Guia Covid-19
Imprimir PDF Republicar

Gênero

Elas e seus discípulos

Estudo sobre a genealogia acadêmica mostra o legado de 50 cientistas brasileiras na formação de pesquisadores

Computational Systems Biology Laboratory / Helder Nayaka

Um diagrama publicado nas redes sociais animou o debate sobre um tipo de contribuição de mulheres cientistas que é pouco abordado em estudos de gênero: o trabalho delas na orientação de alunos e na formação de novas gerações de pesquisadores. A imagem, que lembra uma copa de árvore vista de cima, é formada por grafos – estruturas compostas por nós ligados por arestas – e seus galhos representam as redes de descendentes acadêmicos de 50 pesquisadoras brasileiras. O trabalho foi produzido e divulgado no Twitter pelo imunologista Helder Nakaya, pesquisador sênior do Hospital Israelita Albert Einstein, e expôs um legado acadêmico denso e prolífico: chegou a 32 mil pesquisadores o número de descendentes diretos (alunos que elas orientaram) e indiretos (as gerações seguintes formadas por pupilos desses orientandos e seus alunos).

Entrevista: Helder Nakaya
00:00 / 56:21

Parte das pesquisadoras mencionadas no trabalho e seus discípulos compartilharam o trabalho nas mídias sociais e celebraram seus resultados. “É um privilégio ver quantos netos e bisnetos acadêmicos eu já tenho e como foi possível, na pesquisa sobre a química de produtos naturais, formar grandes alunos”, comenta Vanderlan Bolzani, do Instituto de Química de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que tem 169 descendentes acadêmicos distribuídos em três gerações. Ela destaca que os dados sobre genealogia acadêmica revelam uma influência do trabalho das mulheres cientistas que não é captada por outros indicadores. “Para formar bons pesquisadores, é preciso fazer ciência de qualidade, garantir financiamento para projetos, estabelecer colaborações internacionais”, afirma. Bolzani observa que, mesmo formando muitas pessoas, as mulheres seguem tendo dificuldade de obter reconhecimento e são poucas as que chegam a posições de comando. Um estudo realizado em 2018 mostrou que, dos 518 membros titulares da Academia Brasileira de Ciências (ABC), só 14% eram mulheres. Entre 67 reitores vinculados à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), há apenas 13 mulheres.

Para Bolzani, que também é membro do Conselho Superior da FAPESP, dados sobre a contribuição feminina para a formação de recursos humanos são especialmente relevantes em um momento em que cientistas discutem como colaborar para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. “O equilíbrio de gênero é uma das metas a serem atingidas”, lembra ela.

“Fiquei surpresa com esses resultados, porque não considero que tenha formado muitos alunos”, pondera Belita Koiller, do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Primeira física eleita membro titular da ABC, laureada em 2005 com o Prêmio Internacional L’Oréal – Unesco para Mulheres na Ciência, Koiller tem 11 descendentes diretos e 124 indiretos. O mais importante nesse legado, ela diz, é a qualidade dos pesquisadores que orientou. “Busquei formar alunos melhores do que eu. Fiz questão de que todos tivessem experiência no exterior”, afirma. Ela lamenta que a física esteja atrasada em relação a outros campos do conhecimento na capacidade para atrair mais talentos femininos e dar condição para que floresçam. Mas acredita que reconhecimentos públicos, como o Prêmio Internacional L’Oréal – Unesco que recebeu e o Prêmio para Jovens Pesquisadoras ABC L’Oréal – Unesco que ajudou a implantar no Brasil em 2006, quebrem algumas barreiras, deem visibilidade a mulheres cientistas e reduzam disparidades.

A Plataforma Acácia municia estudos sobre genealogia acadêmica e é consultada por pesquisadores interessados em traçar sua contribuição

Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (IC-Unicamp), foi avisada sobre o trabalho de Nakaya por um ex-orientando. “Fiquei lisonjeada de estar em tão boa companhia”, disse. Ainda hoje ela mantém contato com a maioria de seus discípulos. “Dos 70 mestres e doutores que orientei, acompanho a trajetória de uns 50 deles. No ano passado, eles fizeram uma festa de aniversário on-line para mim. Teve gente que se conectou dos Estados Unidos, da Austrália e da Inglaterra. É um orgulho ter formado gente de qualidade que hoje trabalha na indústria, na academia e em centros de pesquisa do exterior”, afirma a pesquisadora, que tem 325 descendentes, entre os diretos e os indiretos. Primeira professora, no Brasil, a fazer doutorado em ciência da computação no exterior, ela é uma incentivadora da participação feminina na área, que é muito baixa, e criou iniciativas para atração de talentos quando presidiu a Sociedade Brasileira de Computação. “Hoje, quase 20 anos depois daquele começo, a SBC tem um programa permanente – o Meninas Digitais – com milhares de jovens em todo o Brasil dos 7 aos 18 anos, que aprendem a programar, construir robôs, desenvolver projetos, graças a centenas de professores dedicados. É uma alegria ter contribuído para isso.” Levando-se em conta a realidade desse campo do conhecimento, conseguiu atrair um número razoável de alunas: dos 20 doutores que formou, cinco são mulheres, assim como 16 dos 53 mestres.

