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Pesquisa na quarentena

“Em isolamento, estou produzindo mais”

Jamille Dombrowski, estagiária de pós-doutorado no ICB-USP, conta como criou uma rotina para analisar dados de pesquisa e escrever artigos trabalhando em casa

Arquivo pessoal No laboratório do ICB-USP, que deixou de frequentar para ficar em casa, onde analisa dados e escreve artigosArquivo pessoal

Minha rotina mudou radicalmente no dia 16 de março. Como acontece toda segunda-feira, o professor Claudio Marinho, do Instituto de Ciências Biomédicas [ICB] da USP [Universidade de São Paulo], reuniu-se com estudantes, parceiros e colaboradores para discutir o andamento das atividades de pesquisa do Laboratório de Imunoparasitologia Experimental, que ele coordena. Faço estágio de pós-doutorado no laboratório e estava lá com meus colegas – dois alunos de doutorado, uma técnica e uma pesquisadora que tem um auxílio Jovem Pesquisador da FAPESP –, mas fomos avisados de que quem não estivesse participando de atividades essenciais estava dispensado. O professor Marinho me disse: ‘Vá trabalhar em casa’.

Nossa linha de pesquisa envolve a imunologia de malária gestacional. Sou enfermeira formada pela Universidade Federal do Acre e passei dois anos no município de Cruzeiro do Sul, no interior do estado, acompanhando 600 mulheres grávidas e coletando dados e amostras biológicas para o meu doutorado em ciências, defendido no ICB em 2018 e orientado pelo professor Marinho, com bolsa da FAPESP.

O meu pós-doc envolve a avaliação de amostras biológicas – que é o sangue coletado – e de um extenso banco de dados com as informações das gestantes, como dados clínicos e epidemiológicos, análise placentária e muitos outros. O objetivo é a identificação de biomarcadores no sangue periférico que indiquem precocemente se as gestantes com malária sofrerão lesões ou disfunção na placenta, o que pode levar a efeitos adversos na gestação.

A primeira parte da pesquisa, que envolve o processamento e análise das amostras, foi interrompida por conta da pandemia: os kits que compramos ainda não chegaram, enquanto outros materiais com pedidos para compra estão com o processo parado. Então, meu foco é a segunda parte, que é feita essencialmente no computador: a análise do banco de dados, gerando resultados para esse e outros trabalhos.

A nova rotina de trabalho requer disciplina para funcionar. No início da semana planejo todas minhas atividades estabelecendo objetivos e metas. Reservo a manhã para atividades que requerem concentração, como a leitura de trabalhos científicos e a escrita de dois artigos científicos do nosso grupo. Também estou ajudando a elaborar novos projetos de pesquisa. Procuro estabelecer tarefas bem definidas – em um dia, escrevo a introdução; no outro, me debruço sobre a metodologia; depois, analiso resultados. Na parte da tarde, quando minha capacidade de concentração cai um pouco, aproveito para participar de reuniões on-line com colegas, cuidar da orientação de alunos e fazer download de artigos na internet. O resultado é que, com esse isolamento, estou produzindo bem mais do que quando tinha de ir todo dia para a universidade. Moro longe da USP e dependo de transporte público – metrô e ônibus. Eu levava quase uma hora para chegar ao ICB pela manhã e hoje aproveito esse tempo para otimizar o trabalho em casa.

Os dois alunos de doutorado do nosso grupo continuaram a ir ao ICB, porque têm experimentos com animais que ainda estão em andamento. A recomendação é que eles visitem o laboratório com o mínimo de frequência possível e apenas finalizem os experimentos, sem começar novos. Logo eles não poderão ir mais até lá, pois o laboratório está sendo preparado para dar suporte ao diagnóstico do coronavírus.

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