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Cultura

Dois instrumentos

Antonio Nóbrega busca na música e na dança populares a essência da identidade brasileira

FCW_Nobrega1Silvia MachadoNo palco, ele dá passos de maracatu, caboclinho, frevo e muito mais. Desce, desaparece na multidão, tira pessoas para dançar, contagia, envolve, torna o movimento irresistível até para os mais tímidos. Reaparece em cena, às vezes pelos braços do próprio público, e continua o espetáculo. Aos 57 anos, a energia é mantida com dedicação por um rigoroso programa de exercícios. Mas o pernambucano Antonio Nóbrega não se atém às apresentações. Junto com sua mulher, Rosane Almeida, mantém na Vila Madalena, em São Paulo, o Instituto Brincante, onde promovem aulas de música e dança e têm projetos de inclusão social. Tudo com um objetivo nada modesto: ajudar a construir a identidade cultural brasileira.

São 40 anos de atividade artística, mas, como diz Nóbrega, “a palheta começou a vibrar mais cedo”. O pai, médico, reparou que o menino de 7 anos batucava na mesa na hora das refeições. Em vez de impor um melhor comportamento à mesa (ou talvez além disso), encontrou uma professora de violino para o filho. Era dona Belinha, violinista da Orquestra Sinfônica do Recife. O cenário já era teatral, o que se tornou uma das características das apresentações do Brincante, que ele criou em São Paulo mais de 30 anos depois. “A casa era meio antiga, com ingredientes insólitos, quase fantasmagóricos.” A professora era “baixinha, corcunda e com uma camada muito grossa de caspa na cabeça”, relembra. Passado um ano de estudos, dona Belinha declarou ao pai de Nóbrega que já não tinha o que ensinar ao menino (“Olha que mentira!”). Mas já havia chegado no Recife o violinista catalão Luís Soler, que deu continuidade à sua educação musical.

Até o início dos anos 1970, Nóbrega era um músico dividido entre dois mundos. A música erudita, na Orquestra Sinfônica do Recife, e as influências que chegavam pelo rádio e pela nascente televisão. Mantinha com as três irmãs um conjunto familiar (violino, violoncelo, piano e bongô) que tocava Beatles, Roberto Carlos e outros sucessos da época. E também compunha – teve duas músicas finalistas no festival de música do Recife, nos anos 1960.

Eram mundos musicais isolados, até que o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna reparou no jovem violinista na apresentação de um concerto para violino de Bach na igreja São Pedro dos Clérigos e o convidou para seu Quinteto Armorial. Foi por intermédio de Suassuna que Nóbrega conheceu o mundo cultural que não atravessava as fronteiras da periferia, e estava por isso muito mais distante da classe média recifense do que o que vinha da Europa e a Jovem Guarda de São Paulo. O maracatu e outros ritmos regionais se revelaram “um território com uma imensidão e uma riqueza que surpreendiam e abismavam”, e mostraram ao músico de 19 anos a conexão entre o erudito e o popular, entre a expressão de uma cultura e a técnica instrumentista. “Não existe criador que tire de si um universo criacional sem que deite raízes em alguma coisa”, explica.

O que brotou dessas raízes não foi só um músico mais completo. Terno de pífanos, cabaçal e esquenta-mulher entraram no repertório de Nóbrega, que ao explorar o novo mundo sentiu também a necessidade de aprender as danças, expressão completa dessa cultura. Desde o desabrochar do artista no Quinteto Armorial se passaram quatro décadas e 22 espetáculos montados por ele, sempre buscando potencializar aquele primeiro encontro. E foram décadas de reflexão e de estudos para entender a origem e os universos fundadores dessa cultura popular e seu papel na identidade cultural do país, trajetória que incluiu uma parada universitária nos anos 1980, em que por cinco anos foi professor de dança na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Naturalmente, espetáculo de 2009 centrado na dança

Silvia Machado Naturalmente, espetáculo de 2009 centrado na dançaSilvia Machado

Quem hoje vê um espetáculo de Nóbrega não fica imune à exuberância e à beleza dos movimentos que ele recolhe, elabora e apresenta em novas releituras. “O toque de caboclinho agora ressoa no corpo de outra maneira”, conta o multi-instrumentista e dançarino, que já não faz propriamente passos de capoeira, mas cria espetáculos com base (também) neles. “Reuni um conjunto de práticas e de linguagens, e com elas ergui meu castelo de criação.”