Nakaya fez o levantamento a princípio por pura curiosidade. Ele explorou um banco de dados sobre genealogia acadêmica criado por pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) para municiar um grupo de discussão de pesquisadores do qual participa no WhatsApp. Fez a árvore genealógica de 19 cientistas mostrando o quanto eles tinham contribuído para formar novos pesquisadores. Acabou criticado pela baixíssima presença feminina em sua amostra – dos 19, só duas eram mulheres: a geneticista Mayana Zatz, da USP, e a bioquímica Helena Nader, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Observou que a contribuição delas não ficava atrás da dos homens, entre os quais reitores e líderes de grandes centros de pesquisa. “Resolvi então fazer um levantamento exclusivamente com nomes femininos”, conta.  A escolha das 50 cientistas seguiu critérios um tanto subjetivos. Ele buscou nomes de pesquisadoras ainda vivas em registros como o da Academia Brasileira de Ciências e incluiu outras de que se lembrava. Teve o cuidado de contemplar nomes das ciências humanas e sociais, caso da demógrafa Elza Berquó, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e da Unicamp, e da economista Maria da Conceição Tavares, da UFRJ. “Novamente fui criticado, mas pelas omissões. Todo mundo lembrava de um nome importante que ficou de fora”, conta.

O levantamento de Nakaya foi possível graças a um projeto sediado na UFABC que desde 2016 permite mapear a genealogia acadêmica com base em dados extraídos da plataforma de currículos Lattes (ver Pesquisa FAPESP nº 249). Batizado de Plataforma Acácia, em referência ao formato dos galhos da árvore nativa da Austrália, dispõe de dados sobre 1,2 milhão de acadêmicos brasileiros, informando quantos descendentes cada um deles tem, quantas gerações já formou, além do número de “primos”, pesquisadores que compartilham o mesmo “avô” acadêmico. “Queremos ampliar os dados e as possibilidades de pesquisa na plataforma”, diz Jesús Pascual Mena-Chalco, do Centro de Matemática, Computação e Cognição da UFABC e coordenador do projeto. “Hoje, as informações estão disponíveis em nível de indivíduos. A ideia é que seja possível fazer análises envolvendo universidades, para mostrar como elas foram influenciadas por outras instituições, como é o caso da UFABC, que tem a maioria de seus pesquisadores oriundos da USP, ou apontar disciplinas e campos do conhecimento que forneceram recursos humanos para outras áreas.”

Léo Ramos Chaves | Nationalacademies.Org / Humanrights | Miguel Boyayan | Roberto Barroso / Agência Brasil Vanderlan Bolzani, Belita Koiller, Claudia Bauzer Medeiros, Maria da Conceição Tavares e Helena Nader: descendentesLéo Ramos Chaves | Nationalacademies.Org / Humanrights | Miguel Boyayan | Roberto Barroso / Agência Brasil

Ele conta que o banco de dados tem municiado estudos sobre genealogia acadêmica e vem sendo objeto de consulta de pesquisadores interessados em traçar o impacto de seu trabalho na geração de recursos humanos. “A plataforma permite várias leituras sobre trajetórias acadêmicas, como se vê agora no trabalho sobre as 50 pesquisadoras brasileiras”, afirma.

O estudo de Nakaya vai ter um desdobramento. O imunologista fez uma parceria com o Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (Ivepesp), uma organização sem fins lucrativos formada por professores e cientistas, para criar ou melhorar os perfis sobre as 50 pesquisadoras na biblioteca virtual Wikipédia – e pretende mobilizar os descendentes acadêmicos das pesquisadoras nessa tarefa. Os verbetes da Wikipédia são construídos a partir de informações confiáveis disponíveis na internet e o objetivo do biólogo é produzir textos que embasem os perfis das pesquisadoras. “E queremos que os ex-orientandos ajudem a narrar a contribuição dessas cientistas”, diz. O físico Helio Dias, diretor do Ivepesp e pesquisador aposentado do Instituto de Física da USP, planeja contratar bolsistas que ajudem a fazer entrevistas e a levantar dados sobre as perfiladas. Quem também se dispôs a colaborar é Yvonne Mascarenhas, do Instituto de Química de São Carlos da USP – ela própria uma das 50 pesquisadoras da lista.

A iniciativa lembra um projeto realizado pela física britânica Jessica Wade, do Imperial College London, para combater a escassez de perfis femininos na Wikipédia. Em parceria com a jornalista Angela Saini, Wade iniciou em 2017 o projeto “Uma cientista por dia na Wikipédia”, um esforço para publicar biografias de pesquisadoras de diversos países. Elas já emplacaram centenas de biografadas (ver Pesquisa FAPESP nº 276). Em pelo menos um caso, o projeto brasileiro vai se sobrepor ao britânico. Helena Nader, da Unifesp, foi alvo de um dos perfis em inglês construídos por Wade e Saini. “A Jessica Wade participou de um debate comigo no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em 2019, sobre mulheres na ciência. Ela foi procurar meu perfil na Wikipédia e não encontrou. Então, a Angela Saini preparou”, lembra Nader, que, segundo os registros da Plataforma Acácia, já tem 497 descendentes, 66 deles diretos.

Republicar