Imprimir Republicar

Epidemiologia

Dengue pode causar síndrome neurológica grave

Estudo nacional indica que infecção aumenta em 16 vezes o risco de desenvolver distúrbios musculares decorrentes de danos ao revestimento de neurônios

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

Quem contraiu dengue tem um risco 16,7 vezes maior de desenvolver um problema neurológico chamado Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas primeiras seis semanas após a infecção, em comparação com o período posterior. A SGB causa formigamento nas mãos e nos pés, fraqueza muscular, dores nas costas, dificuldade para falar e engolir, visão dupla, confusão mental, tremores e, nos casos mais graves, paralisia dos músculos respiratórios.

Esse risco é similar ao de outros agentes comumente associados à SGB, como o vírus da influenza e da bactéria Campylobacter jejuni. São situações raras, que, no caso da SGB, podem ocorrer em 35 pessoas em cada grupo de 1 milhão. Em 2025, o Brasil registrou 1,6 milhão de casos e 1.793 mortes por dengue, uma redução de 70% em comparação com o ano anterior (ver Pesquisa FAPESP no 337).

Esses resultados emergem de uma análise da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Salvador, Bahia, e quantificam o risco associado entre a infecção pelo vírus da dengue e a síndrome neurológica. Desde 1998 existem relatos associando dengue à SGB no Brasil, Colômbia, México, Malásia, Sri Lanka e outros países, mas ainda não havia clareza sobre a real dimensão do risco dessa complicação neurológica.

A equipe da Fiocruz examinou os registros de 5.055 pessoas hospitalizadas com SGB no Sistema de Saúde Único (SUS) em 2023 e 2024. Desse total, 89 tiveram SGB nos primeiros 42 dias após a infecção por dengue. “O resultado foi mais alto do que esperávamos”, comenta o médico e imunologista Manoel Barral-Netto, coordenador da pesquisa, publicada hoje (15/4) no New England Journal of Medicine.

De acordo com esse estudo, o risco de desenvolver a SGB é maior no início da infecção, chegando a ser 30 vezes maior na primeira e segunda semanas após a infecção. “É quando o sistema de defesa do organismo está mais perturbado, por causa da infecção”, atesta o médico e imunologista Helton da Costa Santiago, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que não participou do trabalho. “Esse estudo confirma, com dados consistentes, a relação causal que já suspeitávamos há anos na prática clínica.”

Por também atender pessoas com dengue, o médico e virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), tinha a mesma suspeita. Ele foi um dos autores de um estudo publicado em novembro de 2019 na Acta Tropica que listava a SGB com uma das possíveis manifestações clínicas atípicas da dengue.

Após conhecer o estudo da Fiocruz, Nogueira comentou: “Precisamos prestar mais atenção aos sintomas mais leves da Guillain-Barré, como o formigamento dos membros e a fraqueza muscular, que pode ser confundida com a dor causada pela infecção”. Para ele, as conclusões reforçam a importância da vacina contra a dengue, que pode prevenir tanto a infecção quanto suas consequências (ver Pesquisa FAPESP no 359)

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

Resposta exagerada
Outro estudo, que reuniu pesquisadores da Fiocruz e das universidades federal (UFBA) e estadual da Bahia (Uneb), mostrou que infecções prévias por arbovírus, o grupo ao qual pertence o agente causador da dengue, são também comuns nos casos de encefalite, uma inflamação severa do sistema nervoso central.

Em uma amostra de 132 pessoas hospitalizadas com sintomas neurológicos em seis hospitais públicos e dois privados da Bahia de março de 2020 a agosto de 2025. Infecções virais foram identificadas em 56 das 132 pessoas e 23 estavam infectadas com o vírus chikungunya (41%), 15 com o da dengue (26%) e 6 com o oropouche (11%), como detalhado em um artigo publicado em 5 de abril na International Journal of Infectious Diseases. Nessa amostra, 76 pessoas (58%) tinham encefalite e 30 (23%) SGB. O coronavírus responsável pela Covid-19 também pode disparar a síndrome, ainda que seja igualmente raro (ver Pesquisa FAPESP no 295).

