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Memória

Entre estrelas, políticos e artistas

O recifense Mario Schenberg se destacou na física teórica, foi deputado e escreveu sobre artes plásticas

O físico em sua casa, por volta de 1982

Ana Clara Guerrini Schenberg

Só poderia ser um equívoco a encomenda que acabara de chegar a um prédio da rua São Vicente de Paula, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, em algum momento da década de 1950. Questionado pela esposa, o marido confirmou que, sim, os 25 pares de sapato eram para ele. O pedido havia sido feito horas antes, na loja de departamentos Mappin, no centro da cidade. O gesto, porém, estava longe de servir à ostentação. Ao adquirir tantos calçados, todos do mesmo modelo, o homem buscava finalmente se libertar da tarefa maçante de sair de casa para experimentar sapatos. Para quem prezava dedicar tempo e energia a leituras e debates sobre ciência, arte e política, obter de uma só vez todos os calçados que usaria para o resto da vida era uma questão de praticidade.

O desapego a peças de vestuário é lembrado por familiares e amigos como a antítese do espírito estético do físico teórico, matemático e crítico de arte recifense Mario Schenberg (1914-1990). “Ele detestava comprar roupa, então cabia à minha mãe essa tarefa”, recorda a filha, a geneticista Ana Clara Guerrini Schenberg, professora aposentada do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Pioneiro no Brasil em física teórica e astrofísica, ele foi professor de outros físicos brasileiros que se destacaram internacionalmente, como César Lattes (1924-2005), José Leite Lopes (1918-2006) e Jaime Tiomno (1920-2011).

Nascido Mayer Schönberg, filho de judeus russos de origem alemã, Schenberg terminou o curso secundário (atual ensino médio) em 1930 no Recife e se mudou para o Rio de Janeiro para fazer o curso preparatório para o vestibular. Desde cedo ele se interessava por história, arte e matemática. Queria estudar na Europa, mas, como a situação financeira da família não dava para tanto, voltou à terra natal e cursou a Escola de Engenharia de Pernambuco.

Em 1933 ele se transferiu para a Escola Politécnica de São Paulo (Poli), que no ano seguinte ajudou a formar a recém-criada Universidade de São Paulo (USP). O motivo que o atraiu para a capital paulista é que “cogitavam criar uma faculdade de ciências”, disse ele em depoimento para o livro Voar também é com os homens – O pensamento de Mário Schenberg (Edusp, 1994), do físico e historiador da ciência José Luiz Goldfarb, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Influenciado pelo físico ítalo-ucraniano Gleb Wataghin (1899-1986), que chegara à USP havia pouco tempo, ele migrou para a física.

Acervo IF-USP Schenberg trabalhando em 1937 em uma sala da Escola Politécnica da USPAcervo IF-USP

Formado em engenharia elétrica na Poli em 1935 e em Matemática na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras no ano seguinte, foi contratado por Wataghin para ajudar nas aulas de física experimental. Em 1938, diante das perseguições políticas do Estado Novo (1937-1945) a professores de universidades, Schenberg pediu uma bolsa de estudos de nove meses ao governo paulista e partiu para a Itália.

Foi no Instituto de Física da Universidade de Roma que ele começou a trabalhar com raios cósmicos, uma das áreas em que se destacaria, com o físico Giuseppe Occhialini (1907-1993) – anos depois, Occhialini foi professor da USP, convidado por Wataghin, e em 1947 integrou o grupo, junto com Lattes, que descobriu o méson-pi, partícula que ampliou a compreensão do mundo subatômico.

Em Roma, o físico pernambucano trabalhou com o italiano Enrico Fermi (1901-1954), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1938. Fermi, em 1932, foi quem deu o nome de neutrino à partícula subatômica prevista teoricamente em 1930 pelo austríaco Wolfgang Pauli (1900-1958). Neutrinos só foram observados experimentalmente em 1956. Ainda em 1938, ele colaborou em Zurique com Pauli, ganhador do Nobel de Física em 1945. Em Paris, ele trabalhou também com o físico francês Frédéric Joliot-Curie, laureado com o Nobel de 1935.

