Elisa Martins da Silveira nasceu em Teresina, no Piauí, em 1912. Em 1945, após se divorciar, passou a viver no Rio de Janeiro, onde faleceu em 2001. Professora e depois funcionária pública, ela começou a estudar arte com Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna, em 1952. A convite dele, Elisa integrou o grupo Frente, reunido em torno da ideia de experimentação, que incluía Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, entre outros. Desde então, suas obras foram expostas em museus, bienais e galerias comerciais, sendo premiadas e incorporadas a coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior.
Fosse pela economia plástica de sua pintura – farta em figuras não ilusionistas, minuciosamente descritas, várias padronagens e cores vívidas – ou por ser nordestina, de meia-idade e autodidata, Elisa foi classificada como artista naïf, ingênua, espontânea e popular. De início, ela participou tanto de exposições com obras de variadas tendências artísticas quanto de mostras dedicadas exclusivamente à arte considerada primitiva, nicho ao qual seu trabalho ficou restrito a partir dos anos 1970.
Elisa Martins da Silveira: “Arte naïf” posta em questão contribui para a história da arte no Brasil não apenas por ser o primeiro livro dedicado exclusivamente ao trabalho dela. Com sua precisa ambiguidade, o título anuncia a amplitude da leitura de Felipe Scovino, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e lança uma pergunta: quem questiona a ideia de arte primitiva, a pintura ou a historiografia? Ele responde ao longo do volume: ambas.
O historiador revê criticamente a trajetória da pintora e o modo como sua obra tem sido enquadrada por agentes e instituições do meio da arte, discutindo a difusão da ideia de arte primitiva no Brasil desde meados do século XX. Não por acaso, ele entrelaça esses caminhos. Por um lado, é necessário desmontar a moldura em que o trabalho de Elisa ainda está inserido para melhor experimentá-lo; por outro, a trajetória e a obra dela constituem um caso singular com o qual critica o entendimento de arte primitiva ainda vigente.
Em The preference for the primitive (2002), E. H. Gombrich mostra como o primitivismo era intrínseco à modernidade. Adotada no final do século XVIII em referência à simplicidade e grandeza da arte dos antigos gregos, a alcunha de primitiva foi mudando de objeto desde então, sendo aplicada à arte de contextos tão variados quanto a Itália antes do Renascimento, o Japão e a África, mas também à de pessoas internas em hospitais psiquiátricos, crianças, entre outras.
Tal como primitivo é um termo de cunho não somente pejorativo, a arte assim considerada era objeto de uma complexa atração, que valorizava sua potência plástico-simbólica e oposição à arte acadêmica, mas estava embebida em colonialismo, racismo, classismo, patriarcalismo e misoginia.
Scovino mostra que Serpa e os críticos Mario Pedrosa e Ferreira Gullar concebiam o primitivo de modo positivo, porém não isento de preconceitos. Também no caso brasileiro, a ideia de arte primitiva estava associada a distinções hierarquizantes a partir de marcadores sociais como classe, raça e gênero. A “arte primitiva” era uma vertente de um modernismo ambiguamente inclusivo no qual Elisa chegou a ser considerada uma “primitiva especial” e até uma “pseudoprimitiva”.
Muito do que foi inicialmente taxado de primitivo, depois deixou de ser assim avaliado. Não é negativo o entendimento de primitivo quando associado à arte italiana produzida entre os séculos XIII e XV. Carl Einstein começa seu livro Negerplastik (1915) excluindo do método de análise da arte africana o “falso conceito de primitivismo”. Não obstante, essa pecha ainda ofusca a obra de Elisa.
Analisando as telas dela, aproximando e diferenciando-as de obras de outros artistas classificados como primitivos – José Antônio da Silva, Djanira da Motta e Silva, Maria Auxiliadora da Silva, entre outros –, Scovino começa a desmantelar o enquadramento institucional que as aprisiona. No futuro, será crucial libertar Elisa Martins da Silveira da cela do primitivismo. Pensar como seu trabalho se transformou ao longo do tempo. E retomar a convivência de suas pinturas com as obras de seus colegas no grupo Frente, assim como promover diálogos com outras criações, ultrapassando barreiras sociais, de tempo e espaço.
O historiador da arte brasileiro Roberto Conduru é professor na Universidade Metodista do Sul, Texas, nos Estados Unidos.
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