O vírus da dengue e outros agentes infecciosos associados à SGB agem indiretamente. Eles ativam uma resposta exagerada das células de defesa e uma cascata de reações que culminam na destruição da chamada bainha de mielina que recobre e isola as fibras nervosas. Os danos à mielina alteram a condução dos impulsos nervosos e prejudicam o controle muscular.

A infecção por zika também está associada com a SGB. Um estudo publicado em outubro de 2016 também no New England Journal of Medicine mostrou que, durante os surtos ocorridos entre abril de 2015 e março de 2016, a incidência (o número de casos novos de uma doença em uma população ao longo do tempo) aumentou 172% na Bahia, ainda que bem abaixo dos 877% registrados na Venezuela, 400% no Suriname e 211% na Colômbia. Inversamente, a incidência caía quando o surto amainava.

“A síndrome pode se manifestar também meses depois da infecção por dengue, o que exige acompanhamento médico”, diz Barral-Netto. Segundo ele, mesmo uma infecção causada pelo vírus da gripe, logo após a dengue, poderia desregular o sistema de defesa do organismo e levar à síndrome. “Quem teve dengue precisa tomar mais cuidado com as infecções virais que vierem depois”, recomenda. Santiago, da UFMG, confirma: “A Guillan-Barré pode aparecer meses depois da dengue, até mesmo sem outra infecção”.

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

Tratamento
A síndrome de Guillain–Barré pode ser tratada com medicamentos que reduzem a atividade do sistema de defesas ou com a filtragem do plasma, a porção líquida do sangue. Quando diagnosticada em seus estágios iniciais, os resultados costumam ser bons.

Um estudo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, avaliou todos os relatados de casos associando dengue com SGB publicados até 2025. Os pesquisadores encontraram 56 pacientes da Ásia e América do Sul e outras regiões endêmicas para dengue, dos quais 95% também tiveram sintomas de dengue. A maioria (76%) foi tratada com medicamento e 14% com troca de plasma. Como descrito em um artigo de dezembro de 2025 na BMC Infectious Diseases, pouco mais da metade (57%) apresentou recuperação completa dos movimentos e 32% parcial.

“A maioria se recupera sem maiores consequências”, observa Nogueira. A paralisia dos músculos respiratórios, que tende a ser fatal, acomete apenas 5% das pessoas com a síndrome identificada pelos neurologistas franceses Georges Guillain (1876-1961), Jean-Alexandre Barré (1880-1967) e André Stroh (1887-1977) e descrita pela primeira vez em 1916.

Artigos científicos
CERQUEIRA-SILVA, T. et al. Risk of Guillain–Barré syndrome after laboratory-confirmed dengue infection. New England Journal of Medicine (On-line) 15 abr. 2026.
EFFIONG, M. G. et al. Dengue virus infection and Guillain–Barré syndrome: A systematic review of clinical characteristics, outcomes, and predictors of severity. BMC Infectious Diseases. v. 26, n. 133. 20 dez. 2025.
ESTOFOLETE, C. F. et al. Unusual clinical manifestations of dengue disease – Real or imagined? Acta Tropica. v. 199, 105134. nov. 2019.
MARCUS, R. What Is Guillain-Barré Syndrome? JAMA. v. 329, n. 7. 2 fev. 2023.
ROSÁRIO, M. S. do et al. Predominance of arboviruses in acute encephalitis and Guillain–Barré syndrome: Findings from a prospective cohort in Northeast Brazil. International Journal of Infectious Diseases (On-line). 108664. 5 abr. 2026.
SANTOS, T. dos et al. Zika virus and the Guillain–Barré Syndrome — Case series from seven countries. New England Journal of Medicine. v. 375, n. 16. 20 out. 2016.

Republicar