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Ficção

Disputa acadêmica

Fez graduação e iniciação científica em Filosofia na FFLCH-USP. Autor de Caprichos de dores (Massao Ohno Editor, 1998), mantém o site www.geocities.com/alegorista.

Uma mulher caminha contemplando a decadente sociedade de seu tempo. Cesária, que no passado plantara lavouras, imerge em investigação e lembranças, falando a si sem pausas:

— Decadente porque aqui embaixo ninguém nem mesmo tenta usar a razão; porque as torres em que meus antigos concorrentes se empoleiram têm um chão instável e ficam todas deformadas com o passar dos anos; porque essas duas formas de existência, a do comerciante do rés-do-chão e a daqueles que só descem para cultivar sua lavoura e passam a maior parte do tempo a olhar de cima de suas corroídas e mal-acabadas construções, não convivem senão como sátira uma da outra, senão como negociações em que um quer prejudicar o outro, senão como classes inimigas. Quando estudávamos o cultivo e tínhamos o objetivo de formar criaturas, eu e minha maior adversária acirrávamos nossas divergências e tivemos eu uma filha, ela um filho. Minha cria nasceu deficiente e minha incapacidade de produzir alimento que ela absorvesse determinou sua morte. Desisti do estudo e da criação; tornei-me uma comerciante. Mas o mundo não se resume a isso; ainda há muitas outras coisas a fazer.

O comércio leva a mulher a um reencontro inesperado, porém previsível: sua antiga adversária ainda cultiva, mas agora também negocia. A comerciante visita uma pequena torre, ladeada por campos verdes de arbustos e uma estufa que reluz ao reflexo do sol.

Bate à porta da torrezinha com seus documentos de comerciante e ensaia sua verve profissional habitual. Saudada com brevidade pela interlocutora, ela entra.

— Pois minha velha colega também negocia?

— Mesmo assim não abandonei a criação.

Cesária e Nemésia tratam de produtos humanos que nada têm a ver com a arte do cultivo.

— Se tu levasses a sério o estudo a que te dedicas, não comprarias meus produtos. Nisso ao menos não tento uma falsa aparência de purismo.

— Bem sabes que tanto o cultivo despreocupado quanto caprichos ainda mais nobres que sempre almejamos não existem senão mediante concessão dessa sociedade que outrora tanto atacamos. Sobe comigo.

Do andar superior da torre, as adversárias contemplam a plantação de Nemésia.

— Vês? Apesar de toda a contaminação do solo no entorno, consigo cultivar. Oxalá meu labor atinja um florescimento comparável ao dos venerados mestres antigos. Que tal o jovem musculoso que agora trabalha com a enxada? É meu filho.

— Não vou tentar argumentar contra a visível consistência de tua obra.

— Vem comigo à estufa; lá negociaremos.

Na iluminada estufa, cujo brilho Cesária nunca alcançara em seu tempo de estudos, as mulheres tratam não de qualidades intrínsecas distintivas dos produtos ou de sua funcionalidade, mas de preço.

O negócio tem uma pausa com a chegada do espadaúdo filho de Nemésia, que precisa de auxílio técnico da mãe.

— Meu filho, tu deves continuar teu trabalho placidamente. Tens plantado raízes fortes, difíceis de arrancar; isso é bom. Essa enxada que fiz para ti tem resistido a muito trabalho, não?

— Sim, mãe, cuidaste bem de minhas ferramentas e de minhas mãos, especialmente no começo, quando eu ainda não sabia trabalhar e tinha bolhas.

— As mãos de teu filho são fortes e íntegras, a lida não as parece ter danificado. Atrevo-me a dizer que são belas.

— Belas?! — estranhou Nemésia.

Argumentando a necessidade de uma visita posterior para concluir a negociação, a visitante acompanha o rapaz estufa afora.

— Não negarei a mim mesma a oportunidade de ver a criatura de minha adversária trabalhando — pensa a mulher, que se demora a deixar a propriedade, ocupada em observar a lida do rapaz.

O reflexo dos braços nus do rapagão, em ritmados e eficientes movimentos com suas ferramentas, nela suscita uma experiência estética.

— Não devo confiar em minhas sensações. Não me posso permitir mais que investigar a funcionalidade dessa criatura.

Quando retoma sua rotina, Cesária emprega tempo em buscar falhas na criação daquele homem, sem chegar a conclusão.

— Ele sorriu para mim, que sou inimiga do sistema de sua própria mãe! — lembra-se enquanto se dirige à nova visita.

Ao chegar à propriedade da antiga opositora, sua cogitação é interrompida pela praxe. Antes de qualquer comércio, no entanto, e enquanto procura pelo brilho da bem-cuidada lâmina da enxada do moço lavrador, a mulher é surpreendida pela ordem:

— Quero que venhas comer meu filho.

— Cabe notar que “comer”, de acordo com a prática lingüística estabelecida nesta região, assume dois significados: ingerir ou possuir sexualmente. A que fazes referência?

— Descobre.

Passando da postura de conferência a uma paralisia contemplativa, Cesária faz como nos velhos tempos: preocupa-se da questão teórica antes de considerar sua própria existência e seu interesse no caso.

Cesária revisa lentamente a torre e dá pouca relevância às rachaduras das escuras paredes internas da construção enquanto caminha seguida pela adversária, que tão-somente orienta:

— À estufa.

— Esta pequena torre não parecia tão escura na última ocasião. Meu julgamento me trai — considera mudamente. Tenta inferir o que encontrará: — Nenhuma mãe deve gostar de ver seu filho envolvido com seus adversários. Matar o próprio filho, no entanto, parece ainda menos provável. Ele é forte, talvez ela queira que me violente. Há de ser alguma armadilha.

Um perfume adocicado torna mais atraente a dúvida.

— Estou certa de que terei de lutar com todas as minhas forças contra esta que me guia e sua cria, que me parecera tão estimável. Tentarei usá-lo em meu favor, contra sua própria mãe.

Ao ar livre, ela exclama à interlocutora, que porta grave semblante:

— Mas a estufa ainda brilha! — e não obtém resposta.

O perfume adocicado, mais intenso dentro da estufa, não é o de flores, mas o de carne humana sofisticadamente preparada para o consumo e posta à mesa.

— !

— .

Desmembrada, a cria tem suas virtudes expostas com magnificência pela criadora. Apresentado em pratos didaticamente dispostos, o sistema revela suas funcionalidades.

— Contempla a força destas fibras musculares.

— Parecem-me consistentes.

— Gostaria de ver negares a pureza destes pés em que sempre se sustentou minha obra mais bem-acabada.

— Tua cria deu passos seguros e equilibrados, bem o vejo.

— Experimenta este coração: eis um sabor “belo”, se é que te atreves a perscrutar tão profundamente o problema.

— Não temo um adversário que me ensina.

Depois de uma pausa analítica, Cesária continua:

— Como pode um cadáver cheirar tão bem?

— Para mim, o odor é horrendo. Esta carne tem gosto podre.

— Por que mataste teu filho?

— Porque trocáveis sorrisos, aproximando-vos. Contrariada, resolvi abortar. Come.

Não recusa o banquete. Vai embora se sentindo fortalecida, enquanto sua adversária a considera envenenada.

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