Para ele, o destilado desses anos de pesquisa e de produção musical é a dança, que privilegia em seu espetáculo mais recente: de 2009, cujo DVD deve sair este ano. A música popular faz parte do cotidiano do brasileiro, mas a população não usufrui do universo rítmico de dança produzido no país, lamenta.

Essa distância em relação à expressão corporal vem de longe. E está ligada à origem da riqueza cultural nos arredores de Recife: a escravatura. A capitania de Pernambuco, estabelecida no século XVI, era uma das mais prósperas devido à produção de cana-de-açúcar. A proximidade entre escravos de várias nacionalidades africanas, índios e portugueses formou um caldeirão cultural de onde saiu o maracatu, o frevo, o caboclinho e outros ritmos. “Sem esse encontro com negros e índios o Brasil seria, culturalmente, um Portugal de segunda, modificado pela geografia e pelo clima tropical”, especula Nóbrega.

A proximidade entre casa-grande e senzala fazia com que a música produzida pelos escravos chegasse à elite, mas permitir a exuberância física da dança dentro da sala de estar já não era simples. “Houve momentos em que a dança quase entrou na casa, mas voltou atrás e não chegou a nutrir a cultura aristocrata.” Entender esse universo é uma janela essencial para se enxergar o Brasil. “A dança é uma representação cultural, e todos temos esse pigmento.” O africano, explica, é por natureza moldável. Para ele, vem daí o caráter cordial muitas vezes associado ao brasileiro.

Multi-instrumentista: Nóbrega em Lunário perpétuo, de 2002

Dudu Schnaider Multi-instrumentista: Nóbrega em Lunário perpétuo, de 2002Dudu Schnaider

A arte, como representação simbólica dessa personalidade, facilita que as pessoas se coloquem melhor diante de si próprias. De origem em geral religiosa, a dança adquire aspectos teatrais e atinge uma dimensão arquetípica que transcende o religioso. Assim como o japonês, a dança brasileira surge de uma conjunção de componentes culturais. Essa é a importância, diz ele, de trazer a dança, como o folguedo com cavalo-marinho, para o repertório cotidiano da população.

Mesmo com elementos constantes, essa produção espontânea aos poucos muda. Nóbrega cita gravações recolhidas em 1938, no Nordeste, por iniciativa do escritor Mário de Andrade, agora disponível em caixa produzida pela Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo e pelo Sesc São Paulo. “São as mesmas coisas que ouvi nos anos 1970, mas com diferenças”, conta. E pondera que talvez esteja na hora de voltar a Pernambuco para revisitar e renovar as pesquisas.

Nóbrega lamenta que a sociedade atual, cada vez mais escrava do consumo, torne a vida das pessoas limitada à escola, à empresa, à televisão. “As pessoas precisam de outras dimensões para se posicionarem como seres humanos”, reflete, pensando num bancário que passa o dia atrás do balcão, chega em casa cansado e se deita diante da televisão. “Ninguém é feito para isso.” A busca por compor um melhor cidadão passa, para ele, pela formação de conjuntos artísticos que tragam novidades.

E isso depende de políticas públicas. Ele cita o choro, uma representação musical brasileira com grande divulgação internacional, mas pouco estudado no Brasil. Para Nóbrega, a política cultural deveria dar prioridade ao que é mais relevante para a cultura brasileira, propiciar a formação de conjuntos que tragam novidades.

Na escala que pode alcançar, é o que busca no Instituto Brincante. Por meio dos cursos de formação de educadores da rede pública, que indicam maneiras de ensinar expressão corporal baseada nos ritmos típicos deste país, Nóbrega espera ajudar a formar cidadãos mais completos. Mas a natureza contagiante de suas apresentações permanece mais importante do que o ensino formal, na opinião de Carlos Augusto Calil, secretário de Cultura do município de São Paulo. “Ele faz com o corpo uma sensibilização das pessoas”, afirma, “e pode fazer isso porque toca dois instrumentos: é bom músico e bom dançarino”. Ao depurar o gesto sem entrar na produção cultural de ampla escala, e pôr essa arte espontânea brasileira diante dos olhos da classe média, o papel de Nóbrega acaba sendo político. Vem daí o maior motivo para premiar a carreira desse artista.

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