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Resenha

Baianos fundamentais

Entreamigos: Carybé & Verger Gente da Bahia | Solisluna Editora 168 páginas R$ 90,00

Livro revela em imagens a amizade de Verger e Caryb

Eram amigos, mas se tratavam de forma bonachona, como raposa e corvo. “Mon Cher Carybé, Cara de Carybé, Cara de Cariba machão, Cara de Otun Obá Onã Sokun, Cara de Raposa e Monsieur Le Renard” era como o fotógrafo e etnólogo francês, convertido em soteropolitano, Pierre Verger (1902-1996) se dirigia em cartas ao amigo argentino, mas baianíssimo de coração, o pintor, gravador, ilustrador, ceramista e entalhador Carybé (1911-1997), apelido de Hector Julio Páride Bernabó, adotado ainda criança pelo artista, quando escoteiro na Gávea, Rio de Janeiro, em homenagem a um peixe amazônico. “Mon Cher Pierre, Velho Pierre, Querido Fatumbi, Caro Oju Obá, Zangbetô Windi, Mon Cher monsieur le Corbeau” era como respondia Carybé. Essa amizade acaba de render um belíssimo livro editado pela Fundação Pierre Verger (que completa 20 anos de existência), o primeiro da trilogia Entreamigos: Gente da Bahia.

Os próximos dois tomos trarão a paixão dos dois pelo mar e pelo candomblé, meio século de amizade e construção de um dos grandes acervos culturais da Bahia.  A obra é um primor de beleza estética, trazendo de quebra ensaios muito bem escritos do jornalista José de Jesus Barreto, com direito a textos inéditos dos amigos e sobre eles da pena de Jorge Amado, entre outros. A cada foto de Verger corresponde uma perfeita tradução em tintas feita por Carybé. Longe de uma mera repetição, são dois modos complementares de celebrar a baianidade em seu apogeu, durante a chamada “renascença” da cultura da Bahia, durante os anos 1950, em que Salvador ganha status de pólo de referência cultural de modernidade e tradição, reunindo figuras como Koellreuter, Lina Bo Bardi, Roger Bastide, Pancetti, Amado, entre tantos outros. Longe do mero exotismo, são tempos em que a Bahia se toma de orgulho pelo seu cadinho de diversidade candente de inovações e de religiosidade. A chegada da Petrobras, na seara da descoberta do petróleo, em Lobato, traz progresso e dinheiro, sem falar na BR-116, que ligava Salvador à então capital federal carioca. É também a época da chegada do educador Anísio Teixeira, trazido pelo governo Mangabeira, para colocar em prática experimentações de educação pública com a criação dos Centros Integrados de Ensino.

O candomblé, de religião perseguida, passa a culto admirado pela sua riqueza, pólo de atração para pessoas como Verger, que buscam semelhanças entre as culturas nascidas no Brasil e seus contrapontos africanos, revelando identidades inesperadas e reais. É desse cadinho que nascerá o Cinema Novo e, mais tarde, a Tropicália. Conceitos como baianidade, negritude, até então estigmatizados, viram bandeiras que reafirmam a identidade do povo da Bahia. Verger e Carybé testemunham essa revolução silenciosa e, por meio de suas artes, ajudam a construir, ainda que fossem estrangeiros, essa nova consciência. O parisiense Verger era um viajante inveterado que desembarcou em Salvador em 1946, seduzido pelas descrições feitas por Amado da cidade. Foi seduzido de imediato pela hospitalidade local e apaixonou-se pela dignidade e pela nobreza dos negros, que retratou como figuras vivas, mas com um toque de imortalidade. Estudou os orixás e foi para a África entender melhor a cultura soteropolitana, ganhando o título honroso de Fatumbi, “nascido de novo graças a Ifá”, em 1953. Ao longo da vida foi cada vez menos fotógrafo e cada vez mais etnólogo com uma câmera na mão e uma teoria na cabeça.

Carybé chegou a Salvador em 1938 para ser correspondente de um jornal que faliu meses após ele se estabelecer na capital baiana, igualmente atraído pelas descrições de Jorge Amado. Sua pintura adquire o balanço da cidade, plena de movimento, ritmos e surpresas, em que nada é deixado ao acaso ou pouco reconhecível. Curiosamente, trabalha com uma notável economia de traços. Ambos compartilham, além do olhar carinhoso pela gente e pelos costumes da Bahia, um distanciamento de qualquer denúncia social, tão forte naqueles tempos. Sua arte não se interessa pela paisagem, mas pelas pessoas, que mostra sempre elevadas por um espírito orgulhoso. O mesmo está presente nas fotos etnológicas de Verger. “Se tenho alguma vaidade dos meus livros é como a leitura deles, no Brasil e no estrangeiro, trouxe à Bahia gente vinda pela mão da moça Gabriela. Dois dentre eles se fizeram baianos fundamentais: o artista Carybé e Pierre Verger, dois principais preservadores da memória do povo baiano. São dois obás da Bahia”, escreveu Jorge Amado.

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