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Pesquisa na quarentena

“De manhã, eu trabalho e ela cuida das crianças. À tarde, invertemos”

O bioquímico Carlos Takeshi Hotta fala do desafio de adaptar suas aulas na USP para a internet e conciliar a pesquisa e a divulgação científica com os cuidados com os filhos e com a casa, e os compromissos de trabalho de sua parceira

Trabalho em casa se soma à escola a distância e cuidado aos filhos

Paula Signorini

Minha parceira, meus dois filhos e eu estamos na sétima semana de isolamento social. No dia 16 de março, a USP ainda estava funcionando, mas eu fechei o Laboratório de Fisiologia Molecular de Plantas, que coordeno no Instituto de Química (IQ). Mandei todos os estudantes para casa, porque havia risco de termos sido expostos ao coronavírus. Uma pesquisadora que veio dos Estados Unidos e tinha nos visitado na semana anterior avisou que estava com sintomas da doença e poderia ter passado para a gente. Tive muito receio e me isolei em casa para não contaminar ninguém. Felizmente, ninguém do meu grupo que teve contato com ela adoeceu. Se algum de nós pegou o vírus, foi assintomático. Eu comuniquei ao IQ, que também passou a monitorar nossa saúde, indicando preocupação com a pandemia desde o início. Agradeço ao instituto a preocupação demonstrada.

Desde então, trabalho em minha casa. Eu e minha parceira, que é editora de livros didáticos de ciências, dividimos as tarefas domésticas. De manhã, eu trabalho e ela cuida das crianças. De tarde, invertemos. À noite, nós dois tentamos resolver o que não deu para terminar durante o dia. Só saímos de casa uma ou duas vezes por semana, em geral para comprar comida. Tenho um filho de 9 anos, que tem atividades escolares durante o dia. No início, foi preciso acompanhá-lo bem de perto, porque não estava familiarizado com o ensino on-line. Meu outro filho, de 4 anos, por conta da pouca idade, precisa de acompanhamento constante. Temos uma babá que cuidava deles de manhã e, uma vez por semana, também ficava à tarde para fazer a faxina. Desde que nos recolhemos, nós a incentivamos a ficar na casa dela, cuidando da saúde e dos familiares. Mantivemos o pagamento integral do salário dela, é claro. Sua ausência faz com que tenhamos trabalho extra: o trabalho que ela executava agora se soma aos nossos. Por causa das nossas rotinas, antes do isolamento a gente almoçava na rua; agora temos de preparar duas refeições em casa. A quantidade de louça para lavar é interminável.

No momento, o que me toma mais tempo é adaptar minhas aulas para o ensino a distância. Ministro duas disciplinas de bioquímica, uma para o curso de nutrição e outra para o de odontologia. É preciso adaptar slides, gravar vídeos e colocar tudo na plataforma Moodle. Muito material precisa ser modificado. Se eu colocar uma questão discursiva, terei que corrigir as respostas de 50 alunos no computador. Por isso, estou convertendo essas questões para testes de múltipla escolha. No início, gravava vídeos longos. Agora prefiro dividir e gravar três ou quatro vídeos mais curtos. Observo que o mais adequado é fazer os vídeos e fornecer material extra para estudo. É preciso manter a interatividade com os alunos e tudo isso toma um tempo gigante. Pelo menos já consigo gravar vídeos com um take só. Com o tempo, acho que estou ficando mais familiarizado com essas ferramentas e com a nova rotina. Essa última semana foi a primeira em que consegui dar conta das aulas, das minhas obrigações administrativas e me dedicar também a analisar dados e a escrever artigos.

Com a carga extra de trabalho de ensino, a pesquisa sofreu bastante. Vários alunos estavam fazendo experimentos de bancada, que requerem a presença deles no laboratório, e obviamente foram interrompidos. Quando veio a pandemia, um dos meus orientandos fazia os últimos experimentos do mestrado e outra estudante estava começando o doutorado. Tiveram de parar. No nosso laboratório, estudamos os ritmos circadianos das plantas e buscamos entender como elas organizam suas atividades ao longo do dia. Por isso, era comum passar o dia inteiro coletando dados. Sem poder sair de casa, a alternativa é reforçar a análise dos dados disponíveis, além de escrever artigos ou a parte metodológica dos trabalhos. Tenho uma possível candidata a estagiária de pós-doutorado e, no momento, minha preocupação é saber quando poderemos voltar a fazer coletas. Será que se eu prometer para novembro vou conseguir? Não tenho exigido de meus alunos tudo o que  exigiria em condições normais. É preciso preservar a saúde mental e física e ter consciência de que estamos em uma situação excepcional.

Também me dedico à divulgação científica e fiz questão de manter essa atividade, que me dá bastante prazer. Tinha um blog, que parei de atualizar há algum tempo, quando passei a fazer esse trabalho no Twitter. Meu perfil é o Cientista no Jardim (@carloshotta). Agora na pandemia, tenho escrito textos de divulgação, falando, por exemplo, dos efeitos nocivos dos cortes no financiamento à ciência em tempos de pandemia. No dia 21, escrevi para a Folha de S.Paulo um artigo de opinião sobre a polêmica do uso da hidroxicloroquina contra o coronavírus e o risco de misturar ideologia com ciência.

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