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Furio Lonza

Curriculum Mortis

Uma tese

anaisa franco

Ainda vou me tornar um mestre de
um novo gênero literário: o silêncio
.
Isaac Bábel

Quando desligaram os aparelhos, a família vacilou, mas acabou doando os órgãos para transplante. As córneas de Leonardo foram parar num rapaz cego de outra cidade, que voltou a ver a vida como ela é; o coração continuou a bater no peito de um senhor desenganado de 59 anos; a mão direita rumou para o toco maneta de um executivo sem escrúpulos; o fígado resolveu a falência de irrigação de um menino melancólico que reviveu instantes de esperança e o rim passou a filtrar as toxinas que infernizavam as entranhas de uma mulher em estado terminal.

A resolução da mãe foi determinante: não poderia contrariar as ordens expressas do filho. Hospitais & médicos comemoraram; as famílias, nem é preciso dizer: exultaram, borbulharam copos de prazer; a obstinação da Ciência tinha enfim derrotado a Ira Divina.

Ah, sim, a perna esquerda apareceu no corpo de um rapaz recém-triturado no mar pela hélice de um motor de popa. O corpo de Leonardo repartiu-se em muitas vidas, mas houve rejeições, como é natural nesses casos, são as regras inexplicáveis de um mundo falível, mas nada que uma química plena e farta não pudesse resolver com um mínimo de adestramento.

Como se sabe, da mesma maneira que o mundo cria os limites da existência, o homem se encarrega de gerar seus próprios atalhos. Pois a vida é assim mesmo. Por mais que queiramos causas e efeitos, as reações não correspondem necessariamente às ações e obedecem aos meios mais ilícitos, zombando da representação trivial e consequente do mundo. As revelações se dão nas esquinas mais improváveis do tempo, onde a convexidade da atmosfera se funde com a concavidade da matéria. É nessas encruzilhadas que maltratamos um animal, traímos a confiança dos amigos sem um motivo plausível ou nosso carro se esborracha na estrada para Teresópolis.

A história não é banal, se me permitem. O pai vivia repetindo para os amigos que seu filho não tinha ambição. Mas ele estava enganado: a única ambição de Leonardo era ser ninguém, era ser nada. Contudo, ele sabia que não ser nada era difícil; sempre tem alguém que insiste em distribuir méritos, um ou outro atributo positivo, sei lá, todo mundo tem algo que valha a pena na vida.

Leonardo tinha uma tese: o homem atrapalha pelo simples fato de existir. Por isso, não queria interagir, não queria interferir, achava a ação humana nefasta por definição. A única saída: anular-se, minimizar ao máximo sua presença na Terra, deixar que a roda do mundo completasse sua rota livremente. Tornar-se invisível, eis toda a lírica possível. O silêncio, a não ação, o doce entranhamento, a ternura estava justamente no vazio.

Nem protagonista, nem antagonista, Leonardo pretendia o aniquilamento como forma total & sublime de encontrar o absoluto. Para ele, a reação era uma maneira conservadora de preservar os mecanismos mais arcaicos do mundo.

Pré-socrático por natureza, Leonardo odiava adjetivos. Sua filosofia consistia em cristalizar os objetos no tempo & no espaço. Teriam que continuar imutáveis, sem que fossem flexionados ao sabor das intempéries.

Para ele, o adjetivo representava a ação mais torpe e autoritária do homem, com o objetivo de desvirtuar o real sentido da vida. Controvertido, impetuoso, diáfano, avassalador, poético, ambíguo, grandiloquente, viril, premonitório, sonhador, ambicioso, erótico, mágico. Para Leonardo, nada disso tinha valor ou importância. Sua cosmogonia era simples: a existência não admite intervenções de nenhuma ordem.

Com o tempo, porém, ele começou a abolir também os substantivos. O ser já não mais estava, desincorporara-se de vez, tinha virado nuvem, pó, vento, poeira, éter, fragmento de uma estrela antiga e morta que, por definição, já não brilha mais, pois Leonardo tinha matado inclusive os verbos.

Com isso em mente, no sentido de acelerar o processo, resolveu agir por conta própria: pisou fundo no acelerador e seu automóvel precipitou-se despenhadeiro abaixo: só teve a escuridão do coma pela eternidade de um mísero instante.

E foi nesse fragmento de trevas que ele vislumbrou toda a vida que não teria.

Aliás, o estado vegetativo, como se diz, é apenas uma provocação às plantas. O homem é muito estúpido, se acha superior em tudo. Quando subiu na escala alimentar, mastigando a carniça que o tigre-dentes-de-sabre deixava nas pradarias, ele não imaginava a roubada em que estava se metendo: as toxinas da carne ativaram o cérebro, que começou a pensar, e virou um predador.

Vamos colocar as coisas da seguinte maneira: nada pode explicar um ato desses, a morte é uma coisa visguenta, pegajosa, indigna, absolutamente impossível; ela humilha, encolhe, ela ilumina a estupefação, estremece, distribui códigos de tortura; o assassino de verdade é escorregadio, volátil, um rato, um rato peludo com as patas em disparada entrando no primeiro buraco que aparece pela frente; ele avança dolorosamente até roçar as fronteiras do horror, lança-se na morte por mordedura, a morte mordida do rato; quando não há mais rato, o futuro cadáver se vê acua­do pela ausência, torna-se irredutível, torna-se infinito, pleno, cai-lhe a mordaça, então ele grita, mas ninguém ouve; o despojo humano – com o perdão da palavra! – explode em estilhaços e se torna igual a si mesmo, igual a seu silêncio.

O predador de si mesmo respira aliviado pela primeira vez, com a ilusão de ter assassinado o resto da Humanidade.

Não há rancor, não há o mínimo resquício de religiosidade ou satisfação, é um descampado, uma alameda sem árvores, sem sombra.

Mas deixemos isso de lado: vamos logo às alegorias de praxe: a mão de Leonardo acabou por estrangular a esposa infiel do executivo, o coração partiu-se em três ou quatro pedaços quando a jovem esposa do velho o deixou, o fígado do menino estourou numa cirrose hepática espetacular quando ele cresceu e percebeu a vida como ela é. Já o rim murmurou seus últimos momentos no corpo da mulher que esperava pela diálise na fila do hospital público. E as córneas… Na verdade, não se tem notícia do destino dessa imensidão leve, vazia por dentro e suave como uma criança, mas sabe-se que não deu em boa coisa, não.

A aflição foi enorme.

Tudo estava calmo e, de repente, a escuridão. O espírito do homem está em linha direta com sua alma, é difícil prever o que pode acontecer quando um homem vê através de outro homem, são janelas roubadas, são fendas meramente corporais que se corrompem com os anos, a criatura se fecha, há uma ingenuidade salgada & virgem, o langor nostálgico de um monarca destituído, toda a história do Universo se condensa em cristais de visão abissal.

Foi como um balão que subiu, subiu e incendiou-se perto das nuvens.

É compreensível, houve até algumas risadas.

Leonardo conseguira enfim provar sua tese, com distinção e brilho: o homem não dá certo nem depois de morto.

Furio Lonza é escritor, jornalista e dramaturgo, tendo publicado, dentre outros, Eric com o pé na estrada, Máquina de fazer doidos, As mil taturanas douradas e História impossível.

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