Ao voltar ao Brasil, em 1940, Schenberg era “uma pessoa diferente”, observou Wataghin. “Ele desenvolveu um belo trabalho sobre raios cósmicos e começou, depois, a trabalhar com eletrodinâmica”, relatou o físico ítalo-ucraniano em depoimento ao sociólogo Simon Schwartzman, autor de A formação da comunidade científica no Brasil (Companhia Editora Nacional e Finep, 1979). Wataghin argumentava que Schenberg havia aprendido muito em Roma, não tinha muito mais o que fazer no Brasil e, por isso, deveria partir novamente.

Arquivo Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – ECA-USP O físico com a crítica de arte Maria Eugênia Franco, nos anos 1940Arquivo Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – ECA-USP

Schenberg seguiu o conselho e no mesmo ano embarcou para a Universidade George Washington, nos Estados Unidos, com uma bolsa da Fundação Guggenheim, e integrou-se à equipe do físico George Gamow (1904-1968), russo naturalizado norte-americano. “Schenberg introduziu o neutrino na astrofísica para explicar o colapso estelar, que dá origem ao processo explosivo nas estrelas chamadas novas e supernovas”, comentou Alberto Luiz da Rocha Barros (1930-1999), que foi professor do Instituto de Física da USP (IF-USP) e assistente de Schenberg, em um artigo na revista Estudos Avançados publicado em abril de 1991.

O trabalho sobre neutrinos, publicado em 1941, deu projeção internacional a Schenberg. “Foi em uma conversa com Gamow que Schenberg teve a ideia, como uma epifania, de que a perda dos neutrinos por uma estrela poderia causar o fenômeno das [estrelas] supernovas”, escreveu o físico Antonio Carlos da Silva Miranda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em um capítulo do livro História da astronomia no Brasil (Mast, MCTI, 2014).

A descrição desse fenômeno, que Gamow batizou de efeito Urca, contribuiu para a consolidação da teoria do Big Bang, a explosão que teria gerado o Universo há 13,8 bilhões de anos. Gamow escolheu esse nome depois de visitar um cassino no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, com a mulher e Schenberg. “Em homenagem ao Brasil, vamos chamar de efeito Urca, porque a energia some tão rapidamente no centro da estrela como o dinheiro no cassino da Urca”, explicou Schenberg em depoimento a Schwartzman.

Na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, Schenberg trabalhou com o astrônomo norte-americano de origem indiana Subrahmanyan Chandrasekhar (1910-1995). Em 1942, os dois publicaram juntos um estudo sobre a evolução das estrelas, que se tornou uma referência no desenvolvimento da astrofísica estelar, no qual estabeleceram o chamado limite Schönberg-Chandrasekhar (Schenberg assinava seus artigos científicos como Mario Schönberg, usando o sobrenome original da família paterna).

Mast / CNPq Schenberg, entre José Leite Lopes (à dir.) e César Lattes, em uma reunião com Antônio Moreira Couceiro, dirigente do CNPq, em 1958Mast / CNPq

O limite Schönberg-Chandrasekhar estabelece um máximo de massa das estrelas a partir do qual elas se contraem por colapso gravitacional, iniciando a fusão nuclear do elemento químico hélio. Schenberg considerava esse trabalho como o mais importante de sua carreira. Na época, tinha 28 anos. Em 1983, Chandrasekhar recebeu o Prêmio Nobel de Física pelos estudos teóricos de processos físicos do interior das estrelas.

“Poucos brasileiros trabalharam com tantos cientistas brilhantes e laureados, como Fermi, Chandrasekhar e Gamow”, observa o físico Luís Carlos Menezes, do IF-USP,, que foi aluno e depois amigo de Schenberg. “Ele era muito respeitado e admirado internacionalmente.”

Novamente de volta ao Brasil, no final dos anos 1950 e início dos 1960, Schenberg ajudou a criar o Departamento de Materiais e Mecânica e o Laboratório de Física do Estado Sólido, ambos no IF-USP, e participou da compra do primeiro computador da USP. “Para ele, a nova revolução tecnológica viria da física dos materiais, com o uso de silício e cristais”, salienta Goldfarb, que o conheceu em um seminário na USP sobre o físico inglês Isaac Newton (1643-1727). “Ele estava certo, porque depois essa área foi a base para o desenvolvimento de computadores e de toda a indústria de tecnologia da informação.”

