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Boas práticas

Delação premiada

Revistas começam a dar crédito a detetives que identificam violações éticas em artigos e fundamentam suas retratações

Andrii Yalanskyi / Getty Images

Editores de revistas científicas habituaram-se a receber, desde o início dos anos 2010, mensagens por e-mail de uma certa Clare Francis nas quais ela aponta problemas em artigos científicos publicados e sugere investigações aprofundadas sobre possíveis violações éticas – um de seus alvos recentes foi o vencedor do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, Gregg Semenza, que já teve uma dezena de papers invalidados por manipulação de imagens. O nome Claire Francis também aparece com frequência em comentários no PubPeer, um site onde é possível postar críticas e anotações sobre artigos, que se consagrou como um fórum de denúncias de má conduta cientifica. Mas ninguém sabe quem ela é, apesar de sua atividade intensa. Um verbete sobre Clare Francis na enciclopédia virtual Wikipedia informa que se trata de um pseudônimo utilizado por uma ou mais pessoas, cuja “identidade, gênero e ocupações reais permanecem em segredo”, que ganhou notoriedade no mundo das publicações científicas por sua “incrível habilidade para identificar imagens alteradas indevidamente, bem como pequenas falhas que alguns editores tendem a ignorar”.

Demorou, mas o trabalho de detetives de casos de má conduta – anônimos como Francis ou que usam sua identidade real – começou a ser reconhecido publicamente. Recentemente, a conta de e-mail usada por Francis para se corresponder com responsáveis por revistas científicas recebeu uma mensagem da editora Frontiers, a propósito de um artigo no qual ela havia apontado anomalias éticas. Na mensagem, os editores indagavam se ela autorizava que fosse dado crédito a seu nome como a fonte da denúncia responsável pelo cancelamento do paper – a ideia era incluir uma referência a ela nos agradecimentos da nota de retratação, que é a declaração oficial por meio da qual um artigo é apontado como inválido. “Assim que as investigações são concluídas, a eventual terceira parte envolvida na denúncia é informada do resultado e, caso uma retratação seja publicada, ela tem a opção de ser reconhecida no aviso”, afirmou ao site Retraction Watch um porta-voz da editora Frontiers, que instituiu essa prática no ano passado em seus mais de 200 periódicos. Francis, contudo, preferiu manter-se distante dos holofotes e optou que a denúncia fosse atribuída, genericamente, a “um leitor preocupado”.

A iniciativa da Frontiers não é isolada. Editoras como a Springer Nature e a Wiley estão trabalhando na atualização de suas políticas de publicação com o objetivo de evidenciar a contribuição de indivíduos que fazem denúncias. O Comitê de Ética em Publicações (Cope), um fórum de editores que definem as melhores práticas de comunicação científica, também prepara uma revisão de diretrizes em retratações que deve abrir caminho para o reconhecimento público dos denunciantes, quando eles concordarem com isso. Holden Thorp, editor-chefe da Science, disse que a revista gostaria de reconhecer a colaboração de detetives, mas os autores de artigos retratados e suas instituições em geral se opõem a isso. “Se pudermos recorrer a uma diretriz do Cope que nos permita incluí-los [os nomes dos denunciantes], começaremos a fazê-lo”, afirmou Thorp em uma reunião de um comitê da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, segundo o Retraction Watch.

A novidade também foi bem recebida por detetives que, ao contrário de Francis, não escondem a identidade. “Isso também pode ajudar a construir uma relação mais positiva entre os investigadores e as editoras”, disse, ainda de acordo com o Retraction Watch, a neuropsicóloga Dorothy Bishop, professora aposentada da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e especialista em integridade científica. É certo que essa relação sempre foi tensa. Denúncias anônimas causam desconforto nos editores por não ser possível compreender quais são as reais motivações do delator. Outro ponto de atrito é que, com frequência, os investigadores de má conduta denunciam à imprensa ou expõem em fóruns da internet os editores que se fazem de desentendidos e evitam investigar as denúncias apresentadas. Dorothy Bishop notabilizou-se por rastrear e denunciar trabalhos científicos problemáticos. “Alguns cientistas se divertem com esse trabalho, mas eu não. Sempre lamento expor as pessoas, fazê-las esclarecer, responder ou se retratar”, disse Bishop em uma reportagem do site The Transmitter, publicada em 2023.

Outro produtivo detetive de má conduta, o matemático e engenheiro de software cazaque Alexander Magazinov, observa que o anonimato deve continuar a ser respeitado se o denunciante optar por ele. “É extremamente importante não divulgar o nome de terceiros se eles não consentirem explicitamente”, disse ao Retraction Watch. Magazinov foi um dos criadores do rastreador de papers problemáticos, uma ferramenta que identifica artigos com frases sem sentido – as chamadas “frases torturadas”, que podem sinalizar plágio dissimulado e fabricação de estudos fraudulentos. Em março, seu nome apareceu nos agradecimentos de uma nota de retratação de um artigo publicado na revista Frontiers in Molecular Neuroscience, depois que ele apontou evidências de manipulação no processo de revisão por pares do estudo.

O trabalho dos detetives de má conduta pode ser alvo de ações judiciais e nem todos os denunciantes estão dispostos a se expor e a correr esse risco. Em um caso recente, três pesquisadores responsáveis pelo blog Data Colada recorreram a uma campanha de crowdfunding para arcar com custos advocatícios na casa dos US$ 600 mil (cerca de R$ 3,3 milhões) para se defenderem em um processo por difamação movido pela cientista comportamental Francesca Gino, recentemente demitida da Universidade Harvard por má conduta. Isso porque, em 2023, os blogueiros haviam denunciado adulteração de dados em quatro artigos de Gino. No ano passado, um juiz rejeitou as alegações da pesquisadora contra o Data Colada.

Já houve situações em que o próprio direito ao anonimato foi levado à Justiça. Há 10 anos, o site PubPeer enfrentou uma batalha judicial movida pelo oncologista Fazlul Sarkar, ex-pesquisador da Universidade Estadual de Wayne, em Detroit, Michigan, que teve mais de 40 artigos retratados por falsificação de dados – ele fora denunciado por usuários do site. Sarkar queria saber a origem e a identidade de usuários anônimos que insinuaram que ele usou imagens fraudulentas em artigos científicos. Tinha interesse especial em um dos delatores, que também enviara e-mails de alerta para a universidade em que trabalhava. Era Clare Francis. Um juiz deferiu o pedido de Sarkar, mas o PubPeer recorreu e um tribunal no estado de Michigan considerou que as denúncias anônimas eram protegidas pela legislação norte-americana.

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