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Carta da editora | 136

Da política à estética

Esta edição de Pesquisa FAPESP traz, entre as tradicionais seções de Política e de Ciência, três textos agrupados sob a rubrica Ambiente. Aqui a entendemos numa concepção bastante ampla, capaz de abranger desde as chamadas mudanças climáticas globais até as buscas por fontes de energia mais limpas e eficientes. Com isso queremos, primeiro, enfatizar a importância crescente dessa vasta área transdisciplinar nos programas brasileiros de financiamento à pesquisa científica. A FAPESP, por exemplo, vai lançar em breve um programa alentado de financiamento a projetos de pesquisa que analisem o impacto no país das mudanças climáticas globais, e um outro de suporte a pesquisas na área de etanol. “Ambos estão na fase final de montagem. Falta apenas acertar a participação do governo federal”, disse o diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz, a Eduardo Geraque, da Folha de S. Paulo, em 26 de maio passado.

A seção Ambiente se justifica também por nos parecer confortável para o leitor a proximidade espacial dos relatos jornalísticos ligados às questões ambientais, sejam eles inspirados em debates e decisões políticas, em propostas e achados científicos, em soluções tecnológicas ou em pesquisas empíricas e reflexões no âmbito das ciências humanas e sociais. Assim, além de transdisciplinar, ela surge trans-editorial, digamos, e decerto com vocação para uma longa vida nesta revista.

Mas é tempo de chegar aos destaques da edição. Primeiro a capa: o que se revela através do texto consistente da editora de política, Claudia Izique, é como bons indicadores de ciência e tecnologia, bem adequados à realidade da pesquisa na América Latina, podem se tornar instrumentos valiosos da busca por competitividade dos países da região e do traçado de eficientes políticas públicas regionais. O palco onde se deram os debates tratados por Claudia na reportagem de capa, foi o VII Congresso Ibero-americano de Indicadores de Ciência e Tecnologia, realizado em São Paulo de 23 a 25 de maio, que abriu espaço até para a idéia de uma certa  — destruição criativa —, baseada em ciência e tecnologia, que seria a grande saída para o desenvolvimento de nosso subcontinente. Vale a pena conferir.

Em Ciência vale destacar uma instigante reportagem, elaborada pelo editor interino de ciência, Ricardo Zorzetto, sobre o recente achado de fragmentos de cerâmica indígena que conduziu um grupo de arqueólogos à conclusão de que uma vasta área bem no coração da Amazônia, hoje praticamente deserta de almas, abrigou grandes e complexas comunidades entre os séculos III A.C. e XV de nossa era. Em Tecnologia chamo a atenção para o texto da editora assistente Dinorah Ereno, em que ela relata a criação e multiplicação no país, por iniciativa de empresas de diferentes portes e origens, de centros para desenvolvimento de softwares e aplicativos destinados ao mercado mundial. Na  Humanidades destaco a reportagem elaborada pelo jornalista Gonçalo Junior em que ele põe à luz uma série de belos estudos que perscrutam os andaimes e as vísceras da cultura baiana para destrinchar um número sem fim de mitos com os quais mercadologicamente se foram recobrindo suas verdades fortes e, com freqüência, incômodas.

Para finalizar, faço hoje um convite diferente aos leitores da Pesquisa, ligado à pura fruição estética: se puderem, percorram a revista página após página detendo-se mais um pouco em algumas delas: atentem para a beleza das fotografias da reportagem de capa, vejam que luz há na imagem do mosquito e que movimento existe nos dados; reparem que extraordinárias são as ilustrações, e deliciem-se — sim, é isso — com a pintura genial de Carybé entre as páginas 80 e 83. São apenas sugestões, tão-somente para chamar a atenção, por dever de justiça, para o criativo e competente trabalho da equipe de arte da revista, sob o comando da jovem designer Mayumi Okuyama. Boa leitura. Com pausas para a contemplação.

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