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Saúde

Em busca de uma vacina nasal contra a meningite

A um passo do Século XXI, pesquisadores do mundo inteiro continuam às voltas com um grande desafio: desenvolver uma vacina eficaz e definitiva contra a meningite. A doença, que é causada por vários germes diferentes, principalmente bactérias e vírus, resulta na inflamação da membrana que reveste o cérebro, causando a morte em 20% dos casos. Muitas das vacinas existentes hoje dão uma proteção em torno de 50% a 80%.

“Apesar do avanço tecnológico, a doença meningocócica continua sendo um grande problema de saúde pública em todos os continentes”, admite a pesquisadora científica Elizabeth Natal De Gaspari, da Seção de Imunologia do Instituto Adolfo Lutz, coordenadora da pesquisa Produção de anticorpos monoclonais contra antígenos de membrana externa de Neisseria meningitidis B  que tem o apoio da FAPESP.

Em desenvolvimento há dois anos, esse trabalho científico chega agora aos primeiros resultados. Segundo a pesquisadora, as descobertas que vêm sendo feitas “provavelmente vão contribuir para a formulação de um novo esquema de imunização para o preparo de uma vacina contra a bactéria N. meningitidis B“. Essa bactéria, pela grande diversidade de tipos (cepas) existentes, tem sido o objeto da preocupação de vários centros de pesquisa no mundo.

Vacina nasal
Durante esses dois anos, a pesquisadora trabalhou com uma vacina nasal, em nível experimental, utilizando camundongos do tipo Balb/c, imunizados com antígenos de membrana externa de N. meningitidis B, bactéria de maior incidência no Brasil. A pesquisa propõe uma imunização por via nasal, diferente das vacinas que vêm sendo testadas (injetáveis), visando o bloqueio do microorganismo na sua “porta de entrada”.

“A via de entrada da maioria das infecções no ser humano são as superfícies de mucosas, principalmente dos tratos gastrointestinal e respiratório”, explica Elizabeth. Essas mucosas funcionam como uma barreira entre os ambientes interno e externo, sendo, portanto, o lugar ideal para ocorrer o bloqueio, simplificando o processo de vacinação e barateando seus custos.

“Além disso, uma única dose da vacina pode ser suficiente para desenvolver uma resposta imune protetora e duradoura, enquanto as vacinas em geral, administradas pela via parenteral, necessitam de esquema de imunização em diversas doses”, salienta a pesquisadora.

A grande dificuldade para chegar a uma vacina definitiva é a enorme capacidade que a bactéria tem de escapar dos mecanismos de defesa do sistema imune, além da falta de um modelo animal que permita estudar a infecção meningocócica. A saída encontrada pela pesquisadora foi optar pelos anticorpos monoclonais, produzidos em laboratório, como ferramenta de estudo. Só assim ela conseguiu a caracterização de novos antígenos (substâncias que provocam a formação de anticorpos), importantes para o preparo de uma vacina.

O trabalho com camundongos tem obtido respostas muito positivas, segundo ela. Um dos anticorpos monoclonais produzidos durante a pesquisa permitiu, por exemplo, verificar a presença de antígenos em diferentes cepas de bactérias gram-positivas e gram-negativas, fato que foi comprovado no sistema de inibição da aderência e penetração da bactéria Escherichia coli patogênica em células HEp-2.

O novo esquema de imunização também foi capaz de reconhecer antígenos presentes em diferentes cepas existentes na população de N. meningitidis B, o que significa maior chance de funcionar como vacina, porque oferece uma cobertura bacteriana muito maior. Outra conclusão importante é que foram verificados altos níveis de anticorpos dos tipos IgG e IgA, sendo estes últimos de fundamental importância no mecanismo de proteção das mucosas.

“A partir desse esquema, a produção de anticorpos monoclonais vai permitir caracterizar antígenos importantes que induzam a produção de anticorpos com atividade bactericida para a escolha de novos antígenos vacinais”, resume Elizabeth.

A pesquisadora, que também é professora associada do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da Universidade de São Paulo (USP), iniciou os estudos para o desenvolvimento desta vacina em 1991, no Walter Reed Army Institute of Research, em Washington DC, nos Estados Unidos.

Nos EUA, a Doutora Elizabeth De Gaspari buscou o aperfeiçoamento de que necessitava para implantar a área no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. Durante o período, ela fez pós-doutorado sob a orientação de uma das maiores autoridades da área de vacinas nos Estados Unidos, Werner Zollinger, que ainda hoje é seu interlocutor.

Posteriormente, ela trouxe para o Brasil a metodologia adotada pela Seção de Imunologia do Adolfo Lutz a partir de 1993. Com o auxílio inicial da FAPESP, de cerca de US$ 15 mil, a pesquisadora pôde equipar o laboratório do instituto adequadamente, permitindo o avanço dos estudos iniciados no Walter Reed. Hoje, encontra-se em funcionamento um importante centro de pesquisa, que dá apoio técnico-científico a diferentes áreas no que refere a doenças infecto-contagiosas. A pesquisadora também se associou ao Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da USP, onde a cada dois anos promove cursos de pós-graduação sobre a importância dos anticorpos monoclonais. Já está previsto um novo curso para março de 1999, com a possível participação de pesquisadores estrangeiros.

Perfil
Elizabeth Natal De Gaspari tem 43 anos, é biomédica formada pela Universidade Santo Amaro, SP, e há vinte anos se dedica aos estudos na área de Imunologia, dez dos quais à Doença de Chagas. É mestre em Microbiologia e Imunologia pela Escola Paulista de Medicina, doutora em Ciências pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP e fez pós-doutorado no Walter Reed Army Institute of Research (Washington-DC). Já publicou cerca de vinte artigos em publicações científicas.

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