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Itinerários de pesquisa

Do Brasil à China, biólogo viaja o mundo para estudar mamíferos

Agora curador no museu Field em Chicago, Estados Unidos, o paraibano Anderson Feijó busca conhecer a natureza de várias regiões

Em frente ao seu local de trabalho atual, em dezembro de 2025

Amanda Grunwald / Museu Field

Cresci em João Pessoa, não tínhamos o costume de viajar, nem de acampar. Os únicos estados que eu conhecia até entrar na universidade eram Pernambuco, onde nasci, e Paraíba, onde eu morava.

Sempre fui curioso e decidi fazer biologia porque um professor me disse que era possível fazer experimentos em laboratórios. Quando passei no vestibular na UFPB [Universidade Federal da Paraíba], em 2006, precisei esperar seis meses para começar o período, porque a universidade estava se recuperando de uma greve. Pelo Orkut, consegui estágio voluntário no Laboratório de Limnologia [estudo de ambientes aquáticos não oceânicos] de lá. Logo percebi que organismos microscópicos não me atraíam. Acabei no laboratório de mamíferos.

No início, organizava o laboratório e lavava utensílios. Também comecei a viajar para trabalhos de campo. Meu primeiro projeto foi ajudar um aluno que estava terminando a graduação e coletava em áreas da Mata Atlântica com diferentes níveis de regeneração. Eu não tinha nenhuma experiência de acampar, nenhuma habilidade específica. Mas fui aprendendo e vi que era isso que eu queria fazer.

Fiz a pós-graduação na UFPB trabalhando com taxonomia [disciplina que classifica os organismos]. Meus projetos tinham o objetivo de documentar morcegos, marsupiais, roedores e grandes mamíferos que ocorrem no Nordeste por meio das coleções científicas. Também fiz trabalhos de campo na Mata Atlântica, na Caatinga, no Cerrado e na Amazônia e descrevi duas novas espécies: o porco-espinho-de-baturité (Coendou baturitensis) e a cutia-de-garupa-laranja (Dasyprocta iacki). Meu orientador na graduação e no mestrado foi Alfredo Langguth, um dos sócios fundadores da Sociedade Brasileira de Mastozoologia [estudo de mamíferos], com quem aprendi o que é ser cientista e curador de uma coleção. No doutorado passei um ano, com bolsa-sanduíche, no museu em que estou agora – o Field, em Chicago. Trabalhei com um professor bem conhecido na área, Bruce Patterson. Cheguei no pico do inverno, a temperatura chegava a -15 graus Celsius [°C]. Foi a primeira vez que vi neve.

Aqui, percebi que muitas coisas que me interessavam poderiam ser feitas trabalhando com coleções científicas, como projetos sobre evolução e adaptação a diferentes ambientes. Quando eu voltei ao Brasil, tinha uma visão mais ampla do que poderia fazer como profissional.

Terminei o doutorado em 2017, uma época de cortes de bolsas e pouco investimento em ciência no Brasil. Mandei sete pedidos de pós-doutorado para diferentes instituições, e nada. Então busquei alternativas fora do Brasil. Uma delas foi em Beijing, na China. Encontrei o site de um professor e escrevi me candidatando para uma vaga de pós-doutorado com a proposta de explorar uma fauna diferente da que conhecia. Três meses depois, eu embarcava para a China.

No Instituto de Zoologia da Academia Chinesa de Ciências, onde trabalhei, me comunicava em inglês, mas fora do ambiente acadêmico poucas pessoas falavam esse idioma. Fiz um esforço para aprender mandarim suficiente para sobreviver no dia a dia. Em 2021, fui contratado como professor no mesmo instituto.

Em 2022, Patterson me avisou que tinha se aposentado e me encorajou a me candidatar à vaga para substituí-lo. Imaginei que procurariam um pesquisador sênior, mas deu certo e há dois anos trabalho como curador de mamíferos do museu Field.

Tenho quatro responsabilidades: pesquisa, curadoria (que é cuidar da coleção, propor formas de aumentá-la e torná-la acessível a pesquisadores), serviço (atuar em comitês e participar na montagem de exposições abertas ao público) e educação (orientar alunos, dar aulas e workshops). O museu é independente, mas sou associado às universidades de Chicago e de Illinois. Agora tenho quatro alunos desenvolvendo o doutorado, inclusive uma brasileira que também fez o mestrado em João Pessoa.

Trabalhei em uma variedade de lugares, do Brasil ao Tibete. Há muitas similaridades, porque seguimos métodos parecidos de coleta, mas a fauna é totalmente diferente. Vindo de João Pessoa, eu não tinha contato com montanhas. Na China, começávamos a trabalhar a 2 mil metros [m], que são altitudes relativamente baixas para eles. Ao longo do mês, subíamos aos poucos até cerca de 4,5 mil m. Nos hospedávamos em vilas pequenas, onde muitas vezes os habitantes nunca tinham visto um estrangeiro. As crianças vinham tirar foto comigo.

