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Política Pública

Em defesa da floresta

Nogueira Neto, aos 82 anos, estuda manejo e gestão ambiental

EDUARDO CESARNogueira Neto, na sua chácara no bairro do Morumbi, brinca com seu labradorEDUARDO CESAR

O sabor de descobertas ambientais como a inexplorada e possivelmente única “floresta de buritis” no mundo, localizada em sobrevôo na região amazônica ocidental, segue causando emoção. O empenho na elaboração até o final deste ano de um “dicionário das abelhas indígenas”, tema que tem sido uma paixão desde os 18 anos quando teve o primeiro contato com o inseto, merece revisões e aprimoramento a cada nova releitura. O acompanhamento da formulação de políticas públicas relacionadas à conservação do patrimônio natural – caso do projeto apresentado à FAPESP, em parceria com a Fundação Florestal para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo, denominado Áreas especialmente protegidas no Estado de São Paulo: levantamento e definição de parâmetros para administração e manejo como subsídio a políticas públicas de gestão ambiental – permanece dominando sua biografia. Inquieto, ativo e participante. São facetas da rica personalidade de Paulo Nogueira Neto que, aos 82 anos, se orgulha de ter a própria vida embaralhada com a história do ambientalismo no Brasil.

Professor titular aposentado pela Universidade de São Paulo (USP), do departamento de Ecologia do Instituto de Biociências, Nogueira Neto dedicou-se com afinco às abelhas sem ferrão, produtoras de mel, e, paralelamente, sempre cultivou as questões ambientais, então ainda sem foco definido na produção científica e social no Brasil. Os dois temas vão ocupar lugar de destaque em sua carreira e em sua vida pessoal e familiar. O professor Nogueira Neto tornou-se responsável pela demarcação de áreas ambientais no país. Organizou e dirigiu por 12 anos consecutivos, até 1986, a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), instalada no âmbito do Ministério do Interior.

À frente da Sema, criou e estabeleceu 3,2 milhões de hectares em 26 estações e reservas ecológicas. Assumiu postos e mantém vínculos como membro de importantes entidades e associações relacionadas com o meio ambiente, entre as quais o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama); o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema); o Conselho de Administração da Cetesb. Continua na vice-presidência da S.O.S – Mata Atlântica, da WWF-Brasil, e do International Bee Research Association. Preside a Associação de Defesa do Meio Ambiente (Adema-SP) e a Fundação Florestal do Estado de São Paulo.

Quando assumiu a coordenação do projeto de Políticas Públicas encaminhado à Fapesp, Nogueira Neto apostou que a pesquisa poderia oferecer elementos sólidos não só para tomadas de decisões das instituições responsáveis pela proteção de áreas naturais, mas também para pautar as ações de representantes do Executivo e do Legislativo. “Não se trata somente de como administrar melhor as unidades de conservação, mas também de como salvar os últimos fragmentos florestais relevantes do Estado de São Paulo, ainda sem proteção ambiental”, explica ele. “De Jundiaí a serra do Japi, até o rio Paraná, temos cerca de 800 quilômetros de quase um vazio, uma imensa área devastada”, salienta. O Estado de São Paulo possui apenas cerca de 7% de sua cobertura vegetal preservada.

O trabalho pioneiro da equipe coordenada pelo professor já mapeou e propõe a criação de novas áreas protegidas a partir da indicação de 109 fragmentos prioritários, remanescentes de ecossistemas. “O primeiro deles está em vias de virar realidade, na área de confluência do rio Tietê e Piracicaba, em Barreiro Rico”, festeja. O tombamento dessas áreas, decretadas como Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie), determina o que pode e o que não pode se fazer nesses espaços. O maior problema está em estabelecer cooperação para o enriquecimento dessas áreas, oferecendo informações aos proprietários sobre o potencial de compensação ambiental.

Os fragmentos prioritários escolhidos, como esclarece a bióloga Lélia Marino, da Fundação Florestal, envolvida no projeto, levam em consideração as condições de conectividade dos fragmentos, ou seja, como eles se comunicam com os outros e também com a sua vizinhança. Trata-se de hierarquizar qual a importância de um fragmento em relação a outro selecionado, em questões como a preservação da fauna e flora. Uma área urbana é menos permeável para fauna do que um pasto, porque tem trânsito de mamíferos. O mesmo ocorre em um canavial, exemplifica Lélia. A conectividade permite aumentar a área ambiental preservada com melhor e maior qualidade. “Uma floresta isolada restringe geneticamente as espécies, o que não quer dizer que pequenas populações não possam resistir, apenas que fica bem mais difícil”, acrescenta o professor.

Abelhas, no terraço do casarão
Nascida quase acidentalmente – um vez que a opção inicial de carreira de Nogueira Neto foi o curso de Direito concluído em 1945 na USP -, a vocação para as questões ambientais teve inicio durante as visitas à fazenda da família da esposa. “Meu sogro tinha uma caixa de abelhas indígenas no terraço do casarão. Fui ler a respeito e vi que era um inseto pouco estudado”, relembra ele. “Nos últimos anos da faculdade de Direito já publicava artigos sobre abelhas em revistas científicas”, acrescenta. Foi nesse período que o grande amigo Paulo Vanzolini (doutor em Zoologia, professor na USP) aconselhou-o a tornar a paixão objeto regular de estudos. Oito anos depois de formado, prestou novo vestibular, dessa vez para História Natural na Faculdade de Filosofia da USP, curso que concluiu em 1959. Nesse período, Nogueira Neto já havia fundado talvez a primeira entidade conservacionista no país, a Defesa da Flora e da Fauna, hoje Associação de Defesa do Meio Ambiente.

