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Itinerários de pesquisa

Cria da periferia paulistana, geógrafo trafega também pela literatura

Ricardo Barbosa da Silva escreve contos e versos já definidos como “poema-crônica-rap”

Silva na estação de metrô do Tatuapé, em São Paulo

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Nasci em outubro de 1977. Sou filho do meio de Sebastião Barbosa da Silva e Maria da Paz Silva, ambos migrantes da cidade de Caruaru, em Pernambuco. Tenho duas irmãs, Sandra Maria e Tatiana. Passei boa parte da minha vida na Cohab 2, conjunto habitacional no bairro de Itaquera, zona leste de São Paulo. Tive uma infância boa, simples: bola, bicicleta, carrinho de rolimã. Depois da escola, ia brincar e só voltava ao anoitecer, assim mesmo só quando minha mãe chamava. A rua foi escola. Ali aprendi convivência, amizade, briga e, também, como escapar das confusões.

Foi na Cohab 2 que me formei como leitor. A biblioteca Vicente de Carvalho, que ficava dentro do conjunto habitacional, era pequenininha, mas, para mim, imensa. No começo, ia só pesquisar trabalhos da escola. Ao sair, escondia os livros que pegava emprestado porque alguns colegas tiravam sarro. Mais tarde, perdi a vergonha e me entreguei de vez àquele espaço. Na adolescência em diante, desbravei bibliotecas em vários pontos da cidade.

Meu pai era metalúrgico, trabalhava em uma montadora de carros. Chegava em casa no ônibus fretado pela empresa, jornal debaixo do braço. Nunca disse aos filhos: “Vocês têm que ler”. Mas o jornal estava lá, disponível. Aos finais de semana, ele trazia a edição com suplemento infantil, que eu devorava. Um dia comprou uma enciclopédia.

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, meu pai pediu demissão e nos abandonou. Minha mãe, que era dona de casa, teve de voltar a trabalhar, como fazia quando era menina em São Paulo. Arrumou emprego de faxineira numa creche. Sofreu muito, tanto pelo esforço físico quanto pelas humilhações. Após a separação, chorou por uns meses. Depois, nunca mais a vi chorar. Cuidar de nós foi sua escolha de vida.

Na escola, eu me sentia bem, mas, na adolescência, só pensava em emprego com carteira assinada. Para mim, isso era mais importante porque ajudaria na renda de casa naquele momento. Trabalhar fichado era um sonho entre os jovens da periferia na época. Os trabalhos eram quase sempre temporários: auxiliar de alguma coisa, como estoque e conferência. Eu não tinha rede de contatos. Martelava sempre a mesma pergunta: como escapar desse destino de auxiliar?

O rap dos Racionais MC’s me ajudou a ler o mundo. A música e os livros caminharam juntos. Minha leitura nunca foi mediada nem orientada por ninguém. Funcionava na base de tentativa e erro, repetição, insistência. Aos poucos, fui entendendo o que significava ser periférico, explorado, alvo de preconceito. O rap me deu meios para entender o meu lugar.

Em 2000, decidi fazer vestibular para geografia na Universidade de São Paulo [USP]. Entrei no cursinho popular da Poli [Escola Politécnica] – USP. Na ocasião, eu era operador de fotocopiadora e ouvia dos colegas de trabalho: “USP? Isso é pra rico, não pra peão como nós”. Conversei com minha mãe, pedi as contas desse emprego e estudei seis meses. Fui aprovado na primeira fase do vestibular da Fuvest e, na prova dissertativa, o hábito de leitura foi meu trunfo. No final, passei pela fresta.

Quando entrei na universidade fiquei fascinado e ao mesmo tempo perdido. Era um universo completamente diferente do que eu estava acostumado. Minha maior dificuldade era a comunicação, principalmente com os professores, porque eu era muito envergonhado, tímido.