Deyan Ge / Academia Chinesa de CiênciasEm 2018 usando cesto tradicional para carregar armadilhas em Sichuan, na ChinaDeyan Ge / Academia Chinesa de Ciências

Fazíamos inventários para documentar como os diferentes grupos de mamíferos mudam à medida que a elevação aumenta. Também trabalhei com um grupo de coelhos chamado pika, que se originou no Tibete e consegue sobreviver a altitudes até 6.200 m. Minhas pesquisas buscavam entender como os pikas sobrevivem em grandes altitudes. Descobrimos vários genes ligados ao sistema imune que permitem a esses animais lidar com as mutações causadas pela intensa radiação ultravioleta.

No Brasil, uma das minhas espécies preferidas é o tatu-bola-da-caatinga [Tolypeutes tricinctus], o único tatu endêmico do país. Desde 2014, atuo como um dos coordenadores executivos do Plano de Ação Nacional organizado pelo ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]. A ideia é reunir um grupo de pesquisadores com diversas especialidades para conseguir mais informações sobre a espécie e com isso ajudar a definir programas de conservação. No doutorado, trabalhei com a diversidade do tatu-galinha [gênero Dasypus]. Queria entender quantas espécies existem e como elas estão conectadas geneticamente. Descobri que existiam bem mais espécies do que se achava, principalmente na região amazônica.

Para fazer esse trabalho visitei 41 coleções na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa. Usando minha bolsa de doutorado para financiar essas visitas, fiz uma viagem de seis meses de ônibus, saindo do Rio Grande do Sul e passando pelo Uruguai, até a Venezuela, visitando cada coleção. Eu nunca tinha saído do Brasil e não sabia nada de espanhol, fui aprendendo ao longo da viagem. Nesse percurso, conheci pesquisadores e professores com quem hoje colaboro.

Estou iniciando novos projetos nos Andes e no Caribe, buscando entender como diferentes grupos de mamíferos respondem e se adaptam às mudanças climáticas. Também planejo continuar fazendo viagens à China para manter projetos e colaborações. Atualmente, sou pesquisador visitante no instituto onde trabalhei por sete anos.

Os países em que vivi têm ambientes acadêmicos bem diferentes, mas em todos os pesquisadores se dedicam para avançar no conhecimento científico. Na China há muita competição para se manter no cargo. No começo, trabalhei com projetos focados em um grupo específico, cheguei a descrever duas novas espécies de roedores para China. Depois expandi o enfoque, abordando questões mais amplas sobre evolução a nível continental.

Aqui nos Estados Unidos sou avaliado pelo meu desenho acadêmico, pelos projetos que desenvolvo e o impacto que eles geram, mas também pelos alunos que oriento e pelos projetos educacionais de que participo. Por trabalhar em um grande museu de história natural, interajo com visitantes de várias idades e países e aprendi a explicar o que faço, como cientista, de forma acessível para todos.

Moro em um bairro com forte cultura asiática, com influência da China, do Vietnã e da Tailândia. Fica a 10 minutos da praia daqui, que na verdade é o lago Michigan. Isso supera um pouco a carência de mar que sinto. O mais difícil para mim é o inverno, as temperaturas chegam a -25 °C.

Na minha trajetória, viajando por diversos países, nunca me senti discriminado. Sei que isso não é habitual, acho que tive sorte ou não notei. Na China, percebia nas pessoas uma curiosidade autêntica por entender o que eu estava fazendo lá, como era a vida no meu país. Minha esposa é de Taiwan e passamos por algo semelhante no Brasil, quando fizemos uma viagem pela Caatinga. Em vilas pequenas, as pessoas tinham curiosidade de conversar com ela.

Já estou acostumado com a vida em inglês, quando vou ao Brasil preciso de uns dias para retomar o meu sotaque nordestino. Durante minha estada na China, visitei poucas vezes o Brasil, mas agora quero voltar a fazer projetos de campo na Caatinga e aproveitar o verão do Brasil para fugir do inverno daqui.

Sou muito agradecido ao apoio dos meus pais ao longo da minha formação. Tive o privilégio de me dedicar exclusivamente à graduação e pós-graduação e não precisei trabalhar para me manter financeiramente. O fato de eu ter sido criado e formado em João Pessoa, e não em um grande centro, não foi um limitante na minha carreira. Como cientista em uma instituição renomada, tenho como objetivo pessoal retribuir as oportunidades e dar espaço à nova geração de estudantes.

A reportagem acima foi publicada com o título “Da Caatinga aos Himalaias” na edição impressa nº 360, de fevereiro de 2026.

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