A conceituação de meio ambiente, percebido com a relevância que tem hoje para a qualidade de vida em geral, inexistia no Brasil. Havia uma compreensão da importância da preservação dos parques nacionais, desde a criação do código florestal, em 1934. A concepção mais ampla viria com a divulgação dos grandes eventos internacionais, como a reunião sobre meio ambiente em Estocolmo, em 1972, da qual Nogueira Neto participou. Ainda no final do governo militar, ele foi convidado a comandar um órgão federal que cuidasse do tema, que viria a ser a Sema. “Me deram três salas e cinco funcionários apesar das dimensões continentais do país”, conta ele. “Engajei-me porque vi um grande futuro a ser construído nessa área tão carente. Permaneci no cargo por quatro governos. Foram mais de 12 anos como secretário federal”, acrescenta. Longe das disputas político-partidárias, Nogueira Neto conseguiu difundir a importância do ambientalismo no Brasil.

Durante diversos anos Nogueira Neto deu cursos sobre o comportamento dos animais sociais e sobre as mudanças climáticas e os ecossistemas terrestres. Foi um dos fundadores do Departamento de Ecologia Geral, no Instituto de Biociências da USP. Construiu uma carreira reconhecida interna e externamente. Pertenceu, entre 1983 e 1986, à Comissão Brundtland das Nações Unidas, sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Era um dos dois únicos representantes da América Latina.

Chefiou e participou de várias delegações oficiais ao exterior, recebendo a Ordem de Rio Branco, primeiro como oficial e depois como comendador. Foi duas vezes eleito vice-presidente do programa O homem e a biosfera, da Unesco, órgão das Nações Unidas responsável pela educação e cultura, com sede em Paris. Recebeu, em 1981, juntamente com Maria Thereza Jorge Pádua, o prêmio Paul Getty, a principal láurea mundial no campo da conservação da natureza, e também o Prêmio Duke of Edinburgh, em 1997, da WWF Internacional. Foi distinguido com a comenda da Arca Dourada (1983), dos Países Baixos, também pela sua atuação conservacionista.

Nogueira Neto conta com gosto descobertas como a da floresta de buritis, feita ainda na década de 1980 e até hoje impenetrável. “Nunca ninguém pôs os pés lá. Mandamos uma expedição, mas não foi possível chegar perto. Calculamos, em vôos rasantes, que a área, no máximo a 40 quilômetros do rio Amazonas, tenha uns 30 mil hectares de palmeiras, o que somaria cerca de 10 milhões de buritis. Não há nada similar no mundo”, empolga-se. O conhecimento sobre a biodiversidade nacional é bastante razoável nas regiões Sul e Sudeste do país.

Elaborou projetos para compatibilizar o desenvolvimento e a manutenção da floresta amazônica com a exploração do cupuaçu e para compatibilizar o trabalho dos seringueiros com outras técnicas. Acabou por patrocinar a criação da reserva extrativista Nova Esperança, na região de Xapuri, no Acre. Criou vínculos pessoais com moradores da região, tornando-se o que ele mesmo define como uma “espécie de conselheiro” de um grupo de 50 famílias que estão fora da reserva Xico Mendes.

Adquiriu uma pequena propriedade em que também mantém um apiário experimental. Outros similares, que visita regularmente com enorme satisfação, estão instalados no interior de São Paulo, em Campinas e em Ribeirão Preto, assim como em Luziânia, em Goiás. São abelhas diferentes. As do Acre são típicas da região e diferentes das outras criações de Nogueira Neto. A observação dessas colônias está trazendo novas informações ao já vasto conhecimento do professor sobre o tema, afinal são três livros publicados e até o final do ano um dicionário.

Portinari e os mateiros
Na época em que era morador na região dos Jardins há quase 50 anos, em São Paulo, adquiriu uma área de cerca de 2 mil metros quadrados do outro lado do rio Pinheiros, hoje o bairro do Morumbi, onde cultivava seu prazer de observar a natureza. “Aqui era considerado ‘fora da cidade’, tanto que fiz uma chacrinha, adubei as mudas, melhorei a qualidade da terra. Animais, como vacas, passeavam soltos pelas ruas”, ri da lembrança de uma cidade que desapareceu em poucas décadas. Atualmente, reside ali, na ampla casa que construiu e onde gosta de receber seis netos e, por enquanto, o único bisneto. “Acho que quando se faz o que se gosta o trabalho rende frutos e se multiplica em boas lembranças”, pondera.

A casa confortável e ampla reflete a paixão primordial de seu proprietário. Logo no saguão de entrada, uma abelha estilizada pelo artista plástico Aldemir Martins em cerca de 5 metros de comprimento domina o chão, montada em pastilhas de cerâmica. Numa das paredes principais na passagem para as salas, um quadro de Portinari feito por encomenda retrata os mateiros retirando mel de abelhas indígenas. “Num rasgo de ousadia dei a ele umas fotos, já que desconhecia o tema, para que pintasse o quadro”, lembra divertido. “Ainda bem que Portinari era acessível. Hoje é um exemplar raro, porque é o único quadro dele sobre o assunto”. O óleo de Portinari é de 1958.

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