Um levantamento internacional trouxe novos detalhes sobre o funcionamento das chamadas fábricas de papers, empresas fraudulentas que comercializam manuscritos científicos, muitas vezes com dados falsos ou plagiados. O estudo, o maior do gênero já realizado, está disponível no repositório ArXiv e reuniu mais de 18 mil anúncios publicados entre 2020 e 2026 em aplicativos e sites de sete dessas empresas, que operam em países como Índia, Iraque, Uzbequistão, Rússia, Letônia, Cazaquistão e Ucrânia.
A pesquisa foi conduzida pelo biólogo computacional Reese Richardson, que faz pós-doutorado na Universidade Northwestern, em Evanston, nos Estados Unidos, e contou com mais dois colaboradores: Spencer Hong, da mesma universidade, e Ana Abalkina, pesquisadora da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, e especialista em investigação de fraudes científicas.
Segundo os autores, os dados revelam estruturas bem organizadas, que ofereciam vagas de coautoria em artigos já preparados para submissão ou publicação, inclusive indicando o periódico de destino. Os valores cobrados variavam bastante. A posição de primeiro autor, considerada a mais valorizada em avaliações acadêmicas, custava em média cerca de US$ 800, mas alguns anúncios ultrapassavam US$ 5 mil. Havia ainda promoções sazonais e descontos, indicando uma lógica comercial semelhante à de negócios convencionais. Sarah Eaton, especialista em integridade acadêmica da Universidade de Calgary, no Canadá, que não participou do estudo, disse à revista Nature que o material evidencia como plataformas digitais passaram a ser usadas para sustentar redes globais de fraude acadêmica. “O conjunto de dados nos diz muito sobre as empresas, seu marketing e algumas de suas operações”, afirmou.
Há evidências de que parte desses trabalhos chegou efetivamente à literatura científica. A equipe de jornalistas da Nature analisou anúncios de cerca de 400 manuscritos, que incluíam títulos em inglês, e identificou 53 artigos publicados com títulos correspondentes – cinco deles haviam sido retratados e um foi retirado enquanto ainda estava em processo de publicação.
Outro dado que chamou a atenção foi a diversidade dos negócios. Duas das empresas ofereciam autoria em outros tipos de publicação, como livros didáticos, bem como a inclusão de nomes em patentes e registros de direitos autorais, além do recebimento de prêmios. “A expressão fábrica de papers não abrange tudo o que está acontecendo”, disse Richardson à Nature “Penso nessas fábricas como empresas que operam no mercado de manipulação de reputação.”
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