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Educação

Educação na pandemia

Déficit de aprendizagem em escolas da rede pública poderá impactar renda futura dos estudantes

Jovem em frente à escola pública no bairro do Glicério, em São Paulo: sem estratégias de mitigação, perdas de aprendizagem podem afetar trajetória profissional de toda uma geração

Léo Ramos Chaves

A defasagem na assimilação de conhecimento, em decorrência do fechamento de escolas e da baixa eficiência do ensino remoto oferecido ao conjunto de estudantes de escolas públicas de ensino fundamental e médio, pode gerar uma perda de R$ 700 bilhões na renda desses jovens durante sua vida profissional. É o que estima o estudo “Perda de aprendizagem na pandemia”, desenvolvido pelo Instituto Unibanco e pelos economistas Ricardo Paes de Barros e Laura Muller Machado, ambos do Insper. A pesquisa, divulgada em 1º de junho, indica que estudantes do ensino médio ofertado pela rede estadual de todo o país começaram o ano letivo de 2021 com proficiência em língua portuguesa e matemática 9 a 10 pontos a menos do que seria esperado na escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), caso as aulas presenciais não tivessem sido suspensas pela emergência sanitária desencadeada pela Covid-19.

“O aprendizado de todo o ensino médio corresponde a um ganho de 15 a 20 pontos na escala Saeb. Optamos por analisar as perdas de aprendizagem nessa faixa de ensino porque ela apresenta as menores oportunidades de recuperação do conteúdo, na medida em que constitui a fase final da educação básica”, explicou Barros, durante evento de divulgação dos resultados do estudo, em São Paulo. O ensino médio público estadual de todo o país é frequentado por 6,5 milhões de estudantes. Elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) do Ministério da Educação (MEC), o Saeb é utilizado em larga escala nas escolas públicas do Brasil para medir o desenvolvimento dos alunos. A adesão de instituições particulares às avaliações é voluntária.

A pesquisa estima que, para jovens que cursam o ensino médio de escolas estaduais que se engajaram em aulas remotas, a aprendizagem em língua portuguesa correspondeu a apenas 38% do que seria assimilado se não houvesse pandemia e as escolas não tivessem sido fechadas. O percentual correspondente para matemática é de 17%. “Já os alunos que não se envolveram nem com as atividades on-line não apenas deixaram de adquirir conteúdo novo como também tiveram regressão na aprendizagem, na medida em que não exercitaram os ensinamentos de dias precedentes”, comentou Barros, utilizando como parâmetros estudos internacionais que identificam regressões na aprendizagem registradas em períodos de férias ou recessos escolares.

Léo Ramos Chaves Estudo recomenda que redes de ensino desenvolvam metodologias para melhorar o engajamento de estudantes com atividades remotasLéo Ramos Chaves

Ao considerar que a transição para o modo remoto foi inevitável e essa modalidade de ensino é menos eficiente do que a que envolve aulas presenciais, o economista afirmou que alunos do ensino médio que não participaram de atividades on-line tiveram uma perda de aprendizagem de 12 pontos na escala Saeb – situação que foi amenizada nos casos em que tenham sido adotadas estratégias de ensino a distância. “Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios [Pnad] Covid-19 mostram que, na média, jovens das redes estaduais participaram de atividades de ensino remoto, mas com poucas horas de dedicação, de forma que a perda real desses alunos foi de 6 pontos na escala Saeb”, detalhou o economista. A Pnad Covid-19 identificou a quantidade de horas semanais dedicadas, em 2020, por alunos brasileiros a atividades escolares. O dado permitiu aos economistas simularem a efetividade do ensino remoto.

Na avaliação de Barros, a transição abrupta para aulas a distância, os efeitos sociais da pandemia envolvendo saúde e emprego de familiares e a menor possibilidade de socialização com colegas são fatores que explicam o baixo engajamento dos jovens em atividades remotas. Ainda de acordo com o estudo, se não forem implementadas, este ano, políticas para mudar o atual cenário de defasagem no ensino, a perda de aprendizagem pode chegar a 20 pontos na escala Saeb até o final de 2021.

A realização do estudo envolveu a utilização de um modelo de simulação que permite estimar a perda de aprendizagem desde o início da pandemia, tomando por base o número de dias letivos com a educação presencial e o grau de adesão dos estudantes ao ensino remoto. Foi considerada a proficiência de alunos de escolas estaduais de ensino médio quando o ensino presencial foi interrompido, em 2020, e estimada a proficiência para 2021, caso a pandemia não tivesse ocorrido. Para calcular o aprendizado no contexto de pandemia, o estudo também considerou a eficácia do ensino remoto em comparação ao presencial, a perda de conhecimento de alunos que não tiveram acesso ao ensino a distância e os ganhos obtidos por aqueles que se engajaram nas atividades.

Mercado de trabalho
A pesquisa estima que um ponto a menos de proficiência na escala Saeb durante o ensino médio implica uma redução de renda da ordem de 0,5% no decorrer da trajetória profissional do aluno. Isso significa que a defasagem de aprendizagem estimada entre os estudantes concluintes do ensino médio em 2021 em todo o país tende a causar uma perda de renda individual de R$ 20 mil a R$ 40 mil no decorrer de sua vida profissional. “Considerando o conjunto de 35 milhões de crianças e jovens que atualmente estão na escola pública, se levarmos em conta que alunos do ensino fundamental tiveram a mesma perda de aprendizagem de 10 pontos em proficiência na escala Saeb registrados para o ensino médio, teremos uma queda de R$ 700 bilhões na renda futura dessa geração”, estimou Barros. Ele alertou que, se medidas para mitigar as perdas de aprendizagem não forem adotadas ainda este ano, essas perdas podem chegar a R$ 1 trilhão.

Para reverter esse cenário, a pesquisa elencou estratégias que podem ser seguidas pelas redes de ensino, incluindo ações para garantir a permanência de estudantes na escola e combater a evasão, a adoção de políticas para ampliar e melhorar a qualidade do ensino remoto e modos de aumentar o envolvimento dos estudantes com as atividades escolares. O estudo também recomenda que as aulas presenciais sejam retomadas, mesmo que em modelo híbrido, tão logo as condições sanitárias permitam, e sejam desenvolvidas iniciativas para recuperar e acelerar o aprendizado dos alunos.

A volta às atividades presenciais e o maior envolvimento dos estudantes com o ensino remoto poderão reduzir a perda estimada de aprendizagem em 30% ou 40%, até o final de 2021. Isso significa que, em língua portuguesa, a defasagem potencial pode passar de 16 para 13 pontos e, em matemática, de 20 para 12 pontos da escala Saeb. “O problema educacional do Brasil é tão grande quanto as dificuldades enfrentadas na área da saúde e ainda maior do que os desafios econômicos que encaramos atualmente”, afirmou Barros ao chamar a atenção para a necessidade de adoção tanto de políticas imediatas quanto de longo prazo para mitigar o panorama.

Durante o evento de lançamento do estudo, Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, explicou que o país não dispõe de boas experiências na rede pública envolvendo o ensino médio. “As iniciativas eficientes que temos no país envolvem o ensino fundamental”, comentou. Para recuperar e acelerar o processo de ensino, Henriques mencionou a necessidade de reduzir o conteúdo dos currículos escolares e adaptar a metodologia para o ensino híbrido. “As aulas on-line não devem reproduzir o que se faz em atividades presenciais. É preciso buscar fórmulas novas que permitam melhorar o engajamento dos estudantes”, concluiu.

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