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COOPERAÇÃO

Encontro de competência

Organização virtual, em São Carlos, une a USP e nove empresas

Uma forma inédita, no Brasil, de cooperação entre uma instituição acadêmica e pequenas e médias empresas está em desenvolvimento na cidade de São Carlos. É a Organização Virtual de Tecnologia (Virtec) formada pelo Núcleo de Manufatura Avançada (Numa), sediada na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), junto com mais nove empresas da região. A Virtec é uma reunião de empresários com habilidades e competências que se encontram – pessoalmente ou via computador – para trocar informações tecnológicas, satisfazer uma oportunidade de negócio ou desenvolver uma idéia que resultará em um novo produto.

Eles contam com o apoio de pesquisadores que colaboram na elucidação de problemas técnicos, fazem estratégias de marketing e estudam o mercado específico, necessário para cada projeto. Isso acontece como se todos participassem de uma única empresa, sem que exista uma holding ou escritório centralizador. O mentor dessa organização é um dos coordenadores do Numa, Carlos Frederico Bremer, professor da área de engenharia de produção do Departamento de Engenharia Mecânica da USP.

Bremer começou a pensar em empresas que se auto-ajudam ainda no tempo que fazia pós-graduação e morava, em uma república, em São Carlos. Ele e mais sete colegas desenvolveram um polímero que conduz eletricidade e não gera campo eletrostático. Com isso, eles resolveram fabricar o produto em forma de grânulos, para servir como matéria-prima na produção de sacos plásticos, por exemplo, que barram interferências eletrônicas quando utilizados em embalagens de placas de computador. Mas os sete jovens pesquisadores precisavam de uma granuladora que custava US$ 600 mil, inviável naquele momento. Encontraram, então, a máquina em uma empresa de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. O negócio começou a dar certo e parte dos colegas montou, posteriormente, a Mixcim, uma das atuais nove empresas da Virtec, que produz bandejas de circuitos eletrônicos que dissipam eletricidade e diversos outros produtos para a indústria eletroeletrônica.

“Depois de ler o livro Corporações Virtuais, do americano David Malone, em 1995, eu fui buscar mais informações sobre o assunto na Universidade de Aachen, na Alemanha, onde existia um projeto de formação de empresas virtuais”, explica Bremer. Lá, ele fez pós-doutorado, em 1996, e ficou um ano como professor daquela universidade pesquisando o assunto. Na volta, em 1997, integrou o projeto Numa, que faz parte do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), do qual participam alunos de pós-graduação de engenharia da USP de São Carlos e também pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).

Início de conversa
“A partir do final de 1997, nós começamos a conversar com algumas empresas da cidade e, em abril de 1998, já tínhamos oito membros. Hoje são nove, sendo que apenas duas indústrias são de médio porte, com mais de 100 funcionários”, afirma Bremer. No total, elas reúnem 350 funcionários e um faturamento conjunto de US$ 30 milhões por ano. “São empresas que sabiam da existência uma da outra, porém não conversavam e não trocavam experiências. Agora, elas cooperam entre si com tecnologia, produtos e processos.” As empresas participantes são a Fultec, Kehl, EDG, Mixcim, Latina, Hece, SF, Tecnomotor e Digimotor. Elas atuam – cada uma com sua competência – nos ramos de mecânica e mecatrônica, materiais cerâmicos, materiais poliméricos, sistemas hidráulicos, softwares aplicados à automação industrial, além de serviços de assistência técnica e de importação e de exportação.

Na Virtec, a virtualidade é exercida sempre que uma oportunidade de negócio aparece para uma empresa ou para o grupo. Aí, uma ou mais empresas unem suas habilidades e desenvolvem o produto ou serviço desejado pelo cliente ou por uma necessidade de mercado. “Assim é constituída uma empresa virtual, que, mesmo tendo várias empresas na elaboração de um produto, apenas uma aparece para o cliente, como representante do grupo”, explica Bremer. “As empresas podem ser criadas, dissolvidas ou reconfiguradas conforme a necessidade.”

Os primeiros produtos desenvolvidos internamente na Virtec foram alguns modelos de martelos com pontas de poliuretano vegetal biodegradável – com aspecto semelhante à borracha -, produzidas com melaço de cana-de-açúcar e óleo de mamona. Eles servem para montagem de vidros e no acabamento de peças de metal, sem danificar o produto. A empresa Kehl desenvolveu esse material como resultado de sete anos de pesquisa auto-financiada, tendo à frente o proprietário, o químico Eduardo Murgel Ferraz Kehl. Como não podia fazer todo o martelo de borracha, ele encontrou em outra empresa da Virtec, a Fultec, que produz materiais de ligas de aço especial, uma parceira ideal para desenvolver o cabo do martelo, que necessitava ser barato, leve e reciclável. Com o início da produção, houve grande procura e Eduardo Kehl resolveu repassar a fabricação do martelo. “Estamos negociando com uma empresa de São Paulo, que deve comprar a nossa matéria-prima e fabricar o produto.”

