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Especial

Darwin e uma nova visão de ciência

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A origem das espécies, cuja primeira edição aparece em 1859, teve um impacto não somente no estudo da história natural e nas disciplinas do que hoje chamamos de ciências biológicas, mas no nosso próprio modo de ver e conceber a atividade científica. Na Inglaterra, a  história natural que Darwin encontrou confundia-se com uma “teologia natural”, quando os naturalistas (muitas vezes pacatos párocos) tomavam a aparente perfeição de adaptações e coadaptações como evidências de desígnio divino, enfatizando a harmonia de toda a natureza. O pano de fundo das indagações vinha marcado por grandes polêmicas, a respeito das quais o pensamento de Charles Darwin será decisivo. No plano dos debates geológicos e paleontológicos, a grande polêmica era a do “catastrofismo versus uniformitarismo”. Os uniformitaristas defendiam um “gradualismo”, a ocorrência de mudanças lentas e graduais, segundo uma uniformidade na operação das leis da natureza pela ação, através do tempo, de causas observáveis e ainda hoje responsáveis pelo curso fenomênico, sem recorrer a eventos incomuns ou poderes extraordinários para explicá-las. Os catastrofistas admitiam a ocorrência de catástrofes, cataclismos, que alteravam radicalmente a face da Terra e suas condições de vida e requeriam a intervenção restauradora de uma força extraordinária. Tal atitude casava perfeitamente com a visão “criacionista”, no que tange à origem das espécies. A respeito dessa última questão, a grande polêmica foi a do “criacionismo versus evolucionismo”, exibindo fortes tons locais, marcados, na Inglaterra, pela influência da “teologia natural”. Ambos os termos sofreram diferentes determinações. No que concerne ao “evolucionismo”, as diferenças foram, sobretudo, referentes ao mecanismo da mudança. Quanto ao “criacionismo”, o termo comportou diferentes níveis de comprometimento com a ideia de intervenção divina para a explicação dos fenômenos naturais. O criacionismo contra o qual Darwin claramente se coloca tem um sentido bem técnico: trata-se da visão de que cada espécie seja fruto de um ato especial de criação.

A grande contribuição de Darwin à questão da origem das espécies foi o mecanismo de sua teoria da seleção natural (da preservação e acúmulo na direção requerida das variações úteis a seu portador e a eliminação das injuriosas), pela qual se dá a produção de novas e “mais aperfeiçoadas” formas orgânicas. Darwin, em sua Introdução à Origem, disse que à defesa do evolucionismo não basta admitir a evolução sem mostrar seu mecanismo. (Por isso, em Darwin, é discutível distinguir-se uma teoria da evolução de sua teoria da seleção natural.) Esse novo modo de ver a questão-chave da Origem refletirá decisivamente na pesquisa das várias áreas da história natural, com vários departamentos novos sendo criados e reorganizados:

“Quando as visões desenvolvidas por mim neste volume e por Mr. Wallace, ou quando visões análogas sobre a origem das espécies forem geralmente admitidas, podemos divisar que haverá uma considerável revolução na história natural”. (1872, p. 425).
“Os outros e mais gerais departamentos da história natural crescerão em interesse enormemente. Os termos usados pelos naturalistas de afinidade, relação, comunidade de tipo, paternidade, morfologia, caracteres adaptativos, rudimentares e órgãos abortados etc. cessarão de ser metafóricos e terão plena significação. Quando não mais olharmos a um ser orgânico como um selvagem olha a um navio, como algo totalmente fora de sua compreensão; quando considerarmos cada produção da natureza como uma que teve uma longa história; quando contemplarmos cada estrutura complexa e instinto como o somatório de muitas engenhosidades, cada uma útil a seu possuidor, do mesmo modo que qualquer grande invenção mecânica é o somatório do trabalho, experiência, razão e mesmo dos erros de numerosos trabalhadores; quando assim virmos cada ser orgânico, quão mais interessante – falo de minha própria experiência – torna-se o estudo da história natural!

Um grande e quase impenetrado campo de investigação será aberto sobre as causas e leis da variação, sobre correlação […] O estudo das produções domésticas aumentará de valor imensamente.” […] – grifo nosso (1872, p. 426)

Além de responder à questão da evolução e responder às objeções que lhe eram levantadas, o trabalho de Darwin trouxe-nos, entre outras mudanças, uma nova visão de padrões de procedimentos científicos. A relação da “explicação” darwiniana com os critérios e procedimentos “científicos” de sua época é tão rica, multifacética e, por vezes, tão ambígua quanto tais padrões de cientificidade o são. Mas as conotações que Darwin empresta ao que seja a tarefa explicativa representam um dos mais fortes indicadores de sua presente contemporaneidade. Em todos os momentos da sua tarefa explicativa, Darwin está atento ao fato de que “explicar” sempre depende de uma determinada visão teórica ou suposição e, em particular, da comparação de visões diferentes, sobretudo em casos como o seu, quando, segundo suas palavras, não há um único dos fatos arrolados que não possa ser visto de uma maneira diferente da sua. Comparar a acuidade e maior alcance de sua visão com a visão adversária será uma das estratégias básicas de Darwin ao construir e defender a sua própria teoria. Um resultado importante dessa estratégia é que “explicar” resulta em apresentar a melhor alternativa explicativa possível – que acontece ser a teoria darwiniana – e que, mais adiante, se torna a única explicação (racional) possível. Ao comparar a sua teoria com a de seus oponentes, por meio da resposta a objeções, Darwin normalmente faz uso de vários procedimentos reconhecidos como “científicos”: observação sistemática, experimento, subsunção de fatos sob regras, estudo de casos exemplares, classificação, uso de diagramas, ilustrações, discussões, tábuas comparativas e analogias. Alguns outros procedimentos são bastante inovadores, como a rede de informações que criou em sua correspondência, o tratamento de dificuldades e objeções à teoria, o jogo do atual (o que está dado) e do possível (do que pode ser dado, sem impossibilidade lógica ou fática) ao explicar e avaliar os méritos de nossas explicações, sua solicitação de que seja considerado o poder explicativo da teoria “como um todo”, o uso que ele faz de imaginação, metáforas, e seus apelos ao poder explicativo como um todo, à extensão de nossa ignorância apesar de nossos esforços, à autoridade da comunidade científica, seus valores e ideais, às condições psicológicas de investigação científica e ao avanço da pesquisa que uma teoria permita. Tais procedimentos “inovadores” encontram eco em muitas das recentes análises da atividade científica, que ressaltam seja as relações entre teoria e “modelos”, atentas às complexidades das relações entre a unidade teórica e a testabilidade empírica, seja o papel substantivo das estratégias argumentativas.

1.  Aqui serão utilizadas referências da 6ª edição inglesa (1872), a última revisada pelo próprio Darwin (The origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. London: John Murray, 1872).

Anna Carolina Krebs Pereira Regner é professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unisinos, Rio Grande do Sul, com vários trabalhos publicados sobre a teoria darwiniana.

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