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Pesquisa na quarentena

“É muito frustrante não poder concluir trabalhos aos quais se dedica há anos”

Médico brasileiro Antonio Bianco fala sobre o impacto da Covid-19 nas suas pesquisas na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos

Bianco em seu laboratório na Universidade de Chicago

Arquivo pessoal

Começamos a ouvir falar sobre o novo coronavírus [Sars-CoV-2] em dezembro, mas ninguém deu muita importância para o problema àquela época aqui nos Estados Unidos. Continuamos desenvolvendo nossas atividades normalmente. Eu coordeno um grupo de cinco bolsistas de pós-doutorado no meu laboratório aqui na Universidade de Chicago, no estado do Illinois. Eles trabalham comigo em pesquisas sobre o metabolismo do hormônio da tireoide. Uma delas envolve uma amostra de cerca de 50 mil pacientes atendidos no hospital da universidade. Estávamos na fase final de análise estatística, mas tivemos de interromper os trabalhos por conta da pandemia de Covid-19, que chegou com força no país, sobretudo no estado de Nova York. Toda a infraestrutura da universidade agora está voltada para estudos sobre o novo coronavírus. Sem concluir as análises estatísticas, não podemos publicar os resultados.

Outra preocupação é com os auxílios de pesquisa. Todos estamos ansiosos porque em algum momento teremos de justificar o financiamento e apresentar resultados. Sem poder ir ao laboratório, a preparação de novos relatórios com os resultados pode ficar difícil. A recomendação da universidade é de que anotemos tudo o que estamos fazendo e como estamos fazendo, para depois poder prestar contas aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), que financiam nossos estudos, deixando claro que continuamos trabalhando de casa. Como a maioria dos grupos de pesquisa, promovemos encontros diários por videoconferência para analisar resultados e organizar a dinâmica de trabalho. O problema é que os prazos de alguns relatórios estão se aproximando.

Esse período, por um lado, está sendo bom. O isolamento em casa nos oferece a oportunidade de poder finalizar a preparação de manuscritos atrasados. É surpreendente a quantidade de trabalho que se pode fazer em casa. Tudo é mais eficiente; não se perde tempo no trânsito, e logo após o café da manhã você já está pronto para trabalhar. No entanto, precisamos de dados para as pesquisas, de modo que, se essa situação se estender por mais tempo, teremos que renegociar os prazos e financiamentos.

Estou isolado em casa desde o dia 15 de março. Do ponto de vista epidemiológico, a situação envolvendo a Covid-19 no estado do Illinois não está nos mesmos níveis observados em Nova York, mas, ainda assim, os números são preocupantes. Estamos em quase 60 mil casos e pouco mais de 4,5 mil mortes. De uma forma geral, a população está seguindo as orientações para ficar em casa.

Pouco antes de a pandemia se estabelecer por aqui, eu estava trabalhando na organização de um congresso internacional sobre mecanismos de ação e síndromes de resistência do hormônio tireoidiano. O evento seria realizado entre os dias 25 e 28 de março em Monterey, na Califórnia, e reuniria cerca de 150 pesquisadores da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia. Já havíamos reservado o hotel que sediaria o congresso e muitos dos participantes já tinham comprado suas passagens e reservado suas hospedagens. Poucas semanas antes do evento, comecei a receber mensagens de pesquisadores dizendo que não poderiam comparecer porque suas universidades tinham suspendido o reembolso de custos de viagens a trabalho, de modo a restringir o deslocamento de seus pesquisadores e conter o avanço do vírus. Foi uma dor de cabeça ter de cancelar tudo, reservas e solicitar reembolsos pelo telefone. Vamos avaliar a situação para decidir se o evento terá uma nova data neste ano. Seja como for, foi uma experiência frustrante. O cancelamento do evento, a interrupção das pesquisas, tudo isso nos pegou de surpresa.

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