Acervo pessoalEm sessão de autógrafos do livro de contos que lançou em 2025Acervo pessoal

Formei-me em 2005. Meu trabalho de conclusão de curso foi sobre os motoboys na cidade de São Paulo, a partir de um trabalho final da disciplina de geografia urbana. Minha pesquisa teve grande influência da obra do geógrafo Milton Santos [1926-2001], com quem travei contato ainda no cursinho pré-vestibular. A escolha do tema causou certa estranheza entre meus colegas, alguns achavam que não tinha a ver com o curso. Mas fui descobrindo que a geografia tinha uma larga tradição no campo dos transportes.

Com a orientação da professora Amalia Inés G. Lemos, segui pesquisando esse assunto no mestrado, no qual ingressei em 2006, na USP. No estudo, distanciei-me das análises predominantes nos anos 1990 que viam os motoboys pelo prisma da imprudência individual ou dos conflitos no trânsito e mostrei-os como resultado das transformações no mundo do trabalho e na condição urbana. No doutorado, no qual ingressei também na USP, abordei a precarização da mobilidade urbana em São Paulo de 1930 a 2010.

Defendi a pesquisa em 2014 e, dois anos mais tarde, para aprofundar meus estudos realizei estágio pós-doutoral de três meses na Universitat Autònoma de Barcelona [Espanha]. Desde então, venho me dedicando à compreensão da mobilidade cotidiana e da segregação por classe e raça, articulando o tema com o ensino e a extensão.

Durante a pós-graduação, trabalhei como professor de geografia em escolas de ensino básico do município e do estado e também em faculdade particular e na Fatec [Faculdade de Tecnologia de São Paulo]. Desde 2017, sou professor adjunto da Unifesp [Universidade Federal de São Paulo], no campus Zona Leste, inaugurado um ano antes. O curso de geografia foi iniciado em 2020 e tenho o maior orgulho de ter sido um dos professores homenageados da primeira e da segunda turma de formandos do curso.

Sempre levei a literatura em paralelo à carreira de geógrafo. Escrevia bastante, mas não me levava a sério como autor e não imaginava que alguém pudesse gostar de meu trabalho. Ler um texto literário meu em voz alta para outras pessoas, jamais passou pela minha cabeça. Era apenas um interesse que virou hábito e me fazia bem. Nunca pensei: vou ler porque assim vou aprender a escrever e fazer um livro. Jamais me vi como escritor, não tinha nada disso.

Em 2020, durante a pandemia, senti vontade de fazer algo inédito: ler um poema para meus alunos em uma aula on-line. O poema se chama “Fluxo de vida” e, para minha surpresa, os alunos gostaram. Essa reação positiva me incentivou a compartilhar outros textos nas redes sociais. Em 2022, resolvi tentar publicá-los. Eu era alheio ao universo literário contemporâneo de editoras e autores. Busquei na internet o termo “editoras independentes” e a primeira que apareceu foi a Patuá, de São Paulo. Mandei os originais e fiquei espantado quando o editor Eduardo Lacerda disse: “Gostei, quero publicar”.

Meu primeiro livro foi Gambiarra, quase poema, de 2023, e traz, entre outros, “Fluxo de vida”. Nele, como escrevi no colofão [nota final] do volume, “palavras escondidas, embargadas, quase sem jeito, romperam o silêncio, ganharam o livre encanto de existir, de voar por aí”. Na apresentação da obra, o poeta Manoel Fernandes, professor de geografia humana da USP, define meus versos como “poema-crônica-rap”.

Depois veio o livro Notas infames na cidade, de contos, que saiu em 2025, também pela Patuá, com histórias ambientadas na década de 1990, na periferia de São Paulo. Em suas páginas, sigo o rastro íntimo dos infames, ou sem fama, invisíveis habitantes da nota de rodapé da cidade. Não pretendo parar de escrever literatura e criei um pseudônimo: Ricardo da Paz, pegando emprestado o sobrenome de minha mãe. É uma maneira de distinguir o poeta e contista do geógrafo, professor e pesquisador.

A reportagem acima foi publicada com o título “O leitor das ruas” na edição impressa nº 362, de abril de 2026.

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