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Resenhas

Um homem público

Jorge Okubaro e Ignácio de Loyola Brandão Global Editora 525 páginas R$ 65,00

Até assumir a prefeitura de São Paulo, em 1975, nos tempos em que os prefeitos da capital eram nomeados e passavam por uma votação simbólica nas Assembleias Legislativas, o engenheiro politécnico (pela USP) já era um empresário bem-sucedido, audacioso e inovador. O convite do governador também Paulo Egydio (nenhum parentesco) Martins para gerir a então já caótica capital paulista pegou Olavo comandando uma grande instituição financeira e um conglomerado industrial por ele construídos do nada (caso da Deca) ou de pequenas empresas (caso da Duratex e o próprio Itaú). Sua e seu destino, julgava ele até essa época.

Esta já é uma história que justifica uma biografia alentada num país tão pouco dado a preservar sua memória e seus feitos – principalmente as histórias de empresários e de banqueiros. O Brasil, talvez por herança conta da formação ibérica, de um catolicismo conservador, parece ter medo do sucesso e um pouco de vergonha de coisas como o empreen­dedorismo, do lucro. Mentalidade cartorial, de funcionalismo público, que somente nos últimos anos começamos a vencer, mesmo assim com constantes ameaças de retrocesso.

O que está no livro de sua vida – Desvirando a página – A vida de Olavo Setubal, do jornalista Jorge Okubaro e do escritor Ignácio de Loyola Brandão, além de sua vida famíliar, seus pequenos e grandes dramas, suas pequenas e grandes comédias, é a história desta outra dimensão do dr. Olavo, como o chamavam muitos de seus colaboradores – a descoberta do homem público, muito além do político que ocupou a prefeitura, o Ministério das Relações Exteriores (escolhido por Tancredo Neves e trabalhando com José Sarney) e foi cotado para o Banco Central, o Ministério da Fazenda e o governo de São Paulo.

O engenheiro racional, pragmático, de emoções externas e pessoais contidas, por assim dizer, humanizou-se em contato com a realidade da vida na periferia de São Paulo, descrita para ele pelo jornalista Oliveiros Ferreira, do jornal O Estado de S. Paulo como um “barril de pólvora”. Olavo acrescentou a seu arsenal, relembrando as aulas de sociologia que teve na Escola Politécnica (bons tempos aqueles em que ainda se ensinavam humanidades nos cursos técnicos!), incorporou uma dimensão social no seu arsenal de preocupações.

E tomou gosto pela política (nada com a nossa micropolítica, cada vez mais brava) e pela atividade na administração pública, vista por ele, numa entrevista quando estava para completar um ano de prefeitura, como uma obrigação: “A gente não pode, quando tem um mínimo de condições, passar a vida em brancas nuvens, dentro de um interesse limitado. Já que eu tinha tido na vida particular o suficiente sucesso para assegurar a mim e a minha família uma vida tranquila, eu achava que era minha obrigação aceitar o desafio que me foi proposto pelo governador Paulo Egydio”.

Levou para a prefeitura e depois para o Itamaraty, dentro do possível em estruturas burocráticas tão segmentadas, os métodos administrativos com que inovou, por exemplo, o sistema bancário. Sua fixação foi gerar recursos para aplicar em programas e projetos para melhorar a vida da população mais sofrida da cidade. Olhou mais para a periferia do que para o Centro e a zona Sul. Ousou, por exemplo, quando defendeu a teoria de desvincular o direito de propriedade do direito de construir. Perdeu na tentativa de criar o chamado “solo criado”. Mas deixou a raiz nas hoje operações urbanas casadas.

Em Brasília, sempre enfrentando a má vontade dos “de carreira” com os que vêm de fora dos quadros de carreira, plantou a semente do Mercosul, infelizmente hoje tão perdido. E deu uma guinada nas prioridades da Casa de Rio Branco, trocando a ênfase nos aspectos políticos de nossa diplomacia para encaminhá-la rumo ao futuro: “O Itamaraty tem de atacar principalmente o problema do protecionismo, os problemas da restrição  no mercado externo e no Gatt”. Nossa agenda até, apenas trocando o velho Gatt pelo seu sucedâneo, OMC.

O dr. Olavo saiu da vida pública desencantado com a política dos políticos. É um livro que se lê com prazer e com um travo amargo na alma: dá para ver como já fomos bem mais servidos em matéria de homens públicos.

José Márcio Mendonça é jornalista.

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