Eu queria era morrer. Velha. E eduquei sozinha. Marido? Foi cedo, sem despedida, adeus que nada. Ao diabo. Foi tarde. É, eduquei sozinha, botei na escola, me virei para embacharelar meu menino, tão lindo de beca. Professor, doutor, tudo junto, parece. Até que ela chegou, essa aí, me roubou o menino e a novela: alunas… Velha. Eu, ela não. Linda. Mas onde ele se meteu? Ele está cheio de mim, eu sei. Um dia chega, vem trançando da esquina, me dá um tiro na testa. A mando dela. E só assim, porque no fundo meu menino ainda me ama. Mas a Lúcia. A mando dela, o tiro na minha testa, meu menino. Depois ela se arrepende: não deveria manchar a parede com sangue. É o que a moça diz na novela antes de matar o marido. Acho que cochilei. Estou com sede, nem adianta chamar alguém, melhor arrastar o chinelo até a cozinha. Olha ele aí, garanto que bebeu, caído borracho no chão úmido. Parece até que morreu. Mas ele me detesta, está cheio de mim. Melhor voltar pra ver televisão.

Não fui eu, claro que não. Eu só ouvi o barulho. Pode ter sido ela, acho que detestava o filho, essas coisas existem. Onde eu estava? No meu quartinho, vendo novela sem som. Precisa nada, a velha liga tão alto. Ouvi o tiro, a dita no sofá dormindo-sei-não, a televisão no máximo, o tiro mais, ele lá. Morto. Eu não fui. Não sei, não vi arma nenhuma, apenas um buraco nele, o som alto da TV. O homem nu atrás da cortina? Namorado? Magina se meu homem é feio assim, doutor. Eu não fui. Dona Lúcia? Não sei, acho que viajou, o moço deve ser amante dela. Ou da velha. Quem sabe do falecido? Ladrão talvez, mas não tem cara de assassino. Como ele nu assim podia matar o patrão? Acho que estava na casa de alguma amante (a vizinha ao lado é uma biscate de quinta), o marido chegou, ele fugiu, encontrou a porta aqui de casa aberta. Coitado, não foi ele não, doutor. Solta o moço, tão assustado. Namorado? Prefiro elegante e educado como o senhor. Posso sim, mas só amanhã. Só faço faxina moço. Hoje vou ter um trabalhão.

Com certeza o tiro saiu de dentro da TV: na novela tinha uma discussão, um casal se embolava, veio a mulher, atirou. Certeza. Todo mundo sabe que ela é péssima atriz. E parece também que é ruim de mira: furou a câmera, o tiro saiu da TV, voou pela sala, passou por cima da cabeça da velha e foi matar o homem na cozinha. Se eu bebi? Não, senhor, deve ser o perfume que eu uso. Como eu ia dizendo, acho que o coitado tomava água e morreu afogado. Sim, não conheço essa tal de Lúcia. A empregada? Conheço não. O que eu fazia nu atrás da cortina? Com certeza o tiro saiu da TV.

Alívio, acabei de ser morto. Estou aqui, estirado, o peito sangrando: o tiro entrou pelas costas e deve ter se alojado na parede. Ninguém vai querer essa camisa furada, roupa de defunto, mas a parede, sei não, a Lúcia vai ter que chamar um pintor. Mais gastos. Faculdade hoje não paga nada.

Pelas costas, covardia ou querer bem? Talvez quisessem evitar um desgosto derradeiro. Acabar com meus tormentos antes que eu soubesse de tudo. Alívios: vai que tenha sido um amigo, um aluno piedoso, um parente distante, minha velha mãe, a empregada ou até mesmo Lúcia? Onde ela está agora? Ligando para o parente distante? Sabatinando o aluno piedoso? Na casa do amigo ninguém atende. Foi ele, Lúcia! Ele está escondido embaixo da cama, a arma fumegando. Queria me poupar da humilhação de suas traições, Lúcia. Amigos. Ou foi não: vai que ele e Lúcia, sempre juntos. Cúmplices. Agora os dois devem estar no chão da sala, se amando, as roupas rasgadas, ela gozando com meu sangue que escorregou e já lambe fogoso seus pés muito brancos. Não. Quem me matou foi o aluno, que neste instante semeia mil palavras no ventre leitoso de Lúcia esparramada na frente do sofá: minha velha mãe vê tudo e pede que os dois não atrapalhem o som da novela. Não, Lúcia não está. Nem o aluno piedoso que deve ter me matado para que meu amor não estrangulasse Lúcia. Traições? Nunca. Só aquele amor. Quem atrapalha a novela é a empregada e seu amante ? talvez o parente distante – que se espalham do quartinho para a sala. Conjecturas. Mamãe vai ter que tapar os olhos e aumentar a TV. A campainha toca, como posso ainda ouvir? Vão me levar ao IML, tirar a bala, vestir o terno, enflorar meu corpo, enterçar minhas mãos. Lúcia chorará, não chore Lúcia, meu amor. Mas não me levam. Não ouço nem o pranto nem o gozo de Lúcia. Só canta no ar a novela da TV: te amo, te amo, porque fui te matar assim? Me responda, não vá agora, te amo, te amo, me perdoe. Na sala, minha mãe chora com a novela. Onde está Lúcia? Por que não vem me ver ou carpir na minha carne vã? Foi você, não foi, Lúcia? Foi você quem me fez querer assim. Foi você que não suportou tanta querência e disfarçou de egoísmo o seu amar tanto. Me matou para que só em você todo o amor doesse demais. Mas por que fugiu? Por que não vem fechar meus olhos com água salgada?

Lúcia ouve o som do tiro e se assusta. Na sala, a sogra dorme em frente à TV. A empregada sai do quarto seminua, o amante corre atrás, mas vendo a patroa da namorada vindo da cozinha se esconde só de camisa atrás da cortina. As três mulheres estão na sala agora: uma ainda dorme, as outras duas se olham. Por fim, a empregada, antes de retornar para o quarto, esquecendo o amante escondido, balança a cabeça num consolo e abre a porta para Lúcia, que sai. A velha acorda, vai para a cozinha, volta e aumenta o som da TV.

Na rua, Lúcia caminha apressada e coloca a mão num dos bolsos do casaco. O cano ainda quente da arma queima seus dedos. De dor, ou qualquer outra coisa, ela chora.
No chão da cozinha ele morre em paz.

Caio Silveira Ramos, natural de Piracicaba (SP), tem 35 anos e é formado em Direito (USP). Vencedor duas vezes dos concursos de contos da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, é autor de Marginais, que integra o livro Crônicas: São Paulo 450 anos, publicado pela Biblioteca Mário de Andrade. Acaba de concluir Sambexplícito: As vidas desvairadas de Germano Mathias, biografia malandro-sincopada sobre o artista paulistano que, em 2005, gravou o samba Tempo feliz, composto pelo autor.

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