Afeito à abstração, acostumado a partículas invisíveis e campos imateriais, Schenberg transitava com facilidade pelo mundo colorido e vibrante da arte. O gosto por telas, esculturas e arquitetura vinha da infância. “Tive um interesse permanente pela arte desde os 8 anos de idade, quando visitei pela primeira vez a Europa com meus pais”, ele contou no que chamou de currículo artístico, escrito por ele mesmo em 1983. “Visitei numerosos museus, catedrais e palácios.”

Arquivo Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – ECA-USP Amigo e incentivador de jovens artistas, também colecionava quadros (em sua casa, década de 1950)…Arquivo Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – ECA-USP

Schenberg recebia em sua casa artistas jovens. “Às vezes, o trabalho que apresentavam não parecia interessante, imaturo ainda, mas o Mario sempre tinha atenção para ele, era sempre capaz de estímulo”, contou o poeta e tradutor paulistano Haroldo de Campos (1929-2003) em depoimento para o livro Diálogos com Mario Schenberg (Nova Stella, 1985), organizado por Goldfarb.

“Participei de várias reuniões na casa de Schenberg”, conta o artista plástico José Roberto Aguilar. “Na mesma noite, ele conversava com Lattes sobre partículas atômicas e em seguida com o músico Jorge Mautner sobre seu maracatu atômico.” A mineira Lygia Clark (1920-1988) e o carioca Hélio Oiticica (1937-1980) também desfrutaram do que Campos chamava de “escuta poética” de Schenberg para definir a habilidade do físico em ouvir com atenção antes de fazer eventuais críticas, sempre com delicadeza.

Como os físicos Roberto Salmeron (1922-2020) e Leite Lopes, Schenberg conciliou a trajetória acadêmica com a atuação política e foi eleito duas vezes deputado estadual em São Paulo. A primeira em 1946, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), e a segunda em 1962, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Ele participou da elaboração da Constituição paulista de 1947 ao lado de outros intelectuais, como o historiador Caio Prado Júnior (1907-1990). O artigo 123 da nova Constituição determinava que o apoio à pesquisa científica seria propiciado pelo Estado e instituiu as bases para a criação da FAPESP em 1962.

Acervo IF-USP …conciliando a arte com suas leituras de astrofísica e física teórica ( em 1983)Acervo IF-USP

Ele permaneceu no país no período mais repressivo do governo militar (1964-1985). Filiado ao PCB, foi cassado, preso e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), mas permaneceu no país. Quando invadiram seu apartamento, policiais levaram a escultura de um santo católico, de estilo barroco, confundido com o revolucionário russo Vladmir Lênin (1870-1924). Também confiscaram vários livros, entre os quais um exemplar de Diálogos, de Platão, taxado de obra subversiva pelas autoridades.

“Após ter sido libertado, meu pai conseguiu uma liminar para ir à delegacia e explicar aos policiais que não havia como Platão ter sido comunista”, recorda Ana Clara Schenberg. “Ele conseguiu pegar de volta o livro, não sem antes dedicar horas à popularização da filosofia platônica na delegacia. Durante meses, ele ia à delegacia todas as quintas-feiras e passava a tarde dando explicações sobre o conteúdo dos livros apreendidos até conseguir recuperá-los.”

“Como os amigos se dispersaram, nessa época ele se dedicou mais à crítica de arte e, vez ou outra, a pintar umas telas”, conta Aguilar. Sem dar as costas à física, tornou-se assíduo em bienais, galerias de arte e estúdios de artistas. Ele participou do Júri da Bienal de São Paulo em 1965 e 1967 e foi membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte.

Embora ateu, quando já estava com a saúde debilitada ele pediu para um monge budista comparecer ao seu velório. “Era muito interessado por religiões e ia à umbanda, à sinagoga e a templos”, conta Goldfarb. “Ele dizia que a religião tinha um fundo de coisas que não entendemos, mas um dia poderíamos entender.”

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