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Carta do editor | 38

Contribuições para alterar um quadro ainda sombrio

Por boa parte deste ano, a educação ocupou o primeiro plano nas páginas destinadas ao noticiário dos jornais da grande imprensa no país. O ensino de graduação foi, salvo melhor juízo, a principal estrela desse noticiário, graças aos melancólicos resultados dos provões promovidos pelo Ministério da Educação. Mas os níveis fundamental e médio e, no outro extremo, a pós-graduação, também foram objeto desse louvável esforço da imprensa de apresentar à opinião pública nacional os méritos e as mazelas de nosso sistema educacional.

Nesse trabalho de revelação de um setor fundamental para o desenvolvimento sócio-econômico do país despontam alguns dados animadores, do ponto de vista quantitativo, e sobram indícios preocupantes sobre a qualidade do ensino. No que se refere aos aspectos quantitativos, é animador, por exemplo, saber que, em 1997, 93% da população de 7 a 14 anos estava freqüentando a escola, contra 91,3%, em 1996 (dados PNAD-97). Ou, melhor ainda, saber que, já em 1998, 96,5% desse grupo estava na escola (segundo o relatório mais recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef).

Mas no próprio terreno quantitativo há números suficientes para arrefecer o entusiasmo de qualquer cidadão brasileiro. Por exemplo: 29% da população de 7 a 14 anos abandona a escola antes de chegar à quinta série, desempenho idêntico ao do Paraguai, informa o Unicef. E, pior ainda, com todas as melhorias anunciadas dos indicadores, em 1997, nada menos que 17,3 milhões de brasileiros com 10 anos e mais permaneciam analfabetos, informa o PNAD. Já os brasileiros com nível superior ainda não passaram muito dos 8% encontrados em 1990.

Mas é no quesito da qualidade que se apresenta o nó fundamental do sistema de ensino brasileiro, e do qual os resultados, tanto do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) quanto do Exame Nacional de Cursos (ENC), são reflexos. Esses sistemas de avaliação mostram estudantes que completam o nível médio sem conhecimentos minimamente indispensáveis a essa etapa, seja em matemática e demais ciências, seja na própria língua vernácula e humanidades.

E que chegam à universidade – os que chegam – sem hábito de leitura (lêem só dois a três livros por anos ou de estudo sistemático mesmo das disciplinas fundamentais de seus cursos (74,4% estudam apenas até cinco horas por semana). Não é de estranhar que saiam das universidades decepcionados, mais de 70% deles certos, com razão, de que a escola não contribuiu para sua formação profissional. Generaliza-se assim a sensação de que é verdadeira a conclusão dos mais céticos ou dos mais cínicos de que, no Brasil, os estudantes fingem que aprendem e os professores fingem que ensinam, com as exceções de praxe.

No meio desse panorama um tanto sombrio, é importante, além das avaliações que já vêm sendo feitas, tentar compreender por que se consolidou um tal quadro na educação brasileira e perseguir caminhos para transformá-lo. Esses dois objetivos gerais nortearam a FAPESP quando, ampliando o espaço em que historicamente atuava, instituiu um programa de Apoio ao Ensino Público no Estado de São Paulo, com o financiamento de pesquisas voltadas especificamente para os níveis fundamental e médio. Ou quando se tornou parceira da CAPES e da Secretaria Estadual de Educação para implantar o Pró-Ciências. A idéia que perpassa essas iniciativas é: não se avança suficientemente no desenvolvimento científico e tecnológico, que é o campo com o qual a FAPESP está essencial e prioritariamente comprometida, se a educação como um todo não avança, não se torna consistente e satisfatória.

É claro que o alvo da FAPESP é a pesquisa, e que o apoio que concede à investigação de novas soluções para os problemas educacionais se dá em escala piloto, o que estabelece limites à sua contribuição para a melhoria do ensino. Mas, dentro desses limites, a Fundação pode, quem sabe, contribuir para mudar o noticiário futuro sobre a educação no Brasil.

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