A Kehl também participou no desenvolvimento de outro projeto nascido no âmbito da organização. A Latina Eletrodomésticos procurava um amortecedor de coluna do motor elétrico para uma nova secadora de roupas. Por meio do intercâmbio interno da Virtec, a Kehl foi convidada a desenvolver o amortecedor feito de borracha comum. Como havia uma falta de conhecimento na absorção de vibração do amortecedor, foi acionado o Departamento de Engenharia Mecânica da Escola de Engenharia de São Carlos, que fez os testes necessários.

Hoje, o amortecedor já está na secadora. A Kehl também faz parte do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas, da FAPESP, com o projeto Otimização e Caracterização de Espuma de Poliuretano Biodegradável. Esse material, produzido com substratos de arroz, mamona e cana-de-açúcar, está em fase de testes para a produção de pequenos sacos para transporte de mudas de várias, culturas como citros, café e eucalipto. “Depois do plantio, esse saco se decompõe no solo e serve como um nutriente”, afirma Eduardo Kehl. Antes dos testes finais, ele já tem um pedido de 300 milhões de sacos feito por uma empresa do interior de São Paulo. O novo material está patenteado e é inédito em todo o mundo, segundo Eduardo Kehl. Esse tipo de espuma também poderá substituir o EPS, o popular isopor, nas embalagens de produtoseletrônicos.

Campo de estudo
Além de propiciar um ambiente de cooperação entre as empresas, a Virtec é um campo de estudo que está gerando diversos trabalhos acadêmicos. Foram produzidos cinco artigos em revistas internacionais e quatro apresentações no exterior sobre o projeto. Bremer também participa da Corporation of Small Medium Enterprise (Cosme) – Associação de Pequenas e Médias Empresas, uma entidade que promove reuniões semestrais entre pesquisadores de universidades dos países onde existem estudos sobre organizações virtuais, como Suíça, Alemanha, México, Inglaterra e Itália. Em São Carlos, esse tema foi objeto de vários trabalhos científicos. Somente no âmbito da Fapesp foram três bolsas de mestrado para os alunos Flávia Valéria Michilini, Jairo Eduardo Moraes Siqueira, Ana Paula Freitas Mundim e uma bolsa de iniciação científica para Christiane Goulart Peres.

Eles desenvolveram métodos para a formação de redes virtuais em indústrias regionais e redes de computadores que sirvam às pequenas e médias empresas participantes de uma organização virtual. Outra pesquisadora, Luciane Meneguim Ortega, que tem bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), estuda a questão cultural da união entre empresários na Virtec. “Em uma organização como esta prevalece, no início, uma insegurança mútua entre os participantes porque, muitas vezes, é necessário trocar informações, segredos industriais e comerciais. Hoje, depois de um ano, eles já expõem suas idéias e cooperam com mais facilidade”, explica Luciane. Para melhorar esse contato, os empresários aprovaram a contratação de um estagiário de quinto ano do curso de engenharia em cada uma das participantes da Virtec. “O objetivo é que ele conheça profundamente a empresa e tente encontrar um ponto de ligação com as outras e promover possíveis oportunidades de negócio”, explica Bremer.

Outro aspecto que incomodou os participantes da Virtec é a situação jurídica da organização. Como resolver possíveis quebras de sigilo ou como comercializar um produto que foi concebido junto com outra empresa do grupo? Para isso, está sendo criado um contrato inovador no país que vai reunir as características próprias de uma organização virtual. “A dificuldade é criar uma associação que não tenha uma conotação comercial e não figure como um grupo de empresas, porque existe um ingrediente acadêmico no grupo”, comenta o advogado Terêncio Augusto Mariottini de Oliveira, aluno de mestrado da área de engenharia de produção, orientado pelo professor Carlos Bremer.

“Elaboramos uma minuta do contrato que cria uma associação civil sem fins lucrativos vinculando as empresas participantes e o professor Bremer, como pessoa física (o Numa não é figura jurídica), por meio de cláusulas que ditam as regras, a natureza ética e a própria arbitragem”, explica Oliveira. Esse último item determina que os próprios empresários, junto com o professor Bremer, serão os juízes de qualquer conflito que possa surgir dentro do grupo. “Assim, as empresas abrem mão de ingressar na justiça comum em favor da arbitragem própria”, afirma Oliveira, que tem esse contrato como trabalho prático de sua dissertação.

A amarração jurídica vai ser importante para dar confiança e segurança no desenvolvimento de novos produtos. O próximo é um projeto de uma cadeira de rodas acionada eletronicamente, ainda não fabricada no Brasil, desenvolvida por quatro empresas da Virtec – Digmotor, Mixcim, Kehl e Latina. “Todos os participantes podem colaborar em algum ponto do projeto”, afirma Bremer. É o espírito da cooperação em uma organização virtual que avança em São Carlos e serve como exemplo para outras cidades e regiões do país.

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